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Depois da posse

Porquanto seja verdade que a remoção de Dilma Rousseff abre espaço para que o conserto do Brasil se inicie, o tamanho dos estragos e os desafios políticos não devem ser escanteados.

Monica De Bolle, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2016 | 14h20

Pedreira. Essa é a imagem que vem à mente quando penso no quadro pós-impeachment. Muitos têm considerado que a posse de Temer elimina as incertezas que tanta dor causaram ao País desde que as fichas do impeachment foram lançadas. Porquanto seja verdade que a remoção de Dilma Rousseff abre espaço para que o conserto do Brasil se inicie, o tamanho dos estragos e os desafios políticos não devem ser escanteados.

O tamanho dos estragos. O IBGE acaba de divulgar o que ocorreu com a atividade no segundo trimestre de 2016: uma queda de 3,8% na comparação com o mesmo período do ano passado. O consumo das famílias continuou a encolher pelo sexto trimestre consecutivo e as perspectivas de que melhore em breve não estão postas. Como também soubemos nessa semana tão conturbada, o número de desempregados alcançou 11,8 milhões de pessoas, a renda descontada a inflação caiu 3% em relação a 2015. Diante desse quadro dramático, não há esperança de que suspiros de confiança resgatem a capacidade de consumir das famílias brasileiras. O investimento ainda não deu os sinais de recuperação compatíveis com os cenários mais otimistas traçados pelos analistas. As exportações continuam reféns do mau momento internacional e da falta de competitividade de nossos produtos. Entramos na antessala do último trimestre de 2016 sem saber como virá a retomada da atividade.

Os desafios políticos. Michel Temer já indicou que uma de suas prioridades como presidente empossado será encaminhar ao Congresso as reformas que tratarão de consertar os problemas estruturais das contas públicas. A reforma da Previdência, a criação do teto para os gastos públicos, a necessidade de emplacar mudanças constitucionais que permitam que o teto proposto tenha eficácia. Essas reformas, caso sejam aprovadas com poucas mudanças, podem, sim, criar as condições para a melhora da confiança e para a sustentabilidade fiscal de médio prazo. Contudo, não se deve perder de vista que são reformas com impacto negativo sobre benefícios, sobre a renda das famílias e dos trabalhadores brasileiros. Por essas razões, não serão reformas fáceis de aceitar, não contarão com o apoio irrestrito da sociedade, e, portanto, do Congresso. O trabalho de Temer como presidente, não mais como interino, para levá-las a cabo será árduo. Afinal, é bem possível que o período de lua-de-mel de Temer tenha se dado, justamente, na interinidade.

Temer vai à China logo depois da posse. Temer vai se apresentar no palco do G-20. Como disse uma grande jornalista brasileira, diante desses desafios, é melhor uma Brasília na mão do que uma China voando.

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