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Déja vu

A pressão que ganhará força será sobre o BC, para uma queda mais rápida dos juros

Adriana Fernandes, Impresso

03 Dezembro 2016 | 05h00

Michel Temer fracassou na promessa feita assim que assumiu o comando do País, depois do traumático afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff, de garantir o início da retomada do crescimento econômico ainda este ano. Não há surpresa nenhuma no fato de que a economia não pode viver apenas de expectativas de que o cenário vai melhorar. Se elas não se concretizam, a economia real não se move. É o que está acontecendo agora com o Brasil.

A permanência do clima de ebulição política e do embate entre os Poderes tem sido crucial para impedir que a confiança adquirida no início do governo Temer se transforme em fatos concretos capazes de estimular de verdade os investimentos.

Por ora, é difícil saber se foi equivocada a opção tomada pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, de aceitar levar adiante um ajuste fiscal gradual, que de fato abriu inicialmente espaço para maiores gastos. Estratégia, aliás, que ajudou Temer a atender as demandas diversas que surgiram até o afastamento definitivo da ex-presidente Dilma, vindas sobretudo do corporativismo. Apertar uma economia deprimida com mais impostos poderia ter afundado ainda mais as empresas e ampliado o desemprego. Fora que o espaço político para a elevação da carga tributária era e continua sendo muito pequeno.

Os políticos que resolveram ressuscitar nos últimos dias o mantra da defesa de uma agenda de “reanimação” econômica com críticas e frituras já conhecidas do ministro da Fazenda estão colocando ainda mais incertezas no cenário já tenebroso. Não há como dissociar essa pressão de uma tentativa de enfraquecimento do ministro da Fazenda.

É tudo o que o País não precisa agora. Gostem ou não de Meirelles.

Essas lideranças sabem que são poucos os instrumentos que o governo tem hoje à disposição para dar injeção de estímulos pró-crescimento. Pelo menos, nos moldes antigos, como muitos empresários e aliados ainda insistem em demandar. O raio de ação do governo nesse área se restringe a medidas regulatórias para a melhoria do ambiente de negócios.

Não há dinheiro no caixa e as resistências ao aumento de tributos (medida proposta pelo ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga) são muito maiores do que na época do governo Fernando Henrique Cardoso, quando essa política foi adotada.

Medidas microeconômicas têm lá seus efeitos positivos, mas também não vão resolver as dificuldades atuais que têm o DNA político entre as suas principais causas.

Os interesses políticos por trás desse pressão, capitaneada pelo PSDB com o apoio explícito do presidente do Senado, Renan Calheiros, e outros caciques peemedebistas são muitos e diversos, ligados inclusive ao desenrolar da operação Lava Jato. Não é demais lembrar que boa parte das medidas regulatórias de agenda econômica que agora pedem os críticos de Meirelles poderia ter avançado no Congresso.

Excetuando a votação da PEC do teto de gastos, a pauta prioritária dos congressistas ficou centrada em propostas de interesses muito mais políticos do que econômicos, como o projeto anticorrupção, as tentativas de anistiar o caixa 2 e de flexibilização das regras do programa de repatriação para beneficiar políticos.

É muito perigoso o caminho que começa a se desenhar em Brasília com a antecipação dos ataques a Meirelles, que só eram esperados mais para o final do governo, à medida que se aproximassem as próximas eleições presidenciais. A piora do PIB mudou o plano de voo.

Esse filme já foi visto no passado com os ex-ministros da Fazenda Joaquim Levy e Nelson Barbosa, que foram cobrados por não darem respostas ao crescimento e concentrarem os seus esforços no ajuste fiscal. Eles tentaram reagir à pressão com medidas mal-acabadas que de nada adiantaram.

A efetivação de Dyogo Oliveira no cargo de ministro do Planejamento não vai mudar o rumo dessa história. A pressão que ganhará força total agora será sobre o BC. Para uma queda mais rápida dos juros. É só esperar.

 

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