Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Dependente da indústria extrativa, Minas Gerais está dividida

Estado tem uma economia fortemente atrelada à atividade: 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB) vêm da indústria extrativa

Mariana Durão, Idiana Tomazelli / RIO, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2015 | 02h06

A tragédia ambiental em Mariana revela o paradoxo vivido por Minas Gerais. Ao mesmo tempo que precisa combater os riscos da mineração, o Estado tem uma economia fortemente atrelada à atividade: 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB) vêm da indústria extrativa, segundo o dado mais recente do IBGE, de 2013. A presença da mineração é ostensiva, marcada na paisagem, no nome e na história. O desbravamento na região que hoje compreende o Estado de Minas Gerais começou no século 16, com a busca dos bandeirantes por ouro e pedras preciosas.

"Mariana é altamente dependente da mineração. Sou a favor da suspensão das atividades (da Samarco) por prazo determinado, mas não da paralisação definitiva da mina", admitiu o prefeito da cidade, Duarte Júnior, apenas cinco dias após o rompimento da barragem da Samarco, sociedade entre Vale e BHP Billiton, que soterrou o município de lama e deixou 12 mortos e 11 desaparecidos. A explicação é simples: 80% da arrecadação do município vêm da atividade mineradora.

Mesmo em um cenário de queda brusca do preço do minério de ferro, o último levantamento do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), divulgado em outubro, prevê que as mineradoras investirão US$ 53,6 bilhões no País no período 2014-2018. É uma queda de 15,7% em relação ao estudo anterior, mas ainda um montante expressivo. O Estado de Minas concentrará a maior fatia (41,8%), com R$ 22,4 bilhões.

Hoje, 72 empresas têm concessões de lavra só de minério de ferro em Minas, segundo o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). O grupo inclui Vale, sua controlada Samarco, Anglo American, CSN e Usiminas. O Estado é campeão em requerimentos de pesquisa mineral e registros de licença.

Altos e baixos. Ao mesmo tempo que é um fator de dinamismo, a forte presença da mineração no Estado significa lidar com efeitos dos altos e baixos da commodity na economia. O ciclo de baixa dos preços do minério de ferro - a cotação saiu de US$ 134 a tonelada no início de 2014 para US$ 43,4 a tonelada ontem - provocou paralisação ou cancelamento de projetos.

Esse ciclo de baixa ainda ameaça postos de trabalho e a arrecadação de royalties da mineração. De acordo com o DNPM, o setor de extração de minério de ferro perdeu 2.097 postos de trabalho em Minas no primeiro semestre.

Já a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) paga ao Estado caiu a R$ 800,7 milhões no ano passado, 33,5% menos que em 2013. Neste ano até novembro, foram apenas R$ 534 milhões. Minas Gerais detém sozinha 44,8% da arrecadação do royalty da mineração no País.

O presidente da Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais (Amig) e prefeito de Congonhas, José Cordeiro de Freitas, estima que 20 cidades mineiras dependam exclusivamente da mineração. Muitas já enfrentavam situação delicada por causa da queda dos preços do minério de ferro. "Na minha cidade, o orçamento total previsto (para 2015) era de R$ 430 milhões e deve chegar R$ 300 milhões. É uma queda de 30%." Ele observa que torná-las menos dependentes da atividade mineradora depende também da iniciativa privada.

O secretário de Desenvolvimento Econômico de Minas, Altamir Rôso, diz que o mau momento da mineração elevou a preocupação do governo em diversificar a pauta, induzindo investimentos em setores como alta tecnologia, logística, aeroespacial e sucroalcooleiro. "Estamos mapeando 17 territórios para ter um plano mais consistente para incentivar esse movimento", afirma. "Não podemos ter o Estado economicamente tão dependente de mineração e metalurgia."

"Não podemos deixar que o ciclo econômico fique dependente de um único produto. Quando o minério de ferro tem preços em ascensão, a economia acompanha. No momento atual, quando o preço do minério encontra o seu vale, a economia também cai. Só que a economia não pode ficar prisioneira de preço de um único produto", pondera o economista Pedro Paulo Pettersen, vice-presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG).

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