Denise destaca rapidez incomum na certificação da nova Varig

'Empresa recebeu toda a certificação em 4 meses e meio. O mínimo no País havia sido de 9 meses, para a Gol'

Da Redação,

11 de junho de 2008 | 12h23

Em depoimento nesta quarta-feira, 11, a ex-diretora da Anac Denise Abreu destacou o tempo recorde em que a nova Varig recebeu a certificação para voar - o chamado Cheta. "Essa empresa recebeu toda a certificação em quatro meses e meio. O mínimo no País havia sido de nove meses, para a Gol. Nos Estados Unidos esse tempo é de um ano e 50% das empresas não recebe a certificação", afirmou. As acusações de Denise de que a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, favoreceu o fundo americano Matlin Patterson e seus sócios brasileiros na venda da Varig foram feitas em entrevista exclusiva ao Estado, em 4 de junho (leia aqui).    Veja também:'Governo arquitetou a saída dos diretores da Anac', diz DeniseTurbulências da Varig   Denise citou a pressão exercida pelo governo sobre a área de segurança da agência reguladora para que toda a documentação fosse agilizada, "como se a Anac não tivesse mais nada para fazer". Segundo ela, essa aceleração induzida do processo ocorreu em meio ao caos aéreo que tomava o País.  Ela citou também a pressão feita por parte do escritório do advogado Roberto Teixeira, compadre do presidente Lula, que representou os donos da VarigLog. Além disso, relatou que no processo de certificação, houve reuniões convocadas pela secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, para que a diretoria da Anac prestasse informações sobre o andamento do processo. "Encerrado o processo [após assinatura do contrato de concessão, em dezembro de 2006], a nova Varig vai decolar." A ex-diretora da Anac relatou, porém, que ela e Joseph Barat, também ex-diretor da agência, especulavam que a empresa não iria voar. "Nós dizíamos: 'tudo isso deve ter sido orquestrado de forma que ela pudesse ser vendida depois, por um preço maior'. Em menos de três meses, a empresa foi repassada à holding da Gol", disse. Denise ressaltou o fato de a empresa ter sido comprada por R$ 24 milhões em 2006 e revendida, "do mesmo tamanho, com 15 aeronaves", à Gol por R$ 350 milhões. Ela afirmou ainda que a agência não soube, em nenhum momento, durante o processo de certificação da nova Varig, adquirida então pela VarigLog, que imediatamente ao final desse processo ela seria revendida à Gol Transportes Aéreos. Segunda ela, em nenhum momento a Anac foi informada da possibilidade da venda para a Gol, tomando conhecimento do negócio pela imprensa, após encontro no Palácio do Planalto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com os proprietários da Gol, Nenê Constantino e Constantino Júnior. 'Massacre' Na audiência, a ex-diretora disse que o governo arquitetou a renúncia de todos os diretores da Anac. "Demorei a compreender as razões do governo [para arquitetar as renúncias]", disse. Segundo Denise, primeiro falou-se em uma trama da Aeronáutica, depois de que se tratava de um pedido do ministro da Defesa, Nelson Jobim. Segundo ela, no entanto, era apenas mais uma desculpa para todo o "massacre" e era óbvio que existiam outros interesses por trás. Denise afirmou também que foi transformada em bode expiatório da crise ocorrida no setor aéreo brasileiro, embora tenha ficado no órgão apenas um ano e cinco meses, tempo reduzido para o equacionamento dos problemas enfrentados na área.  Exigências A ex-diretora reafirmou que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, questionou "expressamente" as exigências feitas pela Anac à empresa Volo do Brasil, que negociava a compra da VarigLog. Denise explicou que diante do processo do Sindicato Nacional das Empresas Aéreas, que questionava suposta participação de mais de 20% de capital estrangeiro na Volo, ela cobrou dos sócios brasileiros da empresa a apresentação de declaração de Imposto de Renda, comprovação de entrada de capital estrangeiro da ordem de 20% na companhia (dado registrado no Banco Central) e apresentação de "eventual contrato de mútuo" dos sócios brasileiros e estrangeiros.  Depois disso, segundo ela, a ministra Dilma a chamou para uma reunião junto com a secretária-executiva da Casa Civil Erenice Guerra. "Fui indagada expressamente por cobrar exigências que, segundo a ministra, não estavam expressas em lei", disse Denise. Segundo ela, nessa reunião ela ouviu pela primeira vez que havia uma representação contra ela no Ministério da Defesa.  Denise Abreu afirmou ainda que "gestou por nove meses" a decisão de falar. Um dos motivos, como disse, foi a necessidade de prestar satisfação a membros de sua família. Segundo ela, foi enviada à casa de sua mãe, na época do seu primeiro depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Caos Aéreo, documentação falsa sobre supostas contas que ela mantinha no exterior.  Rotas A ex-diretora da Anac disse também que foi orientada pela ministra Dilma, em abril de 2006, para preparar um plano de contingência destinado a salvaguardar o interesse dos passageiros que ficariam desassistidos com a iminente falência da Varig. Por conta disso, a agência decidiu ratear as linhas dessa companhia com a TAM e a Gol, na proporção da participação que cada uma delas tinha no mercado.  Em seguida, disse que foi surpreendida com denúncias na imprensa de que estaria fazendo lobby para as duas companhias, tendo inclusive sendo chamada por Dilma Rousseff para prestar esclarecimentos sobre o fato. "Eu não ficaria calada e, portanto, respondi que havíamos recebido uma ordem dela própria para elaborar o plano de contingência", assinalou. (com Agência Senado e Fabio Graner e Isabel Sobral, da Agência Estado)

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