Nilton Fukuda/Estadão
Vestuário registrou uma aceleração de consumo durante a pandemia da covid-19. Nilton Fukuda/Estadão

Demanda alta por alguns produtos leva a aumento de preços no mercado

Segmentos de vestuário e eletroeletrônicos tiveram retomada forte e podem enfrentar problemas de desabastecimento no curto prazo

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2020 | 05h00

Segundo o estudo realizado pelo Itaú Unibanco sobre a recuperação da economia por setores de negócio, segmentos como de vestuário e de eletroeletrônicos estão hoje no meio do caminho entre o “céu e o inferno”. Eles experimentam uma retomada mais forte do que o esperado na ponta da demanda, o que pegou as empresas de surpresa. E o impacto esperado é um possível desabastecimento no curto e longo prazos, com aumento de preços.

“A gente tem visto entre os fabricantes de linha branca uma dificuldade em atender a demanda”, afirma a vice-presidente da área de vinílicos da petroquímica Braskem, Isabel Figueiredo. A empresa fornece, entre outros insumos, resinas e solventes que são usados na produção de geladeiras e fogões.

A própria Braskem enfrenta hoje o desafio de suprir os seus clientes, dado o volume de encomendas. “Depois de operar com 60% de nossa capacidade no início da crise, em agosto e em setembro batemos recorde de produção. Mas o número de pedidos continua crescendo”, diz Isabel.

Para o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da FGV, André Braz, o aumento na procura por itens de linha branca e eletrodomésticos já é sentido nos preços da categoria. “A gente ainda não sabe se isso é desvio padrão, o que representa esse aumento. Mas as pessoas estão comprando mais. Talvez, dado que eu não podia comprar uma viagem aérea, não podia ir em uma viagem, não podia ir ao cinema e ao teatro, eu troquei a geladeira, troquei o fogão e máquina de lavar. Esses itens da linha branca subiram muito”, afirma.

Com dificuldades em atender os pedidos, grandes varejistas já falam reservadamente na falta de alguns itens nos estoques. Eles já se preocupam se conseguirão abastecer as gôndolas para a Black Friday, que acontece na última quinta-feira do mês de novembro e é aguardada com ânimo por uma boa parte desse setor.

“Não tenho dúvida de que teremos uma Black Friday mais fraca neste ano, porque não teremos produtos. A procura por linhas de informática, celulares e toda a linha branca cresceu muito durante a pandemia. E os fornecedores já nos avisaram que vamos ter uma entrega mais lenta daqui para a frente”, diz o executivo de um grande varejista.

Altos-fornos

A cadeia de siderurgia também passa por um momento semelhante. Depois dos primeiros meses com produção mínima, as empresas começam a, gradualmente, religar os altos-fornos. Segundo o economista do Itaú Unibanco Pedro Renault, as plantas operam hoje com utilização de cerca de 60% da capacidade. 

O cenário é bem positivo no que diz respeito à demanda por aços longos, empregados na construção civil. “Espera-se aumento do consumo de aços longos na comparação do total de 2020 com 2019, mas a produção será menor. No geral, as empresas se prepararam para um cenário de demanda muito pior, gerando a mencionada pressão sobre estoques”, afirma Renault. Ao longo dessa cadeia, já se observa dificuldade para se encontrar produtos com prazo de entrega inferior a 90 dias.

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Retomada é desigual; só 4 de 14 setores já recuperaram perdas, aponta estudo

Apenas o agronegócio, algumas áreas da construção civil, o setor de alimentos e nichos da tecnologia, como aplicativos de entrega e empresas de vendas online, registram demanda acima ou similar à do período pré-covid

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2020 | 05h00
Atualizado 14 de outubro de 2020 | 09h53

O impacto negativo na economia provocado pela covid-19 parece começar a se dissipar. Mas o início da retomada tem sido extremamente desigual. Estudo realizado pelo Itaú Unibanco, obtido com exclusividade pelo Estadão, indica que hoje apenas 4 dos 14 setores analisados conseguiram superar a freada brusca gerada pela pandemia no nível de atividade do País.

Por esse termômetro da retomada, apenas o agronegócio, algumas áreas da construção civil, o setor de alimentos e nichos que operam com tecnologia, como os aplicativos de entrega e empresas de vendas online, convivem hoje com demanda acima ou similar às registradas no início do primeiro trimestre – antes, portanto, da adoção de medidas de restrição.

No meio do caminho, no entanto, já há setores que ensaiam recuperação, como o de vestuário e de eletroeletrônicos, mas ainda sem conseguir se reorganizar para dar conta da demanda, que nesses casos esquentou antes do esperado pelo mercado.

Forçados pela crise, os empresários tomaram crédito, cortaram funcionários e ampliaram a ociosidade de suas fábricas, esperando por longa e duradoura queda nas encomendas. Mas após chegar ao “fundo do poço”, em abril, o consumo voltou a dar sinais de aquecimento em maio, em boa parte beneficiado pelo dinheiro do auxílio emergencial. Isso pegou as empresas com estoques baixos e capacidade limitada de reação, já que naquele momento operavam com 50% a 60% da capacidade do primeiro trimestre.

“O mercado foi pego de surpresa. E o resultado é que, temporariamente, a demanda por itens como celulares, geladeiras e produtos têxteis supera a capacidade de produção, o que pode levar a riscos temporários de desabastecimento, com impacto imediato no aumento de preços”, afirma o economista do Itaú Unibanco Pedro Renault, responsável pelo relatório.

Descendo até o ponto mais frio do termômetro da recuperação, aparecem a cadeia de turismo, as companhias aéreas e o ramo automotivo. “Nossa conclusão é que, neste momento, o Brasil vive uma retomada assimétrica na atividade econômica, depois de chegar ao ‘fundo do poço’ por volta de abril. Mas é uma retomada que, apesar de surpreender pela velocidade, é ainda repleta de dúvidas”, afirma o economista.

Recuperação

O agronegócio lidera a recuperação. O setor, na verdade, não viu crise na pandemia, favorecido por uma combinação de robustez da demanda global – puxada principalmente pela China –, desvalorização do real, que se aproxima de 40% neste ano, e safra recorde na produção de grãos. 

Na sequência, a indústria e varejo de alimentos para consumo em casa tiveram um segundo trimestre de crescimento forte ante 2019, principalmente em itens básicos, como massas e biscoitos. Os dois segmentos foram beneficiados pelo auxílio emergencial, que deverá injetar R$ 321,8 bilhões neste ano na economia, com foco nas pessoas mais vulneráveis.

“Entre os setores quentes, também nos chama a atenção a construção civil, com uma recuperação puxada principalmente pela demanda habitacional, tanto em venda de imóveis novos quanto na reforma dos imóveis antigos, com impactos fortes na demanda da indústria de materiais de construção”, aponta a pesquisadora Silvia Matos, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

Para ela, a aceleração das reformas durante a pandemia é também reflexo do auxílio emergencial. “Nas classes mais baixas, esse tipo de recurso extra é muito direcionado para a melhoria da habitação. E esse movimento não foi compreendido lá atrás pelo mercado”, afirmou a economista. 

Minha Casa Minha Vida

Da mesma forma, a aquisição de imóveis novos também ficou concentrada nos produtos mais econômicos, que integram a faixa do Minha Casa Minha Vida. Dados do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP) apontam que, na capital paulista, as vendas já superam os níveis registrados antes da pandemia. 

Em agosto, segundo o Secovi-SP, foram vendidos 6.350 apartamentos novos, 46,3% a mais do que em julho passado e 35% acima de agosto de 2019. Já no acumulado dos 12 meses encerrados em agosto, foram vendidas 48.885 unidades, alta de 17,1% ante os 12 meses anteriores. 

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