Johannes Eisele/AFP
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coluna

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Depois da doença, a dívida

Para enfrentar o oneroso legado da pandemia, governos terão de achar o caminho certo entre estímulo e contenção

The Economist, O Estado de S. Paulo

04 de maio de 2020 | 05h00

Líderes nacionais gostam de falar da luta contra a covid-19 como uma guerra. Trata-se mais de uma figura de retórica, mas sob um aspecto eles estão certos. O endividamento público no mundo rico deve disparar para níveis vistos pela última vez em meio aos escombros e à fumaça de 1945. Enquanto a economia se despedaça, os governos vêm destinando bilhões a famílias e empresas para ajudá-las a sobreviver ao confinamento. Ao mesmo tempo, com fábricas, lojas e escritórios fechados, as receitas fiscais entram em colapso. Muito tempo depois de os hospitais cheios por causa da covid-19 se esvaziarem, os países ainda viverão as consequências da doença.

Uma extraordinária deterioração das finanças públicas está em curso. O governo dos Estados Unidos deverá contabilizar um déficit de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano, porcentagem que deverá aumentar caso mais estímulos sejam necessários. Por todo o mundo rico, segundo previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI), a dívida governamental bruta subirá de US$ 6 trilhões para US$ 66 trilhões no fim do ano, ou de 105% do PIB para 122% – aumento jamais visto em nenhum ano durante a crise financeira global. Se o confinamento persistir, a carga será muito maior. Administrar essas dívidas colossais sobrecarregará as sociedades ocidentais por décadas futuras.

Alguns assuntos no campo econômico despertam mais alarme do que a dívida governamental. O relógio da dívida do país perto da Times Square, em Nova York, já vem alertando para o iminente Armageddon fiscal desde 1989. Na verdade, a dívida pública de um país não é como o saldo do cartão de crédito de uma família. Quando a dívida nacional é detida pelos cidadãos, um país na verdade deve dinheiro a si mesmo. A dívida pode ser alta, mas o que importa é o custo do serviço dela. Enquanto eles forem baixos, esse serviço ainda é barato. Em 2019, os EUA gastaram 1,8% do PIB no pagamento de juros, menos do que há 20 anos. 

Em 2019, a dívida pública bruta do Japão já correspondia a quase 240% do PIB do país, mas havia poucos sinais de que não poderia ser sustentada. Em países que imprimem o próprio dinheiro, os bancos centrais conseguem manter os juros baixos comprando títulos, como foi feito nas últimas semanas numa escala sem precedentes (o banco central americano comprou mais títulos do Tesouro em cinco semanas do que emitiu no ano até março). 

No momento, não existe nenhum risco de inflação, especialmente por causa do colapso dos preços do petróleo. Muitos economistas se preocupam menos com as tomadas de empréstimos irrefreáveis dos governos e mais com sua maior timidez por causa de um medo irracional de elevar a dívida pública. Hoje, um suporte fiscal inadequado pode colocar a economia numa espiral de declínio.

Ao mesmo tempo que gastar livremente agora para evitar um colapso maior é o único caminho sensato, as tomadas de empréstimo trarão problemas. Os EUA têm fortes defesas contra uma crise financeira porque o dólar é a moeda de reserva do mundo e os países estrangeiros querem possuir seus títulos. Mas outros países ricos não têm essa chance. A dívida gigantesca da Itália e a sua participação na zona do euro condenam o país a viver com a ameaça perene de um pânico financeiro se o Banco Central Europeu (BCE) deixar de comprar seus títulos.

A boa notícia é que os mercados financeiros sinalizam que as taxas permanecerão baixas por décadas. Mas tanta coisa ainda é desconhecida no caso do vírus e seus efeitos que, neste momento, os investidores não conseguem ver claramente o futuro. Alguns economistas se preocupam de que, uma vez dominado o vírus, ocorra uma espiral de juros e preços à medida que uma explosão da demanda dê de encontro com redes de fornecimento destroçadas pela pandemia.

Caminho traiçoeiro

Os governos terão de trilhar um caminho traiçoeiro entre estímulo hoje e prudência amanhã. O sucesso não está garantido. Depois da Segunda Guerra Mundial, os países reduziram suas dívidas no curso de décadas, mas somente utilizando uma combinação de juros altos sobre o capital, repressão financeira (forçando investidores domésticos a manterem a dívida a juros artificialmente baixos) e inflação, que corrói o valor real das dívidas no decorrer do tempo. 

Um baby boom e níveis de educação que rapidamente se elevaram tornaram mais fácil para as economias crescerem e saírem do endividamento. O Japão não enfrenta uma crise no mercado de títulos desde os anos 1990, mas o índice de endividamento em relação ao PIB continua a aumentar. Após a crise financeira em 2007-2009, alguns países europeus decidiram realizar cortes no orçamento para reduzir a dívida, com resultados controversos e uma forte reação política contrária.

A política de redução do déficit será tóxica. A pandemia deverá intensificar os apelos por gastos generosos e nenhum aperto de cinto, especialmente no campo dos serviços médicos. 

Uma população que envelhece indica que a demanda por aposentadorias e gastos com saúde aumentará nas décadas de 2030 e 2040. Ficará mais caro manter os serviços públicos, sem falar em melhorias. Os políticos que reduzirem benefícios para pensionistas serão punidos por legiões de eleitores mais velhos. Haverá menos dinheiro poupado para combater crises futuras, como a climática, ou outras eventuais pandemias.

Diante dessa assustadora realidade, os governos do mundo rico cometerão um enorme erro se sucumbirem a preocupações prematuras e excessivas com os orçamentos. Embora estejam vivendo a agonia da pandemia, uma retirada de ajuda de emergência será contraproducente.

Uma inflação modestamente mais alta ajudaria, estimulando a taxa de crescimento nominal da economia. Quando esta excede o juro, as dívidas existentes com o tempo encolhem com relação ao PIB. Infelizmente os bancos centrais recentemente não atingiram suas metas de inflação. Nos últimos dez anos, o déficit cumulativo nos Estados Unidos e na zona do euro ficou em torno de 5 a 6%. Os bancos centrais deveriam se comprometer a criar um déficit que empate com inflação no futuro. O que diminuiria o peso da dívida sem romper com promessas passadas de se aterem às metas inflacionárias.

E os governos têm de se preparar para a tarefa de equilibrar os orçamentos mais para o fim da década. Feito corretamente, isso será mais justo e mais eficiente do que manter os juros baixos e permitir que a inflação dê uma arrancada, o que iria transferir a riqueza de maneira regressiva e arbitrária, por exemplo, reduzindo as dívidas de empresas, companhias e proprietários de imóveis imprudentemente alavancadas. O melhor é elevar os impostos sobre a terra, herança, emissões de carbono e, nos Estados Unidos, sobre o consumo – e pelo menos tentar reduzir os gastos no caso dos idosos.

Serviço da dívida pública

Talvez os juros realmente continuem baixos, ao passo que o crescimento pode se restabelecer e a inflação subir apenas ligeiramente, aliviando o peso da dívida. Conviver com dívidas enormes, provavelmente, será mais penoso e estressante. A elaboração de orçamentos implicará também encarar isso como um desafio definidor do mundo pós-covid-19 – um desafio que, hoje, os políticos nem mesmo começaram a confrontar. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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