Felipe Rau/Estadão
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Delfim Netto: Não há política monetária que conserte uma política fiscal desarrumada

Segundo o ex-ministro da Fazenda, o efeito da política monetária depende das circunstâncias: "Ela é eficiente, mas não tem a eficiência que se imagina."

Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 19h27

Sobre a pressão que o Banco Central vem sofrendo de parte dos economistas para cortar mais a Selic para fazer frente à atual crise econômica, o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto disse hoje que “não há política monetária que conserte uma economia que tem uma política fiscal desarrumada”. 

Delfim fez esta e outras afirmações durante uma transmissão ao vivo organizada pela Necton Investimentos. Para o ex-ministro, a política monetária tem um papel muito importante como complemento da política fiscal. 

“Mas ela não é independente da política fiscal. Pelo contrário, quando você tem uma política fiscal desarrumada, não há política monetária que conserte, a não ser com níveis gigantescos de oscilações da atividade, que politicamente não resistem”, observou Delfim. 

A política monetária, continuou o ex-mnistro, é um instrumento complementar à política fiscal. O efeito dela, segundo ele, depende muito das circunstâncias, das expectativas. “Ela é eficiente mas não tem a eficiência que se imagina. Primeiro é que demora demais”, disse. 

A inflação é um exemplo, disse ele. “Suponhamos que você queira resolver o problema da inflação pela política monetária. Se você ficar com 'nhe-nhe-nhem', não vai resolver porque primeiro você precisa mudar as expectativas de inflação”, disse.

Delfim lembrou o ano de 1964, quando o ministro do Planejamento Roberto Campos - avô do atual presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto - adotou um conjunto de medidas de combate à inflação no governo militar do Marechal Castello Branco.

“Ali Roberto Campos já conhecia a teoria e sabia que era preciso mudar as expectativas de inflação. Junto com o [Otávio] de Bulhões [ministro da Coordenação Econômica] fizeram uma política recessiva de quase 15 meses e não conseguiram mudar as expectativas inflacionárias”, recordou Delfim.

"Ou seja, o custo da política monetária, mesmo quando você tem todas as possibilidades para agir e puxa o juro de 3% para 17% num dia e quem aguentar aguentou e quem não aguentar que se quebre e se faça uma recessão do tamanho do mundo, é muito alto”, disse Delfim.

 Por isso, o problema todo desse regime de metas de inflação é manter as expectativas. E é por isso também, disse, que a política monetária tenta se mexer lentamente.

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