André Dusek/Estadão
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Deflação reforça aposta em corte na Selic

Inflação de SP registra queda de 0,42%, maior desde novembro de 1998; analistas já falam em juro de 6,5% na próxima reunião do Copom

Maria Regina Silva e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

02 Março 2018 | 22h40

As surpresas favoráveis com a inflação no início do ano e a percepção de continuidade da recuperação gradual da economia estão levando a um aumento no mercado das apostas de que a Selic deve cair de 6,75% para 6,5% na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) deste mês. Na sexta-feira, 2, dados divulgados pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) reforçaram a tese.

Segundo a Fipe, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), que mede a taxa de inflação na capital paulista, registrou deflação de 0,42%, a mais intensa desde novembro de 1998 (-0,44%). Em janeiro deste ano, o IPC teve de alta de 0,46%. Em 12 meses, o indicador subiu de 2,07% ante 2,41% no mesmo período até janeiro.

A maioria das projeções ainda é de manutenção dos juros em março. As leituras de inflação e as medidas subjacentes baixas, porém, vêm dando respaldo a um movimento de revisão nas estimativas para a Selic, uma vez que o Banco Central (BC) colocou em seus comunicados que essa condição poderia permitir uma flexibilização adicional. Só que essa mudança de apostas parece estar se intensificando após o Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre ter frustrado alguns economistas

“Analisando os dados mais recentes, não apenas referentes à atividade econômica - que sugere recuperação gradual neste início de ano - mas também à inflação, revisamos nossa expectativa para a taxa Selic, e prevemos agora mais um corte de 0,25 ponto porcentual na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária)”, argumenta a equipe econômica do Bradesco em relatório.

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Houve entendimento no mesmo sentido entre os participantes das reuniões dos diretores do BC com analistas do mercado, de que a inflação vem surpreendendo e, além disso, a retomada da atividade prossegue de forma gradual, o que justificaria novo corte do juro este mês. Os encontros servem para embasar o Relatório Trimestral de Inflação (RTI). “A dúvida é qual será a estratégia do BC, pois agora parece que há mais espaço para outro corte”, relatou um dos presentes das reuniões com o BC.

Aposta. Assim como o Bradesco, a Rio Gestão de Recursos também alterou ontem a expectativa de Selic de 6,75% para 6,50%. Conforme o economista Bernard Gonin, os indicadores abaixo do previsto e a dinâmica ainda frágil da atividade reforçam tal cenário. “A queda do IPC-Fipe veio forte, e as expectativas tendem a migrar para novo corte. Está com jeito de que será 6,50%”, diz.

O economista Fábio Romão, da LCA Consultores, cita as surpresas com a inflação, que o levaram a reduzir a projeção do ano de 4,3% para 4%, como a principal causa para a revisão do cenário de Selic da instituição, de 6,75% para 6,50%, nesta semana. A consultoria acrescenta que os fatores de risco para a reversão na cena externa, ainda benigna, continuam presentes, mas não parecem capazes de mudar permanentemente o humor nos mercados mundiais e provocar um forte aumento da aversão global ao risco, conforme relatório.

Contudo, o cenário externo desafiador é apontado como um dos motivos para manter a expectativa de que a Selic deve continuar em 6,75% em março pelo economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawall.

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“O balanço de risco está equilibrado. A economia está se recuperando gradativamente e a inflação tem surpreendido para baixo, mas não aprovamos a reforma da Previdência ainda, temos uma eleição pela frente e um cenário externo desafiador. Então, é mais provável manter 6,75%”, sustenta o ex-secretário do Tesouro Nacional.

Além disso, Kawall ressalta que o horizonte relevante do BC deve cada vez mais se encaminhar para 2019, ano em que as expectativas seguem ancoradas em 4,25%.

Alimentação. “Houve alívio disseminado, mas a principal influência de baixa no IPC foi de Alimentação, com quedas em vários produtos, especialmente carne bovina, aves, legumes e verduras”, diz Moacir Mokem Yabiku, gerente técnico de pesquisa do IPC.

De acordo com ele, só o grupo Alimentação, que caiu 0,95% no confronto com aumento de 1,95% no primeiro mês do ano, deu impacto negativo de 0,24 ponto porcentual no IPC do período.

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O indicador teve queda de 0,42% em fevereiro na comparação com elevação de 0,46% em janeiro. Em fevereiro, houve recuo de 2,45% nos preços de carne de bovina após retração de 0,12% em janeiro. Ainda, declínio de 2,77% em aves na comparação com queda de 0,26% anteriormente, com destaque para frango, cuja variação negativa se acentuou para 2,88% ante -0,08% no primeiro mês do ano. "A carne de frango ficou na terceira posição do ranking das maiores pressões de queda no IPC deste mês", conta.

Já legumes, passaram para recuo em fevereiro de 3,86%, depois da alta de 19,90% em janeiro.

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