''Depois da eleição, virão mais dólares''

Will Landers, gestor sênior da BlackRock

Raquel Landim, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

Will Landers nasceu e cresceu na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, mas se mudou com os pais para os Estados Unidos ainda adolescente. Hoje é gestor sênior da BlackRock, uma das principais administradoras de recursos do mundo. Ele aplica US$ 10 bilhões na América Latina, 70% no Brasil.

Passada as eleições de hoje, Landers prevê uma forte entrada de recursos no mercado brasileiro de ações, o que deve atrapalhar os planos do governo de segurar a valorização do real. "Se houver garantia de continuidade na economia, vai ajudar muito a bolsa."

Ele, no entanto, não esconde a preocupação com uma eventual alta do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para ações. "Seria muito injusto o governo taxar novas operações agora que já fez a dele", diz, referindo-se à capitalização da Petrobrás. A seguir, trechos da entrevista.

O Brasil tomou medidas para reduzir o fluxo de capitais. Qual foi a percepção dos investidores estrangeiros?

Sou responsável por fundos que investem somente em ações na bolsa. Até agora não fomos afetados diretamente. Não acredito que essas medidas tenham um efeito de longo prazo duradouro. O mercado sempre se ajusta. O fato é que o Brasil está em uma posição privilegiada em relação ao resto do mundo neste momento e, por isso, a moeda tem se valorizado. Os investidores querem participar mais dessa economia que está indo superbem e com boa perspectiva de seguir assim.

Desde que o governo adotou os 6% de IOF, o real se desvalorizou e se manteve no nível de R$ 1,70. Está funcionando?

No início, realmente o governo interrompeu o investimento de curto prazo em renda fixa. Mas com um diferencial de juros tão grande é óbvio que o investidor vai correr atrás dessa rentabilidade. De um lado, o Banco Central mantém os juros altos para segurar o ritmo da economia. De outro, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e outros órgãos do governo injetam recursos e elevam mais o crescimento. Seria melhor se todos trabalhassem juntos. Acho que foi um pouco a mensagem do Meirelles (Henrique Meirelles, presidente do BC), quando disse que a inflação volta para a meta de 4,5% em 2011, com um ajuste fiscal. Se não vier o ajuste, ele vai ter de ajustar os juros.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que não é preciso ajuste fiscal para reduzir juros.

É uma questão de opinião. A maioria das pessoas no mercado, e eu apostaria que também no Banco Central, discordam. Estava correto o governo ajudar o País a sair da "minirrecessão" de 2008, mas não havia necessidade de continuar com gastos mais altos no segundo semestre de 2009 e muito menos em 2010.

Analistas temem que a alta do IOF signifique que o Brasil está abandonando o câmbio flutuante. Como o sr. avalia?

Não acredito. O câmbio flutuante funcionou muito bem para o Brasil na crise, permitindo aguentar a volatilidade sem repercussão nas contas. Como o FMI hoje não desaprova países que tentam se proteger com algum tipo de controle de capital, dá oportunidade de fazer esse tipo de medida sem uma repercussão muito negativa.

O Brasil não foi o único a tentar conter a valorização da moeda. É visto como mais ou menos agressivo pelos investidores?

Um pouquinho mais agressivo, mas o Brasil é muito maior e mais importante na economia mundial. Talvez a Coreia seja parecida, mas a Tailândia é comparável ao Chile e Peru.

Qual é o grau de interesse dos investidores estrangeiros por ações de empresas brasileiras?

Tinha três grandes questões na cabeça do investidor no começo deste ano que seguraram um pouco o fluxo de recursos, principalmente no primeiro semestre: capitalização da Petrobrás, dúvidas se a taxa de juros subiria demais e a eleição. Como no domingo (hoje) teremos a resposta para a terceira pergunta, vai ajudar muito a bolsa. Acabei de fazer uma viagem para visitar clientes na Ásia por duas semanas. O interesse é grande e os investidores estão subinvestidos em América Latina. O potencial de investimento de estrangeiros no Brasil ainda continua forte.

Depois das eleições, teremos então um grande fluxo de investimento estrangeiro em ações?

Não sei se vai ser logo de cara, mas se livra dessa incógnita. Vamos supor que a Dilma (Dilma Rousseff, candidata do PT e líder nas pesquisas) ganhe. Se ela vier com um gabinete mais ou menos como tem se falado no mercado, com posições importantes para Palocci (Antônio Palocci, ex-ministro da Fazenda), Meirelles e Luciano Coutinho (presidente do BNDES), vai ajudar bastante o mercado. Será uma reafirmação da continuidade do plano econômico que começou em 1994. Isso é a questão principal para o mercado. Por que a bolsa não está cara? Ok, subiu bastante, mas não está cara. A bolsa está negociando a um PL (relação entre preço e lucro) perto de dez vezes, que continua a ser o mais barato da América Latina e um dos mais baratos dos emergentes.

Qual é a posição do Brasil hoje em relação aos outros Brics para atrair investimentos?

Estamos em linha com a China, com a Índia atrás e a Rússia por último. A Rússia segue sendo o mercado mais barato, mas é o menos dinâmico.

Se for adotado o IOF para ações, afugentaria o investidor?

Faz diferença e espero que não aconteça. Mas, é claro, vai depender do porcentual. Se o governo colocar 6%, vai fazer diferença. Ainda dá para engolir 2%, mas 6% é muito. Não sei dizer se eu não operaria com Brasil, mas com certeza me focaria mais em ADRs (papéis das empresas brasileiras na Bolsa de Valores de Nova York). Ou seja, isso atrapalha as companhias menores, que querem levantar capital na bolsa. O dinheiro de ações é bem parecido com o do investimento estrangeiro em produção. Em geral, quando você compra ações, pelo menos na nossa cabeça, é para o longo prazo. É interessante que o governo quer segurar a entrada de capitais, mas faz uma super operação para a Petrobrás. Seria muito injusto o governo começar a taxar novas operações depois que eles fizeram a deles.

O Fed deve anunciar mais injeção de recursos na economia esta semana. Qual será o impacto no mercado?

A expectativa é que vamos ter mais afrouxamento monetário nos Estados Unidos, o que significa que o dólar vai seguir perdendo força em relação a outras moedas. Por isso digo que não é preciso colocar imposto no Brasil. Não está tendo abuso no mercado. São os fundamentos que definem a trajetória da moeda.

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