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'Demanda por conexão vai nos ajudar depois do auge da crise', diz presidente da Vivo

Christian Gebara afirma que trabalho remoto veio para ficar e aposta em retomada gradual das atividades econômicas; executivo participou da série de entrevistas 'Economia na Quarentena', do 'Estadão'

Entrevista com

Christian Gebara, presidente da Telefônica Vivo

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2020 | 17h32

Maior operadora de telefonia do País, a Telefônica Vivo aposta que o home office será uma tendência forte mesmo depois da pandemia.  A empresa vê uma maior demanda e acredita que a população brasileira vai valorizar o serviço de internet banda larga mesmo depois do auge da crise do novo coronavírus. “Acho que vai ser uma oportunidade que poderemos capturar. (A demanda) vai crescer de uma maneira orgânica”, disse Christian Gebara, presidente da Telefônica Vivo, na série de entrevistas ao vivo "Economia na Quarentena", nesta quinta-feira, 23, no Estadão.

Segundo Gebara,  a empresa já era vista como  um hub de distribuição de serviços digitais e, por conta da crise, alguns projetos foram acelerados. “Teremos em breve parcerias com entretenimento, de entregas, de serviços financeiros. E também vamos trabalhar em telemedicina e educação a distância.”

O executivo entende que não dá para ter uma fórmula única para todo o Brasil em relação ao isolamento e diz que a  iniciativa privada precisa contribuir para que os protocolos adotados sejam viáveis para que as pessoas voltem gradualmente. “Existe um desejo de voltar, mas será uma volta muito controlada.”

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

O isolamento social nos mostrou que ter serviço de banda larga é muito importante. A Telefônica estava preparada para atender essa demanda?

A Telefônica Vivo está há mais de 20 anos no País. O que nós temos hoje em infraestrutura é reflexo do que foi  investido na rede fixa e móvel nesses últimos anos. Neste momento agora e depois, fica claro para todos nós como esse serviço é essencial. A conexão é velocidade, não é mais o que era nos primórdios da internet. Nossa aposta é investir, independentemente do ciclo econômico, e a tendência é seguir em frente.

Dentro das medidas que o governo anunciou, há flexibilização dos pagamentos de luz e telefone. Isso está afetando a Vivo?

São vários movimentos e medidas que foram tomadas. Nós, operadoras, atuamos juntas e definimos várias medidas em benefício dos nossos consumidores. Nossos serviços possibilitam que as pessoas estudem e trabalhem de casa ou que possam estar no isolamento social da melhor maneira possível. Liberamos mais franquias de dados e vídeos e flexibilizamos as formas de pagamento. O cliente da Vivo pode parcelar a conta em dez vezes sem cobrança de juros e multas, estendemos o prazo para ele ficar conectado mesmo com atraso da conta. O importante, neste momento, é que a economia esteja girando. O pagamento é necessário porque é o que permitirá à Vivo continuar operando e pagar seus fornecedores e manter os empregos. Estamos no manifesto Não Demita. Com a Medida Provisória do governo, que permitiu postergar os impostos, nos deu uma ajuda de caixa e liquidez. Isso permitiu à Vivo também  adiantar o pagamento dos fornecedores da nossa cadeia também para ajudá-los neste período.

Houve muita inadimplência desde o início da crise?

Não observamos nada com efeito muito relevante. Teve um atraso de arrecadação porque as pessoas estavam acostumadas a pagar em banco ou em lotéricas. Acho que o nosso serviço, por ser essencial, vai ser priorizado. Alguns serviços, como ensino à distância e telemedicina, se aceleraram. É uma realidade que veio para ficar. 

Com a maior liberação de serviço de banda larga, a Vivo avançou neste mercado? 

O mais importante neste momento é que o maior número de pessoas possam estar conectadas. Para as operadoras, o principal é manter o serviço funcionando. As redes tiveram importante incremento de uso de dados, com maior concentração de uso ao mesmo tempo, que antes não tínhamos. Nós agora não somos adversários. Nosso inimigo aqui, neste momento, é o coronavírus.

O serviço remoto vai passar a fazer parte do cotidiano das pessoas. As empresas que tinham receio do home office viram que as operações continuaram remotamente. O sr. vê uma oportunidade para a Vivo pós-pandemia? 

Isso vai muito em linha em relação à estratégia que temos até agora. A Vivo já tinha o home office implementado antes da crise. Todos que não tinham um trabalho técnico e em loja já faziam trabalho remoto na empresa. Começou com uma vez por semana e, no ano passado, passou a ser duas vezes. Após a crise, em dois dias, conseguimos colocar as ferramentas para que as pessoas pudessem trabalhar de casa, incluindo os call centers próprios e de terceiros. Como já fazíamos internamente e percebemos que isso é um modelo de presente e de futuro, nossas soluções englobam um pacote de serviços para que as empresas sejam muito mais digitalizadas – que tenham todos os arquivos na nuvem e mantenham a segurança. Isso era algo que já estava no nosso DNA. Acho que a demanda vai ser muito maior. As pessoas não vão ter uma conexão ruim, se elas podem pagar por um pouco mais de qualidade. Acho que sim vai ser uma oportunidade que poderemos capturar e vai crescer de uma maneira orgânica. 

A Telefônica Vivo é uma empresa espanhola, um dos países mais afetados O que o grupo se espelhou lá fora para trazer aqui e o que o Brasil ensinou para a Espanha?

A crise chegou mais forte na Espanha antes do Brasil. Tivemos uma ou duas semanas de aprendizado. Trazer a empresa inteira para home office foi mais rápido aqui do que havia sido lá. O incremento de uso das redes também foi de 40% a 50% já na primeira semana – o que também foi uma forma de nos preparar para o início do isolamento. A gente tem a fundação Telefônica Vivo, também refletindo o que ocorreu lá, abriu seus conteúdos educacionais para professores e alunos. E também ficaram claras as diferenças de cobertura celular e fixa no Brasil. O que pode nos dar alguns aprendizados do ponto de vista de regulação. Hoje se fala muito da falta de cobertura de internet móvel nas periferias. Mas existe uma burocracia muito grande para a instalação de antenas no País. Algumas cidades têm leis de mais de dez anos, que não refletem mais a realidade de hoje. Porto Alegre, por exemplo, tem uma lei do ano passado, que permite uma cobertura muito maior celular. Deveria ser referência para todo o Brasil.

São Paulo deve retomar as atividades a partir do dia 11. A Vivo vai seguir esse calendário, ou vai ser um pouco mais conservadoras e manter pessoas em home office?

Nós fechamos todos os escritórios e as 1,5 mil lojas que foram todas fechadas. Nos últimos dez dias, decisões municipais e estaduais resultaram em reaberturas. A gente vem respondendo à legislação. Existe demanda de clientes por serviços, de um conserto ou de manutenção. As pessoas às vezes precisam de alguma ajuda comercial. Estamos seguindo protocolos como distanciamento, número limitado de pessoas nas lojas, uso de máscaras e álcool gel sempre presentes nos locais onde há contato com o cliente. Nós estamos seguindo protocolos, como o da Fiesp, e do Comunitas, que está ajudando alguns outros Estados nesta volta. O maior impacto vai ser em São Paulo, onde temos a maior concentração de pessoas. Não vamos conseguir voltar ao trabalho em situação normal enquanto a situação for a atual ou um pouco melhor. Talvez o home office, que era de duas vezes por semana, seja ampliado para três ou para quatro, devemos fazer escalonamento para as pessoas trabalharem. Olhando tudo o que está sendo publicado, vamos optar pelos protocolos que mais seguros para os nossos funcionários e clientes.

Tem algum projeto que a Vivo teve de antecipar para dar conta da demanda por internet na pandemia?

Já víamos a Vivo como um hub de distribuição de serviços digitais. A ideia é vender a conexão com outros serviços, tanto para pessoas físicas quanto para jurídicas. Alguns projetos se aceleram. Teremos em breve parcerias com entretenimento, de entregas, de serviços financeiros. E também vamos trabalhar em telemedicina e educação a distância. Na parte de empresas, a gente consolida parcerias de serviços de cloud e de segurança. A gente conseguiu trocar computadores fixos por portáteis em empresas. Não muda radicalmente o que já fazíamos, mas isso se acelera.

No Brasil, vimos muito ruído entre governos federal, estaduais e municipais. O sr. acha que conduzimos bem essa equação saúde x economia até aqui?

A Vivo está tentando contribuir. Somos uma empresa nacional com presença local. Temos de atender às determinações locais. É muito difícil ter uma fórmula de sucesso para essa pandemia. O Brasil tem um tamanho continental. Acho que todas as esferas de governo querem seguir é o acompanhamento do número de pessoas infectadas e dos leitos disponíveis em UTIs. Essa fórmula tem de ser seguida. Temos uma grande presença no Amazonas, por sermos líderes neste Estado, onde a situação foi dramática. A realidade das cidades é diversa, e não dá para ter uma fórmula única para todo o Brasil. A iniciativa privada precisa contribuir para que os protocolos adotados sejam viáveis para que todos nós podemos voltar. Existe um desejo de voltar, mas será uma volta muito controlada. 

Quais lições essa crise nos deixa?

Acho que primeiro a vulnerabilidade global. As fronteiras que a gente imaginava ter não existem. A necessidade de colaboração é cada vez maior. Isso se repete no dia a dia de todos nós. Cria uma outra visão para a sociedade. E nos mostra que coisas que pareciam inviáveis são viáveis. Será que era possível imaginar liberar uma empresa trabalhando em vídeo e atendendo nada menos que 100 milhões de clientes? Parecia que não, mas vimos que é possível. 

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