Denatran libera uso de viva-voz no trânsito

O Departamento Nacional do Trânsito (Denatran) voltou atrás em sua decisão e liberou temporariamente o viva-voz no trânsito, até que o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) defina a questão. Especialistas reunidos ontem no seminário promovido pelo Denatran foram unânimes em afirmar que o risco de acidente é igual para o motorista que usa celular tradicional, fone de ouvido ou viva-voz. Pesquisas mostram que dirigir e conversar ao celular afetam a concentração do motorista.Mas a fiscalização deste último sistema é impossível. O aparelho normal de celular e fone monoauricular, que já são proibidos no trânsito, são visíveis quando em uso. O mesmo não ocorre com o viva-voz. "Não dá para distinguir se a pessoa está usando o viva-voz, cantando ou falando sozinha", admitiu a diretora do Denatran, Rosa Maria Cunha. Ela encaminhará ao Contran três sugestões feitas no seminário: proibir qualquer uso de celular no trânsito, realizar pesquisas para esclarecer os reais riscos e definir formas de fiscalização eficiente.O advogado especialista de trânsito José Almeida Sobrinho diz que uma saída seria proibir a instalação do viva-voz no carro. A multa só ocorreria em blitze ou vistorias em Detrans. Outra opção é o intercâmbio entre a operadora de telecomunicação e o órgão de fiscalização de trânsito para verificar se no momento do acidente o motorista estava ao celular. "Não seria uma quebra de sigilo telefônico", diz o advogado. Só funcionaria para chamadas feitas pelo motorista. O interlocutor não seria identificado.Sobrinho reconhece ainda que, nos dias de hoje, o uso de celular é questão de sobrevivência para alguns profissionais e necessário quando o motorista está preso em congestionamentos. Portanto, defende, cabe à sociedade decidir se está disposta a correr o risco de estar mais exposta a acidentes.RiscosO presidente da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, Fabio Racy, garante que o risco de acidente aumenta quatro vezes com o uso do celular. Com base em pesquisas feitas pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), verificou-se que aumentaram o tempo médio de percurso e o de reação a imprevistos, além das ultrapassagens a sinais vermelhos e o número de acidentes.O professor do Departamento de Psicologia e Educação da USP José Aparecido da Silva analisou dados experimentais e epidemiológicos e concluiu que dirigir e falar ao celular provoca uma sobrecarga mental no motorista. Silva alerta que a sobrecarga ocorre independentemente de o motorista estar usando aparelho normal ou sistema viva-voz.CampanhaA diretora do Denatran, que há três semanas proibiu o uso de qualquer sistema de celular, reconheceu ontem que o cidadão poderá ser exposto a uma fiscalização subjetiva por parte dos agentes de trânsito. Rosa quer desenvolver uma campanha educativa para alertar a população.Para o conselheiro do Conselho Federal de Psicologia Ricardo Moretszohn, antes de punir o motorista, o governo deveria investir em campanhas, a exemplo do que ocorreu com o cigarro. "Fumar hoje é brega, mas 20 anos atrás era chique."

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