Dependência do IED preocupa

O Brasil continuará, em 2013, na dependência de financiamento externo para acertar o balanço de pagamentos. Se o investimento estrangeiro direto cobrir o déficit na conta corrente, como deve ter coberto em 2012, tanto melhor. Se for insuficiente, haverá com certeza recursos de outro tipo, empréstimos e aplicações financeiras de prazo curto. O déficit será compensado, mas com dinheiro em grande parte especulativo e bem menos seguro para a economia.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2013 | 02h06

No ano passado, o investimento estrangeiro direto, basicamente destinado a negócios do chamado setor real, deve ter chegado a uns US$ 63 bilhões, segundo projeção divulgada em dezembro pelo Banco Central (BC), valor bem maior que o buraco da conta corrente. Também nas últimas projeções do mercado financeiro, coletadas na pesquisa Focus do dia 4, houve alguma folga: US$ 60 bilhões para cobrir um déficit de US$ 53,3 bilhões.

A conta de transações correntes é formada pela soma da balança comercial (em geral superavitária), serviços e rendas (sempre fortemente deficitária) e transferências (superavitária e formada por itens como remessas a bolsas e recebimento de dinheiro enviado por trabalhadores no exterior, entre outros).

O que pesa. O Brasil precisa, tradicionalmente, de grande excedente na conta comercial para compensar o resultado negativo da balança de serviços e rendas, com os números de viagens, fretes, royalties, assistência técnica e entradas e saídas de lucros e juros. Em 2012, o superávit foi de US$ 19,4 bilhões, com exportações de US$ 242,5 bilhões e importações de US$ 223,1 bilhões.

O resultado das contas de serviços e rendas e de transferências ainda serão divulgados, mas as projeções do BC indicam déficit de US$ 74,3 bilhões para a primeira e um saldo positivo de US$ 2,8 bilhões para a segunda. Se esses números forem confirmados, as transações correntes terão sido fechadas com um déficit de US$ 52,1 bilhões, bem menor que o valor dos investimentos diretos.

Um resultado inquietante, um alerta para a equipe econômica assoberbada por outros problemas, sim, mas este deve ser colocado como prioritário, porque é mais uma dependência externa num cenário internacional ainda de crise e incerteza.

2012 foi apertado. Nas contas externas, a história de 2012 deve ter acabado, portanto, dentro de padrões razoáveis de segurança, com um déficit em conta corrente próximo de 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB). O resultado negativo terá sido compensado com investimentos presumivelmente de alta qualidade e tudo parece em ordem. Mas os fatos são um pouco mais complicados.

Em 2012, o valor exportado foi 5,3% menor que o do ano anterior, pela média dos dias úteis. O valor importado foi apenas 1,4% inferior ao de 2011. As vendas de matérias-primas foram afetadas pela crise global e principalmente pela demanda chinesa menos intensa. Quanto à indústria, enfrentou dificuldades para competir tanto no exterior quanto no mercado interno. A receita obtida com os manufaturados foi 1,7% menor que a de um ano antes, enquanto a de produtos básicos diminuiu 7,4% e a de semimanufaturados encolheu 8,3%. E isso vem se repetindo há algum tempo.

Em 2013 o quadro continua preocupante, porque o comércio internacional deve crescer lentamente e a concorrência deverá ser dura em todos os mercados. A indústria brasileira, de modo geral, continuará com dificuldade para competir e a evolução dos preços das commodities é muito incerta.

Por enquanto, o BC projeta para o ano superávit de US$ 17 bilhões, inferior, portanto, ao de 2012, e déficit em conta corrente de US$ 65 bilhões. A estimativa do investimento estrangeiro direto aponta ingresso líquido suficiente para cobrir o déficit da conta corrente. O mercado prevê superávit comercial de US$ 15 bilhões, déficit de US$ 62,1 bilhões em transações correntes e US$ 60 bilhões de investimento estrangeiro direto. Nesse caso, a cobertura total dependerá, embora em porcentagem pequena, de financiamentos menos seguros.

Confirmadas as previsões do BC ou do mercado, o cenário continuará preocupante. Primeiro, porque a economia precisa do estímulo de exportações mais vigorosas e, de modo especial, de um dinamismo maior da indústria. Segundo, porque a dependência de financiamentos especulativos, embora limitada, é sempre uma fonte de riscos. Financiamento fácil e barato só existe quando a necessidade é limitada. O governo não deve esquecer as muitas crises anteriores de suas contas externas. Não estamos lá, mas os sinais de risco estão aí.

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