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Gilles Lapouge
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Deflação: armadilha europeia

Boa notícia: a Europa sai, enfim, da crise da dívida. Má notícia: apenas o céu começava a desanuviar, novas nuvens começaram a escurecer o horizonte, com um nome assustador: a deflação.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2013 | 02h03

Prova de que a Europa virou a página da crise: o grupo do euro aprovou, na quinta-feira, o fim do planos de ajuda a Espanha e à Irlanda, implementados nos dois anos após o naufrágio de seu setor bancário. Isto quer dizer que a austeridade que causou tantos desgastes nos país e em toda a Europa meridional vai enfim ser abandonada.

Isto era motivo para todo o mundo ficar contente, mas uma nova sirene tocou para anunciar um renovado perigo: a deflação. Este ano, a inflação média na zona do euro caiu para 0,7% enquanto o Banco Central Europeu (BCE) tinha a missão de manter a inflação média em 2%. Na França, ela está em 0,7%, mas na Espanha caiu para zero. Na Grécia, está negativa, em - 1,9%.

A deflação é um inimigo muito perverso porque as pessoas não compreendem que ela injeta veneno nas veias da economia. Um efeito da deflação? Uma queda duradoura e generalizada nos preços. É bom que se diga que as famílias e os consumidores acolhem uma queda nos preços como uma bênção. Eles gastariam menos para fazer suas compras ou adquirir eletrodomésticos. Mas a deflação elimina o crescimento.

As famílias adiam suas compras na expectativa de novas quedas de preços, o que reduz as encomendas das empresas, penalizando com isso os salários, os investimentos e, por conseguinte, o crescimento. E por um efeito automático, a queda dos preços infla o custo do financiamento dos Estados. Em suma, a dívida pública, em vez de cair, continua a crescer.

Como explicar que a Europa, no exato momento em que reencontrava um pouco de fôlego, fosse assaltada por este novo inimigo, a deflação? Um fator pesou fortemente aqui: a queda dos preços da energia (na França, por exemplo, eles caíram 1,7% em um ano). Mas há também um fator específico desta "máquina infernal" que é a zona do euro.

De fato, como a moeda única (o euro) administrada pelo BCE substituiu as moedas nacionais, cada país perdeu a soberania de sua moeda. Por conseguinte, ele não pode desvalorizar. A Grécia, por exemplo, quando foi sacudida pela crise da dívida, teria podido se safar desvalorizando sua moeda, o dracma.

Agora isto está fora de questão, infelizmente: o drama não existe mais. Ele foi substituído pelo euro. O que fizeram então os países estrangulados? Procederam o que se costuma chamar de uma "desvalorização interna".

Procuraram reconstruir sua competitividade - as vezes com sucesso - reduzindo os salários e os preços. Aí se origina a espiral da deflação.

Um dos encantos da economia e, sobretudo, das teorias econômicas, é que a todo momento escutam-se da boca dos especialistas e dos banqueiros tudo e o seu contrário. Por exemplo, há economistas muito sérios que defendem a teoria oposta. Os alemães têm em geral uma grande ternura pela deflação. Michael Heise, economista-chefe da seguradora Allianz, em Munique, longe de maldizer a deflação a aceita e quase a deseja. "A redução dos preços na zona do euro é uma boa coisa." E ninguém duvida que a chanceler Angela Merkel tenha a mesma opinião. Tudo, menos inflação! Ante essas advertências, o campo dos "antideflacionistas" responde citando um exemplo contemporâneo: o poderoso Japão se debate há 20 anos nas areias movediças da deflação. Ao que parece, ele está começando a se livrar de seu abraço mortal, mas depois de quantos anos perdidos e quantas cicatrizes em todo o tecido industrial do país! / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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