Demissões na indústria devem começar em quatro meses, avisa Abimaq

Previsão está baseada na queda de 23,7% da carteira de pedidos da indústria de máquinas verificada em setembro em relação ao mesmo mês do ano passado

Wladimir D'Andrade, da Agência Estado,

26 de outubro de 2011 | 17h15

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto, disse hoje que o setor deve começar a demitir funcionários dentro de três a quatro meses. A previsão dele está baseada na queda de 23,7% da carteira de pedidos da indústria de máquinas verificada em setembro em relação ao mesmo mês do ano passado. "Com a carteira de pedidos caindo e o adiamento de entregas, a tendência é de redução no número de vagas e no faturamento", afirmou.

De acordo com os dados da Abimaq divulgados hoje (26), não foram criadas novas vagas no setor em setembro em relação ao mês de agosto. Além disso, desde maio o setor vinha registrando desaceleração na geração de postos de trabalho. "Tenho certeza de que haverá dentro de três a quatro meses uma freada na indústria de máquinas, não posso prever se vai ser drástica ou não, mas vai ser daquelas freadas de sair fumaça", disse.

Segundo Aubert Neto, o setor sofre cada vez mais com a concorrência de produtos importados, o real valorizado e as altas taxas de juros. Para a Abimaq, o aceitável seria o dólar a no mínimo R$ 2,10. "Esse câmbio poderia ser imposto pelo governo por meio de uma canetada, como ocorreu na Suíça recentemente, ou com a redução da taxa Selic."

O presidente da entidade elogiou ainda o fato de o País ter conseguido levar a questão cambial à Organização Mundial do Comércio (OMC) - o Brasil conseguiu aprovar na OMC a realização de um seminário para discutir a relação entre câmbio e comércio internacional, na última segunda-feira. Mesmo considerando que este é apenas um primeiro passo e que falta muito para a implementação de ações, o empresário afirmou que a iniciativa é excelente para o País e ruim para a China. "É um grande passo porque já admite que o problema existe. Mas ainda falta muito para a adoção de medidas práticas."

Proteção - Em entrevista coletiva concedida hoje (26) na capital paulista, Aubert Neto contou que negocia com o governo a situação de 60 produtos prioritários do setor de máquinas e equipamentos de uma lista de 814 que enfrentam dificuldades por causa da concorrência de componentes estrangeiros que chegam ao Brasil a preço abaixo do custo de produção da indústria nacional. "Como pode uma máquina desembarcar no Brasil ao custo de US$ 6 a US$ 7 o quilo quando isso aqui não paga nem o custo da matéria-prima? Isso é um crime", protestou.

Uma das propostas apresentadas pela entidade é o estabelecimento de preços de referência para alguns tipos de máquinas. A determinação do preço de referência impõe um valor mínimo de preço para um produto, sobre o qual incidiria a cobrança de tributos. Esse preço deveria ser baseado em uma média mundial que, na avaliação de Aubert, deveria excluir a China.

As negociações, no entanto, não caminham no ritmo que os empresários gostariam. "Não foi feito absolutamente nada até agora. O governo está enrolando a gente", desabafou. Perguntado se a Abimaq recebeu um prazo para a elaboração de medidas por parte do governo, Aubert Neto brincou, desanimado: "Quando o Corinthians ganhar a Libertadores."

Selic e inflação - Ao defender a queda de ao menos mais três pontos porcentuais na taxa básica de juros, o presidente da Abimaq discordou da análise de especialistas de que a redução da Selic pode provocar pressão inflacionária na economia brasileira. "Os juros impactam investimentos. Não acredito que a queda da Selic leve ao aumento nos preços dos alimentos e dos produtos de compra", disse, ao defender também a desoneração de qualquer investimento realizado no País, tanto por parte de empresas nacionais quanto de estrangeiras, a tributação do capital especulativo e mais verbas para educação e inovação. "O que a gente vai gastar esse ano com inovação, saúde e educação é muito menor do que o País vai destacar para pagar juros da dívida", afirmou. "Temos que reverter isso."

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