Deflação levada, afinal, a sério

Dúvida do mercado é se o 'Super Mario' conseguirá agora manter a recuperação da economia

Neil Irwin, The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2014 | 04h02

O Banco Central Europeu (BCE) parecia irremediavelmente incapaz de agir e seus líderes não adotaram nenhuma medida enquanto o continente dirigia-se inexoravelmente para uma deflação similar à do Japão. Não mais.

Mario Draghi, presidente do BCE, anunciou uma série de medidas que finalmente indica - para os mercados, empresas e cidadãos europeus - que o banco está determinado a impedir que o continente se enquadre numa situação de crescimento estagnado e uma deflação de preços e salários.

Eram medidas que todos aguardavam, particularmente uma mudança na direção de uma taxa de juro negativa sobre os depósitos bancários no BCE. Um pouco menos esperado foi o anúncio de um programa de empréstimos direcionados de 400 bilhões aos bancos para incentivá-los a dar mais crédito a famílias e empresas.

E mais importante do que qualquer medida anunciada na reunião foi a mensagem enviada por Draghi: "Se necessário, agiremos rapidamente com novo afrouxamento da política monetária". Disse ainda que a decisão foi unânime, como também "o compromisso de usar instrumentos não convencionais dentro do seu mandato, se for necessário, para combater ainda mais os riscos de um período prolongado de inflação baixa".

O BCE decidiu não usar sua "bazuca" metafórica, que seria copiar outros bancos centrais que adquiriram títulos utilizando dinheiro novo, o chamado afrouxamento quantitativo. Essa é uma questão mais complicada na Europa do que nos EUA ou na Grã-Bretanha porque o BCE terá de adotar medidas delicadas politicamente sobre de que país adquirir títulos.

Mas Mario Draghi delineou o mais explícito plano de ação do que seria um programa de afrouxamento quantitativo, afirmando que o BCE "decidiu intensificar um trabalho preparatório relacionado com compras diretas". E indicou que o banco comprará títulos lastreados em ativos do setor privado - não os títulos de governo privilegiados pelo Federal Reserve e o Banco da Inglaterra.

O presidente do BCE afirmou que, se necessário, "trabalharemos com mais rapidez e estamos realizado um trabalho preparatório de compras de ativos. E, se os resultados econômicos não forem melhores, o afrouxamento quantitativo estilo europeu será implementado.

O que reforçou a decisão foi a extraordinária redução da previsão da inflação pelo BCE. Esta semana, surgiram notícias de que a inflação na zona do euro caiu para 0,5% no ano encerrado em maio, bem abaixo da meta de 2% do banco. O BCE espera agora que a taxa retorne somente a 1,1% em 2015 e 1,4% em 2016.

E de fato, as projeções da equipe do banco indicam que não serão adotadas medidas para provocar um aumento da inflação e o banco assim se comportará por pelo menos alguns anos. A dúvida agora é se o "Super Mario", como os tabloides europeus costumam chamar o presidente do BCE, conseguirá manter a recuperação.

No tocante a Mario Draghi esta é a mais recente prova de suas qualidades táticas. No verão de 2012, quando a moeda comum corria o risco de desaparecer, o BCE reuniu apoio interno à promessa de escorar os governos dos países financeiramente. Quando prometeu "tudo o que for necessário" para preservar a unidade europeia, ele conseguira um amplo consenso no conselho diretor de 23 membros do BCE. Similarmente, ao mesmo tempo que economistas se inquietavam com a ameaça deflacionária nos últimos meses.

O presidente do BCE agiu judiciosamente, criando apoio interno para as estratégias políticas que resultaram nas medidas adotadas ontem por unanimidade.

"E terminamos?", indagou ele retoricamente num determinado momento da coletiva. "A resposta é não. Se necessário, não encerraremos aqui." / Tradução de Terezinha Martino

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