Depois da S&P, agência Fitch eleva o Brasil a grau de investimento

Empresa atribui nota à evolução das contas fiscais e externas; expectativa de entrada de capitais derruba dólar

O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2008 | 00h00

A agência de classificação de risco de crédito Fitch, a terceira maior do mundo, elevou ontem o Brasil ao chamado grau de investimento. A empresa é a segunda do ramo a conceder ao País o conceito, exatamente um mês depois da concorrente Standard & Poor?s (S&P). Das três grandes da área, apenas a Moody?s ainda não considera o Brasil um lugar seguro para os investidores internacionais. A Fitch mudou a nota (rating) brasileira de BB+ para BBB-, o primeiro degrau do grupo de países considerado grau de investimento . "A melhora impressionante nas finanças externas, resultante, em parte, de preços mais altos de commodities, mas também de boa gestão política, ao lado do status de credor soberano líquido, tornou o Brasil bem mais resistente a choques financeiros globais", afirmou a diretora sênior do grupo de ratings soberanos da Fitch, Shelly Shetty.Os mercados financeiros reagiram de formas distintas à informação. O dólar comercial recuou 1,09%, para R$ 1,637, o menor valor desde o dia 20 de janeiro de 1999, uma semana depois da desvalorização do real. O risco Brasil, medido pelo banco JP Morgan Chase, despencou 7,2%, para 192 pontos. O Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) perdeu 1,85%. Os contratos de juros negociados na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) também caíram. Segundo analistas, o dólar caiu por conta da perspectiva de que o grau de investimento reforce a entrada de capitais no País. "Na prática, a promoção pela segunda agência permite que mais investidores adquiram ativos brasileiros", disse o economista-chefe do Banco WestLB, Roberto Padovani.Isso ocorre porque muitos fundos internacionais - sejam eles de investimento, de pensão ou institucionais - só permitem a aplicação de seus recursos em ativos que sejam chancelados por ao menos duas das três principais agências do mercado. No caso da bolsa, a queda de ontem deveu-se a dois fatores. O primeiro foi o recuo das commodities no mercado internacional. O barril do petróleo para entrega em julho, por exemplo, perdeu 3,37% (a US$ 126,62) na Bolsa Mercantil de Nova York (Nymex, na sigla em inglês). A notícia do grau de investimento pela Fitch reverteu por alguns minutos o mau humor, mas a recuperação foi breve e não se sustentou até o fim dos negócios. "Os investidores aproveitaram (a informação) para realizar lucro", afirmou o analista da Itaú Corretora Maurício Oreng. Ele observou que, na quarta-feira, o Ibovespa havia subido mais de 3% - entre outras razões, por causa de rumores de que a Fitch poderia elevar a nota do Brasil. O economista-chefe do Banco Santander e ex-diretor de assuntos internacionais do Banco Central, Alexandre Schwartsman, lembrou que a elevação da Fitch era "bola cantada". "A decisão da S&P foi uma surpresa maior por causa do momento em que foi anunciada." No médio e longo prazos, os especialistas mantêm o otimismo com o desempenho da bolsa brasileira. A Itaú Corretora projeta que o Ibovespa encerrará o ano entre 82 mil e 83 mil pontos (ontem, fechou perto de 71.800 pontos). O banco WestLB estima algo entre 81 mil e 82 mil pontos. A Sul América Investimentos prevê 80 mil pontos.O risco Brasil e os juros futuros caíram porque o grau de investimento, ao menos em teoria, abre as portas do Brasil para bilhões de dólares, euros e ienes. Oferta maior de dinheiro significa queda dos juros. O economista-chefe da Sul América, Newton Rosa, alerta que essa expectativa em relação ao juro é verdadeira no que se refere ao custo de captação para empresas e governo brasileiro no exterior. Mas não pode ser dada como certa no caso da taxa básica (Selic). "Esse juro (interno) reflete questões estruturais do País", observou. "No nosso caso, estamos falando de um Estado pesado, com carga tributária elevada, entre outros fatores."Seu argumento vai ao encontro do que disse Shelly, da Fitch. Segundo ela, a próxima melhora do rating brasileiro demandará redução dos gastos com a Previdência Social e da relação dívida/Produto Interno Bruto (PIB). "O País tem fraquezas estruturais nas finanças públicas. Os gastos estão altos e há ainda problemas na Previdência Social", comentou. LEANDRO MODÉ, LUCIANA XAVIER, RICARDO LEOPOLDO E CÉLIA FROUFE

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