Valda Kalnina/EFE/EPA
Valda Kalnina/EFE/EPA

Depender da soja brasileira é o mesmo que apoiar o desmatamento da Amazônia, diz Macron

Em vídeo publicado em rede social, o presidente francês Emmanuel Macron relaciona a soja brasileira com o problema ambiental e fala em produzir o grão na Europa

Gabriel Bueno da Costa, Fernanda Guimarães, Francine De Lorenzo e Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2021 | 17h07
Atualizado 13 de janeiro de 2021 | 11h44

SÃO PAULO E BRASÍLIA - O presidente da França, Emmanuel Macron, fez críticas ao desmatamento da Amazônia e citou especificamente a soja brasileira, relacionando-a ao problema ambiental. "Continuar a depender da soja brasileira seria apoiar o desmatamento da Amazônia", afirmou Macron, em sua conta oficial no Twitter. A publicação dele é acompanhada de um vídeo, no qual comenta a questão a repórteres.

"Nós somos coerentes com nossas ambições ecológicas, estamos lutando para produzir soja na Europa", afirmou o presidente francês. Macron comanda nesta semana o "One Planet Summit", uma cúpula formada por cerca de 30 chefes de Estado, empresários, representantes de Organizações Não Governamentais (ONGs), evento do qual o Brasil não participa. O tema neste ano foi dedicado à preservação da biodiversidade.


Embora a França não seja individualmente um dos principais compradores da soja brasileira, quase 20% das exportações para a União Europeia, bloco do qual os franceses fazem parte, são de soja e farelo de soja produzidos pelo Brasil, mostram dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Economia consultados pelo Estadão/Broadcast.

No ano passado, o Brasil enviou US$ 28,342 bilhões em exportações para o bloco europeu, sendo US$ 2,9 bilhões em farelo de soja (10%) e US$ 2,6 bilhões em soja (9,3%). Individualmente, o Brasil exportou US$ 27,1 milhões em soja para a França, além de US$ 544 milhões de farelo de soja, de um total de US$ 1,983 bilhão em embarques para o país europeu.

Apesar do baixo valor, técnicos ponderam que a União Europeia tem uma dinâmica própria do bloco, tendo Países Baixos e Espanha como as principais portas de entrada dos embarques de soja feitos pelo Brasil, devido à sua estrutura portuária. Depois de ingressar na UE é que a soja segue para o destino final.

Por isso, a análise dos dados agregados pode ajudar mais a mostrar o que está em jogo. Segundo os dados, Países Baixos receberam US$ 1,11 bilhão em soja brasileira no ano passado, enquanto a Espanha, US$ 957 milhões. Juntos, esses países responderam por 7,2% das exportações de soja feitas pelo Brasil.

Procurados pela reportagem, os ministério da Economia e da Agricultura disseram que não comentariam as declarações de Macron.

 

Reação

Em resposta à fala de Macron, o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), Bartolomeo Braz, afirmou que o presidente da França está usando uma “artimanha” para subsidiar os produtores de soja do seu país. “Eles não são competitivos, por isso compram soja nossa. E começam a usar essa artimanha para subsidiar ainda mais os seus produtores”, afirmou. 

Braz diz que se a França parar de comprar a soja brasileira, o cenário das vendas brasileiras do grão “não muda em nada”. Segundo o representante da Aprosoja, o Brasil deve exportar neste ano 101 milhões de toneladas de óleo, farelo e grãos de soja – e a França compra cerca de dois milhões de toneladas por ano. “Não há ligação da soja com o desmatamento do bioma Amazônico desde 2008, isso é fiscalizado e acompanhado”.

A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), em nota, também disse lamentar “que o presidente da França, Emmanuel Macron, busque justificar sua decisão de subsidiar os agricultores franceses atacando a soja brasileira. Como bem sabe Macron, a soja produzida no bioma Amazônia no Brasil é livre de desmatamento desde 2008, graças a Moratória da Soja, iniciativa internacionalmente reconhecida, que monitora, identifica e bloqueia a aquisição de soja produzida em área desmatada no bioma, garantindo que existe risco zero do envio de soja de área desmatada (legal ou ilegal) deste bioma para mercados internacionais”.

A declaração de Macron é dada no momento em que a União Europeia e o Mercosul negociam um acordo comercial, mas o fracasso brasileiro na proteção ambiental, na opinião de algumas autoridades europeias, seria um entrave para avançar no tema.  O desmatamento nas florestas brasileiras está no holofote de governos da Europa e grandes investidores globais, que passaram o último ano pressionando o governo de Jair Bolsonaro por medidas para conter o problema ambiental, sob a ameaça de retirada de investimentos do País.

“A França hoje deixa claro que não quer mais contribuir com o desmatamento, mesmo que seja por meio da sua demanda de soja. O cerco está de fato apertando e o Brasil precisa mandar sinais claros de que está preocupado e disposto a solucionar o desmatamento”, afirma o pesquisador da iniciativa Trase, plataforma de fiscalização de cadeias de commodities, André Vasconcelos, sediada em Londres. Ele frisa que o sinal não vem apenas da França.

“Hoje, a Bélgica e a Espanha anunciaram a entrada no grupo 'Amsterdam Declaration Partnership' - formado por nove países europeus, incluindo a França - que se comprometeu a eliminar o desmatamento associado às suas importações de commodities, como a soja”, diz. 

Desmatamento em fazendas de soja

Estudo recente elaborado pela Trase, conjuntamente com a Imaflora e ICV, apontou que no maior Estado brasileiro produtor de soja, Mato Grosso, 27% de todo o desmatamento observado entre 2012 e 2017 ocorreu em fazendas do grão.  O estudo mostrou que 80% do desmatamento ilegal em fazendas de soja ocorreu em 400 imóveis, que representam apenas 2% do número total de fazendas de soja no Estado.

Em sua maioria, ao contrário do que se imagina, essas fazendas são grandes imóveis rurais (73%).  A estimativa, ainda, é que mais de 80% da soja produzida em fazendas onde ocorreu desmatamento ilegal tenha sido exportada para mercados globais – 46% para a China e 14% para a União Europeia. 

Em 2019, a área total de soja no Brasil era de 36,3 milhões de hectares, sendo que cerca de 15% (5,1 milhões de hectares)  no bioma da Amazônia, segundo informações da MapBiomas. 

Divergências entre Macron e Bolsonaro

Macron tem sido há tempos uma das vozes mais ativas nas críticas internacionais às queimadas na Floresta Amazônica. E se tornou um forte alvo das queixas do governo brasileiro, sobretudo do grupo militar, que reclama de intervenção externa e ameaça à soberania na região.

As posições do presidente francês em relação à Amazônia já levaram a reações inflamadas do presidente  Jair Bolsonaro. Em 2019, após Macron levar ao G-7 uma proposta de apoio financeiro ao Brasil para combate às queimadas na floresta, Bolsonaro reagiu: "Macron promete ajuda de países ricos à Amazônia. Será que alguém ajuda alguém, a não ser uma pessoa pobre, sem retorno? O que ele está de olho na Amazônia?", disse. 

As farpas chegaram até ao lado pessoal. Em agosto de 2019, o perfil do presidente Jair Bolsonaro na rede social Facebook postou uma mensagem de risadas após um comentário ofensivo sobre a esposa do presidente da França, a primeira-dama Brigitte Macron, feito por um de seus seguidores. 

Em um post em que falava da Amazônia, um dos seguidores da página do presidente postou uma montagem com duas fotos. Na de cima, Brigitte aparecia atrás de Macron e, na de baixo, o presidente aparecia com a primeira-dama do Brasil, Michelle Bolsonaro, à frente. Ao lado das fotos, há um texto dizendo “Entende agora pq Macron persegue Bolsonaro?” A página do presidente da República respondeu ao seguidor com “não humilha cara. Kkkk”. 

Macron respondeu posteriormente: "Bolsonaro fez comentários extremamente desrespeitosos sobre minha mulher", disse. "O que eu posso dizer? É triste, mas é triste primeiro por ele e pelos brasileiros. Como tenho uma grande amizade e respeito pelo povo brasileiro, espero que tenham rapidamente um presidente que se comporte à altura."

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