Dekassegui prefere viver crise no Japão

Mesmo sem emprego, poucos pretendem voltar para o Brasil

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

O iPhone de Carlos Zaha toca de maneira incessante. Do outro lado da linha estão brasileiros prestes a serem despejados, sem dinheiro para alimentar a família ou que buscam abrigo depois de perderem a casa onde moravam.

As conversas ocorrem em Hamamatsu, cidade japonesa que concentra o maior grupo de dekasseguis, que atravessaram o mundo nos últimos 20 anos em busca de trabalho na terra de seus antepassados.

A crise que abalou o mundo a partir de setembro teve efeito devastador sobre a comunidade brasileira da cidade, que registrava um índice de desemprego de 61% no mês de fevereiro, segundo pesquisa encomendada pela prefeitura.

Seis meses depois, a situação continua a mesma, afirma Zaha, que comanda a Associação Brasil Fureai, criada em dezembro com o objetivo de amparar os dekasseguis vítimas do terremoto financeiro.

Fureai significa solidariedade em japonês e a entidade conta com ajuda de 140 voluntários que visitam as famílias em dificuldades. Desde sua criação, a associação distribuiu 1.000 cestas básicas a brasileiros, doadas pelos que ainda têm emprego ou por supermercados de dekasseguis e japoneses.

"Muitas pessoas não têm dinheiro para nada", disse Zaha ao Estado . A cidade de 800 mil habitantes tinha 20 mil brasileiros há um ano. O número caiu para 17,6 mil no mês passado, depois que várias famílias decidiram retornar ao Brasil..

Dos 317 mil dekasseguis que viviam no Japão há um ano, 47 mil voltaram para a casa em razão do aumento do desemprego. Desses, 3.400 mil usaram a ajuda oferecida pelo governo para os imigrantes deixarem o país - 300 mil ienes (US$ 3.200) para o chefe de família e 200 mil ienes (US$ 2.130) por dependente. Outras 6.600 aguardam a liberação do dinheiro para embarcarem de volta ao Brasil.

INSEGURANÇA

Mas, apesar das dificuldades, a maioria prefere continuar no Japão. "Espero conseguir ficar aqui. O Brasil dá uma sensação de insegurança e incerteza", afirmou Fernando Tamayoshi, 28, casado e pai de três filhos.

Nos últimos 12 anos, Tamayoshi passou três temporadas no Japão, em um total de nove anos. A mais recente teve início em 2005, quando o brasileiro arrumou emprego em uma fábrica de Hamamatsu. No início do ano Tamayoshi foi kubi, palavra que significa pescoço e que na gíria local é usada para se referir aos cortes realizados pelas empresas.

As dificuldades dos imigrantes foram amenizadas por medidas emergenciais do governo e pelo recebimento do seguro-desemprego, pago por um período que varia conforme o tempo de contribuição de cada um.

Demitido, Tamayoshi foi contratado como temporário da prefeitura de Hamamatsu, onde recebe um salário líquido de US$ 1.200, cerca de metade do que ganhava como operário.

A família também ganhou fôlego depois que sua mulher conseguiu emprego com remuneração de US$ 2.000, o que permitiu ao casal matricular de novo o filho mais velho na escola - os três haviam saído depois da demissão do pai. Os mais novos ficam sob os cuidados da mãe de Tamayoshi, que também mora em Hamamatsu, assim como seus dois irmãos.

"Não é fácil voltar. Muitos brasileiros estão aqui há 10, 15 anos, já criaram raízes e acham que podem se virar melhor no Japão do que no Brasil", observa Zaha, 45, que chegou há 19 anos no país, onde nasceram suas duas filhas adolescentes.

SUBSÍDIO

Ana Cristina Shinohara, 40, passou os últimos 11 anos entre idas e vindas entre Brasil e Japão, onde ficou um total de seis anos nesse período. A brasileira trabalhava desde o início de 2008 em uma loja do McDonald?s, mas em setembro sofreu um acidente de trabalho e quebrou o pé. Um mês mais tarde, seu marido foi demitido.

Os dois moravam no apartamento da empresa com o filho do primeiro casamento de Ana, de 13 anos, e tiveram que desocupá-lo no dia 30 de novembro. Sem ter onde morar, a brasileira e seu filho foram para casa de sua mãe, enquanto o marido foi abrigado por amigos.

Dois meses depois, a família conseguiu se mudar para um apartamento da prefeitura destinado a pessoas em dificuldades, no qual o aluguel, subsidiado, custa US$ 120 ao mês.

Ana ficou com sequelas do acidente, tem dificuldade para andar e não pode voltar a trabalhar. Ela continua a ganhar o equivalente a 60% de seu salário, o que dá cerca de US$ 1.000 por mês, com os quais sustenta a família. A partir deste mês, o marido começará a receber o seguro-desemprego e poderá reforçar o orçamento doméstico.

Mesmo com as dificuldades, Ana não pensa em voltar para o Brasil. "Lá eu também não tenho emprego e não tenho onde morar. Minha irmã voltou e está ganhando R$ 500 por mês. Além disso, eu tenho um filho de 13 anos que está na escola japonesa desde 2005. Como vou levá-lo de volta?", pergunta.

A Associação Brasil Fureai também faz trabalho de pesquisa e divulgação dos benefícios sociais oferecidos pelo governo, que incluem ajuda para subsistência, auxílio para pagamentos de contas em hospitais e complementação de renda para famílias com filhos deficientes. A pesquisa realizada em fevereiro apontou que apenas 30% dos trabalhadores brasileiros estavam recebendo seguro-desemprego, apesar de índice de desocupação ter atingido 61%. A entidade iniciou uma campanha de esclarecimento junto à comunidade e o índice subiu para 60% em agosto.

O problema é que o benefício é dado por prazo definido e grande parte dos demitidos deixará de recebê-lo a partir do próximo mês. "Muitos vão ficar sem o seguro-desemprego e não terão outra alternativa a não ser voltar para o Brasil", ressaltou Francisco Freitas, vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. Nessa situação está seu filho mais novo, demitido em março.

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