Dekasseguis fincam raízes no Japão

Brasileiros se tornam imigrantes e muitos compraram casas, viraram empresários e só querem voltar ao Brasil para visitar familiares

Edson Xavier, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

Denominar como dekasseguis os brasileiros que moram e trabalham no Japão "é uma impropriedade", diz Luiz Augusto de Castro Neves, embaixador do Brasil em Tóquio. O diplomata tem razão: na última década milhares de brasileiros naquele país assumiram efetivamente a condição de imigrantes.

Deixaram de ser dekasseguis, termo que muitos consideram pejorativo, e não pensam em voltar ao Brasil a não ser em viagem de férias para ver a família.

Mas eles não abrem mão da brasilidade, têm filhos que nasceram no Japão e estudam em escolas japonesas, mas em casa se esforçam para falar português. Quitam religiosamente os impostos locais, têm cobertura de planos de saúde, ocupam emprego estável e têm vida financeira estabilizada. São brasileiros cujo passaporte têm o carimbo de Visto Permanente de Residência e torcem o nariz quando são chamados dekasseguis.

Desde que o Japão abriu as portas aos brasileiros e se tornou intenso o fluxo migratório, foram registradas várias fases. De 80 a 84, ocorreu o retorno ao Japão dos japoneses que tinham vivido décadas como imigrantes no Brasil. Depois, até 89, foi a vez de jovens filhos de japoneses radicados no Brasil sentirem-se atraídos pelas ofertas de emprego e aportarem no país com seus diplomas na bagagem.

Em 92, passaram a desembarcar no Japão famílias inteiras de descendentes japoneses e seus cônjuges, até mesmo com crianças. Já entre 94 a 97, apesar da recessão no país, manteve-se bastante requisitada nas fábricas a mão de obra brasileira - força de trabalho flexível e sujeita a mudanças diante das frequentes oscilações de produção das empresas. E, a partir de 98, registra-se a chegada de brasileiros com menor escolaridade se comparado aos primeiros imigrantes. Muitos, de todas as fases, foram para ficar.

Castro Neves concorda que mudou o perfil da comunidade dekassegui, com grande número de brasileiros cientes da condição de imigrantes - e possuidores de casa própria, o que indica a falta de intenção de regresso ao Brasil. "Respeitamos a opção de cada um e o governo continua prestando toda assistência a estes brasileiros quando eles precisam", observa.

Estabilização. O diplomata acredita que deve se estabilizar o número de 260 mil brasileiros residentes no Japão, por conta de uma situação econômica favorável no Brasil e porque o Japão já não é mais o eldorado antes prometido pelas empreiteiras e agenciadores de mão de obra estrangeira. Ele considera que os brasileiros que ficaram no país e que assumem hoje o status de imigrantes são importante elo entre Brasil e Japão.

"Quando os imigrantes japoneses chegaram ao Brasil revolucionaram a agricultura, e a nossa expectativa é que os imigrantes brasileiros no Japão também deixem sua contribuição neste país", observa.

Castro Neves acredita que os dekasseguis que almejam retorno breve ao Brasil, ou os imigrantes que não pensam em voltar, ainda têm o não domínio da língua japonesa como principal dificuldade no dia a dia. De resto, as autoridades nipônicas têm investido recursos para garantir aos estrangeiros os mesmos direitos assegurados aos japoneses.

O governo brasileiro, por sua vez, tem igualmente lançado mão de iniciativas que beneficiam os imigrantes no Japão, como a Casa do Trabalhador Brasileiro, estabelecida em Hamamatsu no último mês de julho e que serve como posto de orientações trabalhistas a quem pretende voltar ao Brasil ou aos que permanecem no país.

Também em julho, o ministro da Previdência Social, Carlos Eduardo Gabas, esteve no Japão e assinou acordo previdenciário para que os dekasseguis usem o tempo de serviço no país para o cálculo da aposentadoria. A medida beneficia tanto quem regressa ao Brasil quanto quem pretende ficar no Japão.

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