Demissões se repetem na mesma obra

Motorista é dispensado pela 2ª vez em trecho da Ferrovia Oeste-Leste; 'A obra anda cinco meses, para; anda mais três, para de novo', diz ele

TIAGO DÉCIMO / SALVADOR, CARMEN POMPEU / FORTALEZA, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2015 | 02h06

O motorista de caminhão Alisson Rocha, de 34 anos, estava trabalhando há apenas três meses nas obras do Lote 1 da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), trecho de 125 quilômetros entre Ipiaú e Ilhéus, no sul da Bahia, liderado pelo Consórcio Trial-Pavotec, quando foi demitido da obra, na semana passada. "Cheguei para trabalhar e meu cartão de ponto não estava no lugar, foi assim que fiquei sabendo", conta. "A razão oficial da demissão foi redução do quadro de funcionários."

Foi a segunda vez em dois anos que Rocha foi demitido da mesma obra, pelas mesmas circunstâncias. Em meados de 2013, quando o lote era capitaneado por outra empresa, a SPA, ele foi demitido, depois de quatro meses de trabalho, sob a mesma justificativa.

"Fica nesse negócio: a obra anda cinco meses, para, anda mais três, para de novo", conta o motorista. "E a conversa é sempre a mesma, que o governo não está repassando a verba (para a construção da obra)."

Entre as duas experiências na Fiol, o caminhoneiro participou de uma obra em Minas Gerais. Quando foi concluída, voltou à cidade natal, Ipiaú, onde conseguiu uma vaga na obra de uma mineradora que está se instalando na região. "Fiquei um mês, antes de voltar para a obra da ferrovia", conta.

De acordo com Rocha, a expectativa na região é que os trabalhadores demitidos nas últimas semanas sejam recontratados em breve. "A empresa diz que espera voltar a receber os repasses em poucos dias e que pode chamar a gente de volta em um ou dois meses, mas acho que nem eles sabem direito o que vai acontecer", diz o operário. "Estou procurando outros trabalhos. Tenho uma filha pequena e não posso ficar nessa insegurança."

A história de Rocha tem sido uma constante nos canteiros de obras espalhados pelo Brasil. Nas últimas semanas, 1,3 mil trabalhadores, dos cerca de 6 mil que participam da construção, foram demitidos. Dos operários desligados, 700 trabalhavam em Jequié, cidade próxima do fim da linha férrea, em Ilhéus. Eles promoveram uma manifestação na quinta-feira para protestar contra a paralisação das obras.

"Há dois fatores que precisam ser avaliados, a frustração de receita, por parte do governo federal, que resulta em frustração de pagamentos, e o atraso na aprovação do Orçamento Geral da União (aprovado pelo Congresso no início da semana)", justifica o diz o secretário da Casa Civil do governo baiano, Bruno Dauster.

"Quando se fala de uma obra desse porte, que consome montantes como R$ 100 milhões por mês, um atraso de repasse deixa as empresas em situação desconfortável. Mas imaginamos que já neste mês ou no início de abril a situação vai ser normalizada e que as empresas vão recontratar muitos dos operários." Só na Bahia, segundo o Sintepav, foram demitidos 12 mil trabalhadores de dezembro pra cá.

Vigia. A dificuldade de caixa e as mudanças de governo também atrapalham o mercado de trabalho. No Ceará, a obra da linha leste do metrô de Fortaleza deveria estar com 1.200 trabalhadores, mas só tem 20 homens vigiando o maquinário. Na sexta-feira, apenas um vigia cuidava para que pessoas não autorizadas não entrassem no canteiro.

As obras da Estação do Colégio Militar, no bairro Aldeota, encontram-se paradas. Ela foi a primeira estação a ser iniciada, das 11 previstas para a Linha Leste do Metrô de Fortaleza. O empreendimento - orçado em R$ 2,3 bilhões - recebe recursos do Programa Mobilidade Grandes Cidades, do governo federal. A contrapartida do governo do Estado do Ceará é R$ 1,034.

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