André Dusek/Estadão
Magda Chambriard, ex-diretora da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustível (ANP); 'Esse tipo de atitude embute um risco muito grande ao acionista e passa uma imagem de total desorganização do país' André Dusek/Estadão

Demissão na Petrobras é espantosa e reforça tese de objetivo ‘eleitoreiro’, diz ex-diretora da ANP

Magda Chambriard, que dirigiu a agência reguladora do setor de petróleo, diz que a posição do governo como acionista majoritário traz muito risco para a empresa

Gabriel Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2022 | 00h07

RIO - A ex-diretora geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) entre 2012 e 2016, Magda Chambriard, classificou a demissão do presidente da Petrobras, José Mauro Ferreira Coelho, como "espantosa" e disse que a posição da União, acionista majoritária da empresa, traz risco "muito grande" ao corpo de acionistas por expor "total desorganização do país e falta de previsibilidade" no comando da estatal. 

Ela afirma que decisão, tornada pública na noite desta segunda-feira, 23, reforça a tese de que o presidente Jair Bolsonaro age com fins eleitoreiros.

"É espantoso sob qualquer ótica. Completamente espantoso. Mas só reforça uma impressão que vem de algum tempo. Isso aconteceu com (Joaquim) Silva e Luna e agora se repete com o atual presidente. Ambos deixaram claro, antes de assumir, que não interfeririam na política de preços. Mas foram indicados mesmo assim", diz.

Para Magda Chambriard, Bolsonaro atua politicamente para se antecipar ao novo lucro recorde da estatal no segundo semestre, e buscaria abrir caminho para algum represamento do preço de derivados até as eleições de outubro. 

Segundo a ex-diretora da ANP, os posicionamentos dos ministros da economia, Paulo Guedes, e do ministro de Minas e Energia, Adolfo Sachsida, nos últimos dias podem ter funcionado como uma espécie de balão de ensaio para a estratégia. 

Como uma assembleia extraordinária para aprovação de um novo indicado só pode acontecer 30 dias depois de sua convocação, Chambriard sugere que Bolsonaro terá tempo suficiente para reforçar a narrativa de que tem feito o que está ao seu alcance para deter a política de paridade de preços internacionais, sem, de fato, fazê-lo.

"Não há muita explicação para além disso. Como é que ele nomeia o presidente da Petrobras sem alinhar posição antes? Esse tipo de atitude embute um risco muito grande ao acionista e passa uma imagem de total desorganização do país", diz Magda.

Ela não acredita tratar-se de uma guinada para emplacar os planos de privatização da estatal, inviável este ano. "A privatização dentro desse governo não dá mais. Isso só vai andar se ele [Bolsonaro] ganhar a eleição.

Sobre o novo indicado, Caio Mário Paes de Andrade, que hoje chefia a Secretaria Especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, do Ministério da Economia, Chambriard se limitou a dizer que soube de suas credenciais pela imprensa e que não parece adequado tratar de questões que interferem no abastecimento de combustível do país com um executivo com experiência na área de informática. 

Ainda assim, Magda acredita que a indicação deverá prosperar. Com a saída de Bento Albuquerque das Minas e Energia este mês, a indicação de Sachsida para a pasta e agora a de de Paes de Andrade, que já havia sido cogitado anteriormente para o comando da Petrobras, inaugura-se a gestão da estatal sob a influência do Ministério da Economia, de Paulo Guedes.

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Bolsonaro demite o terceiro presidente da Petrobras com pouco mais de 40 dias no cargo

José Mauro Coelho deve ser substituído por Caio Paes de Andrade, secretário especial de desburocratização do Ministério da Economia

Adriana Fernandes, Marlla Sabino e Denise Luna, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2022 | 21h57
Atualizado 24 de maio de 2022 | 11h01

BRASÍLIA E RIO - O presidente Jair Bolsonaro demitiu o terceiro presidente da Petrobras, José Mauro Coelho, com pouco mais de 40 dias no cargo. A fritura de Coelho foi antecipada pelo Estadão no dia 13 de maio, assim como a preferência por Caio Paes de Andrade, secretário especial de desburocratização do Ministério da Economia para substituí-lo, o que foi formalizado nesta segunda-feira, 23.

A troca de comando do Ministério de Minas e Energia, com a escolha de Adolfo Sachsida para substituir Bento Albuquerque, levou a mudanças na diretoria estatal. O anúncio nesta segunda-feira pegou José Mauro Coelho de surpresa, que ficou apenas 41 dias no cargo. A demissão de Coelho ocorre no momento em que Bolsonaro está envolvido no esquema de liberação de verbas para compra de caminhões de lixo com indícios de superfaturamento revelado pelo Estadão.

Bento foi demitido após a Petrobras ter aumentado o preço do diesel dias depois de o presidente pedir ao ex-ministro e a Coelho que não aumentassem o preço durante uma transmissão nas redes sociais.

Ao escolher Sachsida, ex-secretário do ministro da Economia, Paulo Guedes, Bolsonaro cobrou mudanças na postura da empresa. O presidente não se conforma que a petroleira tenha um lucro bilionário e não possa dar uma “trégua” nos reajustes durante a guerra da Rússia com a Ucrânia, período de alta volatilidade dos preços internacionais. Bolsonaro quer que as movimentações sejam feitas em espaço de tempo maior.

Um auxiliar do presidente disse que não fazia sentido ele demitir Bento para ficar na mesma situação. Sachsida entrou no ministério com uma agenda de mudanças.

Em comunicado enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Petrobras confirmou que recebeu um ofício do Ministério de Minas e Energia solicitando a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE) para destituir o atual presidente da empresa, José Mauro Coelho, e eleger Caio Paes de Andrade como membro do Conselho de Administração da companhia. 

Segundo a Petrobras, o ministério solicitou que a avaliação do nome de Andrade pelo Conselho ocorra após a realização da AGE.   A Petrobras disse ainda, que como foi eleito por voto múltiplo, a destituição de Coelho, se aprovada na assembleia, implicará na destituição de todos os membros do Conselho eleitos pelo mesmo processo. A estatal terá que realizar uma nova eleição para esses cargos.

A queda do presidente da Petrobras foi surpresa para os membros do conselho de administração da empresa, que "estavam no escuro", segundo o conselheiro Marcelo Mesquita disse ao Estadão/Broadcast. "Não sabemos de nada, fomos informados há poucos minutos pelo documento do MInistério de Minas e Energia (MME). Não conheço o Caio, não sabemos nada, estamos no escuro", disse Mesquita.

Formado em Comunicação Social pela Universidade Paulista, Caio Paes de Andrade é pós-graduado em Administração e Gestão pela Universidade Harvard e mestre em Administração de Empresas pela Duke University. De acordo com o MME, "o indicado reúne todas as qualificações necessárias para liderar a companhia (Petrobras)". Segundo o conselheiro Marcelo Mesquita, no entanto, o nome do indicado pelo governo ainda terá que passar pelo crivo do conselho de administração, que vai analisar se Andrade preenche todos os requisitos exigidos pelo estatuto da companhia, como ter administrado uma grande empresa nos últimos anos.

A escolha de Caio Paes de Andrade como novo presidente da Petrobrás tem potencial de agradar ao mercado uma vez que ele não deve alterar a política de preços da estatal, além de provavelmente apoiar o processo de privatização da companhia. Essa é a avaliação do economista-chefe da Necton, André Perfeito. "Pelo perfil do executivo não nos parece razoável supor que irá mudar a política de preço da Petrobras, muito pelo contrário. Da forma que vemos o Ministério da Economia está mais no controle do que nunca da petroleira", avaliou Perfeito.

Terceira troca no governo Bolsonaro

Coelho é o terceiro presidente da Petrobras a ser demitido no governo Bolsonaro e foi escolha de Bento depois que dois nomes foram descartados - Adriano Pires e Rodolfo Landim – por conflitos de interesse com a indústria de óleo e gás. Foi Bento que fez a negociação e bancou o nome de Coelho depois de barrar a indicação de Caio Paes de Andrade.

Com o preço alto dos combustíveis e de energia elétrica ameaçando sua reeleição, Bolsonaro vem demonstrando insatisfação em relação à gestão de Coelho à frente da Petrobras. Neste mês, disse que que a petroleira está "gordíssima, obesa", em referência ao lucro da estatal de R$ 44,56 bilhões no primeiro trimestre do ano. "Petrobras, você é Brasil! Ou quem está aí dentro não pensa no seu país? O povo está sofrendo bastante com o preço do combustível", disse Bolsonaro a jornalistas após discursar em uma feira agropecuária em Maringá (PR).

A União é o maior acionista da empresa, ou seja, recebe a maior parte dos dividendos da estatal, que vão direto para o caixa do governo. A governança da estatal tem sido uma barreira a impedir uma mudança na política de reajustes de paridade internacional. Na nota que anunciou a mudança, o MME disse que o governo "renova o seu compromisso de respeito a governança da Empresa, mantendo a observância dos preceitos normativos e legais que regem a Petrobras".

Ao ressaltar que o Brasil vive atualmente um momento desafiador, com "extrema volatilidade dos hidrocarbonetos", o MME disse que "diversos fatores geopolíticos conhecidos por todos resultam em impactos não apenas sobre o preço da gasolina e do diesel". "Dessa maneira, para que sejam mantidas as condições necessárias para o crescimento do emprego e renda dos brasileiros, é preciso fortalecer a capacidade de investimento do setor privado como um todo. Trabalhar e contribuir para um cenário equilibrado na área energética é fundamental para a geração de valor da Empresa, gerando benefícios para toda a sociedade", diz a nota. / COLABOROU MATEUS FAGUNDES

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Petrobras: Demissão de Coelho vai levar a mudanças no conselho e na política de preços da estatal

A saída do presidente da Petrobras abre caminho também para mudanças na diretoria da empresa para atender ao desejo do presidente Bolsonaro de alterar a forma de reajuste dos combustíveis

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2022 | 22h58

BRASÍLIA - A demissão de José Mauro Coelho do comando da Petrobras é a primeira de uma série de mudanças que o governo vai fazer na petroleira. Além de demitir Coelho, o ministro de Minas Energia, Adolfo Sachsida, vai fazer mudanças no conselho de administração da estatal.

O conselho foi montado pelo ex-ministro Bento Albuquerque, almirante de esquadra que foi demitido por Bolsonaro logo após o anúncio do reajuste do óleo diesel. A saída de Coelho abre caminho também para mudanças na diretoria da empresa. A Petrobras estava perto de anunciar novo reajuste de gasolina e Bolsonaro quer evitar novos aumentos neste momento de alta volatilidade do preço internacional.

Para isso, o presidente pretende alterar a forma de reajuste dos preços dos combustíveis da empresa. Uma fonte do governo disse que é uma questão de sequência até chegar às mudanças que o presidente pretende implementar.

A lógica é a seguinte: governo não pode mandar diretamente na decisão da empresa sobre os preços, mas pode mudar o conselho e o presidente, que mudam a diretoria. O passo seguinte é a mudança na política de preços, como quer Bolsonaro. Ele quer que os reajustes sejam mais esparsos e que haja uma trégua nos preços enquanto o mercado de petróleo estiver vivendo alta volatilidade por conta da crise de energia provocada pela guerra da Rússia com a Ucrânia.

Segundo apurou o Estadão, a demissão do terceiro presidente da Petrobras já era dada como certa no círculo mais fechado de auxiliares do presidente Bolsonaro desde sábado, embora investidores vissem o movimento como "loucura" pelo pouco tempo de Coelho à frente da petroleira.

O anúncio ocorreu depois do mercado fechado, quase 22 horas. Fontes da indústria de óleo e gás, que não apostavam na saída de Coelho em tão pouco tempo, avaliam que a troca é turbulência desnecessária mais uma vez, causada pelo governo.

A avaliação é de que, se o governo realmente quiser trocar os rumos da empresa, terá que nomear novos conselheiros de administração, dispostos a seguir as suas ordens e não a votar de acordo com “os melhores interesses da empresa”.

Sachsida ainda quer avançar nas privatizações da Petrobras e também da PPSA, a estatal responsável pela parte da União no pré-sal. 

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Quem é Caio Paes de Andrade, indicado pelo governo para presidir a Petrobras?

Atual secretário especial de desburocratização do Ministério da Economia, Andrade substituirá José Mauro Coelho no comando da estatal

Da Redação, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2022 | 00h08
Atualizado 20 de junho de 2022 | 12h39

A renúncia do presidente da Petrobras, José Mauro Coelho, abriu espaço para que  Caio Paes de Andrade, secretário especial de desburocratização do Ministério da Economia, assuma o cargo assim que cumpridos os trâmites legais. Andrade foi indicado pelo governo ao comando há quase um mês, em 23 de maio.

Ele  tem formação em Comunicação Social pela Universidade Paulista em São Paulo, pós-graduação em Gestão pela Harvard University e Mestrado em Administração de Empresas pela Duke University. Iniciou sua trajetória na gestão Bolsonaro como presidente do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), em fevereiro de 2019.

Em março de 2020, Andrade foi nomeado para o cargo de secretário especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital do Ministério da Economia, em substituição a Paulo Uebel, que foi quem o indicou para comandar a Serpro.

Segundo informações do governo, Andrade é membro do Conselho de Administração da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da Pré-Sal Petróleo (PPSA), já atuou como empreendedor nos segmentos de tecnologia de informação, mercado imobiliário e agronegócio, já tendo liderado mais de 20 processos de M&A (fusões e aquisições). Na área social, fundou o Instituto Fazer Acontecer, que promove atividades ligadas ao esporte no semiárido baiano, e participou como mentor de empreendedorismo para o Instituto Endeavor Brasil.

Em março deste ano, o nome de Andrade surgiu nos bastidores do governo, como um possível substituto para o presidente da Petrobras à época, o general Joaquim Silva e Luna. Entre auxiliares do presidente Jair Bolsonaro, o trabalho de Andrade para levar o governo federal para a internet vinha sendo muito elogiado, principalmente por sua atuação à frente da digitalização dos serviços públicos na plataforma Gov.br.

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