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Degola da diretoria não vai solucionar problemas da Petrobrás

Preço do petróleo em baixa, custos de produção elevados no pré-sal, investimento movido a dívidas e escândalo de corrupção dificultam a condução da empresa, mesmo com novos dirigentes

Economist.com

04 Fevereiro 2015 | 15h17

A Petrobrás costumava impressionar o mundo com sua experiência na exploração de reservas de petróleo milhares de metros sob o fundo do mar. Agora a gigante brasileira do petróleo é mais conhecida por explorar outro tipo de fundo: mergulhada num escândalo de suborno, endividada e com valor calculado em um quarto dos US$ 405 bilhões que a empresa alcançou pouco depois de sua oferta pública inicial em 2010. 

No dia 3 de fevereiro, a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, cujo governo detém participação de controle na empresa, finalmente cedeu às pressões e decidiu substituir a criticada diretora, Maria das Graças Foster.

Os investidores celebraram: as ações da Petrobrás, que tiveram queda de 20% na semana passada, registraram recuperação de 10% quase imediatamente. 

Mas a maioria dos problemas da Petrobrás não é culpa de Graça Foster. O governo toma a maioria das decisões estratégicas da firma. Essas incluem exigir que a empresa contrate e compre peças do ineficiente setor de serviços do petróleo, levando a atrasos e imensos inchaços nos custos; construir caras refinarias no empobrecido Nordeste em nome do desenvolvimento regional; e ser a única operadora principal nos vastos campos do pré-sal, descobertos nas profundezas da costa brasileira em 2006.

Pior de tudo, desde 2006 o governo mantém o preço da gasolina artificialmente baixo para conter a inflação. Incapaz de atender à crescente demanda com a produção própria, a Petrobrás teve de importar gasolina e diesel, vendendo-os com prejuízo. Em 2011-13 isso teve um custo estimado de R$ 48 bilhões (US$ 21 bilhões). 

O ministro da Fazenda de Dilma estaria ocupado na busca por um substituto para Graça Foster. O sucessor dela vai enfrentar numerosos desafios. Com o preço do petróleo na casa dos US$ 50 por barril, boa parte do petróleo do pré-sal renderia um lucro mínimo. Apesar do investimento (movido a dívidas) de US$ 40 bilhões ao ano, a produção estagnou no patamar dos 2 milhões de barris diários nos quatro anos mais recentes, e deve aumentar apenas 4,5% em 2015. A meta declarada no ano passado de dobrar a produção para 4,2 milhões de barris diários até 2020 parece otimismo ingênuo, ainda mais diante da decisão (razoável) de cortar o investimento em US$ 7 bilhões a US$ 10 bilhões, anunciada na semana passada.

Há também o monstro marinho da corrupção. Sua cabeça foi vista pela primeira vez em março, quando a polícia federal prendeu Paulo Roberto Costa, diretor do braço de refinarias da empresa entre 2004 e 2012, sob a acusação de lavagem de dinheiro. Em delação premiada, Costa confessou ter canalizado 3% do valor dos contratos assinados com sua divisão para encher os bolsos de políticos. A promotoria identificou pelo menos R$ 2,8 bilhões de reais (US$ 1 bilhão) em pagamentos suspeitos. Investidores estrangeiros furiosos deram entrada em numerosos processos contra a empresa em Nova York, onde parte de suas ações é negociada.

A Petrobrás também está tentando dar um jeito no custo dos contratos superfaturados. Esperava-se que a empresa reduzisse em decorrência dos subornos o valor calculado para seus ativos nos rendimentos do terceiro trimestre - que era aguardado em novembro, mas foi adiado duas vezes para que a empresa tivesse tempo de finalizar os cálculos e chegar a um número. Em vez disso, a Petrobrás chegou a dois números, nenhum dos quais agradou a Foster. Se aplicarmos a fatia de 3% de Costa aos contratos suspeitos, temos R$ 4 bilhões. O ajuste dos ativos envolvidos para o valor de mercado indica que eles perderam impressionantes R$ 88 bilhões em relação ao valor contabilizado. Outros ativos parecem subvalorizados em R$ 21 bilhões, mas a lei brasileira só permite que os valores sejam revistos para baixo, e não para cima.

A estimativa mais baixa provavelmente oculta as dimensões do problema, que pode se estender para além do antigo domínio de Costa; a soma mais alta, equivalente a 15% dos ativos da Petrobras, é quase certamente exagerada, já que calcular o valor de cada instalação individualmente exclui os ganhos de economia de escala. E parte da desvalorização seria de responsabilidade da administração incompetente, e não da corrupção.

Sem uma revisão crível do valor de seus bens, a auditora da empresa, PwC, se recusou a assinar o relatório (ninguém sabe como a auditoria falhou em detectar os ativos supervalorizados nos anos anteriores). 

Na semana passada a Petrobrás publicou o balanço do terceiro trimestre mesmo assim, pois era necessário fazê-lo antes de março para evitar o início de uma moratória técnica. Mas, se um balanço anual aprovado pela auditoria não for divulgado até julho, os credores podem exigir a devolução imediata de até US$ 56 bilhões. 

Levando-se em consideração o quanto foi difícil determinar o número, essa possibilidade não pode ser descartada. Com apenas US$ 25 bilhões em caixa, US$ 21 bilhões em dívidas com vencimento este ano e acesso limitado ao financiamento por causa da falta de balanços auditados, a empresa pode precisar de um resgate do governo para cumprir essas obrigações.

Para enfrentar esses problemas será necessário talento incomum. Mas a tarefa mais importante para o novo diretor da Petrobrás será resistir à interferência do estado. A interferência do governo fez da empresa a menos rentável entre as grandes companhias do setor energético mundial, de acordo com relatório publicado no ano passado pelo Credit Suisse. Mas o banco também constatou que, quando a interferência era mínima, como na prospecção de novas jazidas e extração, a Petrobrás é quase a melhor. Espera-se que Dilma tenha finalmente percebido isso também.

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Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com 

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