Divulgação
Divulgação

Depois da virada do dólar, indústria já calcula perdas com exportações

Balança comercial. Empresários que planejaram vendas para o exterior com a moeda americana na casa dos R$ 4 estão ‘apreensivos’ com o comportamento do câmbio; em duas semanas, cotação do dólar saiu do nível de R$ 3,40 para R$ 3,20

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2016 | 16h00

A recente valorização do real não estava no radar das empresas e pegou a indústria brasileira no contrapé. Em duas semanas, a moeda americana saiu do patamar de R$ 3,40 para R$ 3,20. Na quinta-feira, chegou a bater em R$ 3,18.

A alta do dólar ante o real no ano passado havia recolocado as empresas brasileiras de volta no jogo das exportações. As companhias se tornaram mais competitivas, promoveram uma reorganização interna e passaram a enxergar o mercado externo como uma válvula de escape, no momento em que o País estava mergulhado na pior recessão desde a década de 30.

Entre os empresários, os indícios de valorização do real dão uma sensação de déjà vu. Nos últimos anos, um mantra repetido pelo setor industrial era de que o real valorizado tirava a competitividade das exportações. E foi o que ocorreu: as empresas brasileiras perderam espaço no mercado internacional.

“A valorização do real tem nos deixado apreensivos. A empresa fez planos imaginando que o dólar estaria mais próximo de R$ 4 do que de R$ 3”, afirma o presidente da calçadista Vulcabrás/Azaleia, Pedro Bartelle. “Calculamos os nossos preços e fizemos as nossas pré-vendas, mas essa valorização tem corroído o resultado das exportações.”

No início deste ano, a empresa planejava um crescimento de 30% nas vendas para o mercado internacional. Com a mudança de patamar do câmbio nas últimas semanas, reduziu a projeção para alta de 20%.

O cenário se torna mais difícil porque as empresas também estão tendo de lidar com a volatilidade do câmbio. No início deste ano, por exemplo, o dólar chegou a ser cotado acima de R$ 4.

“É muito difícil trabalhar com essa oscilação do câmbio”, afirma o presidente da Cedro Têxtil, Marco Antonio Branquinho Junior. “A volatilidade, talvez, seja o maior desafio. A exportação exige um planejamento para 30, 60 ou 90 dias. Num cenário como o atual, de grande oscilação, os empresários estão assumindo riscos muito grandes.”

Nos anos de real valorizado, entre 2% e 3% do faturamento da Cedro vinha da exportação. Com a desvalorização do real, a companhia projetou um aumento dessa fatia para 10% em 2016, e chegou a sonhar com 15%. “O volume de 10% já foi alcançado no primeiro semestre. Eu até pensei que essa projeção fosse um pouco tímida e cheguei a projetar 15%”, afirma o empresário. “Agora, ela fica em suspenso. A fatia que já alcançamos pode ser considerada um bom patamar.”

Risco de perdas. Na Fakini Malhas, todas as vendas feitas com um câmbio inferior a R$ 3,50 estão representando uma perda de rentabilidade para a empresa. “Para o segundo semestre, as propostas para o mercado internacional foram feitas com um câmbio na casa dos R$ 3,50. Nesse momento, se fecharmos algum negócio, vamos levar um prejuízo”, afirma Francis Giorgio Fachini, diretor comercial da empresa. “Como o volume de exportação não é tão expressivo para comprometer o nosso negócio, nós conseguimos administrar essa redução de margem momentânea.”

Na avaliação de André Leone Mitidieri, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), o atual patamar do dólar já prejudica as exportações brasileiras. “Para reduzir os estoques acumulados, a indústria conseguia baixar o preço em dólar por causa da taxa de câmbio desvalorizada”, afirma Mitidieri. “Com essa valorização recente, a margem do início do ano pode ter sido perdida.”

Por ora, é difícil identificar qual é novo patamar do câmbio. Há uma conjunção de fatores internos e externos que colaboram para a valorização do real.

No cenário internacional, a decisão do Reino Unido em deixar a União Europeia deve prejudicar o crescimento mundial, o que vai obrigar os principais bancos centrais do mundo a adotarem uma política expansionista.

A movimentação dos principais bancos centrais indica que haverá mais dinheiro circulando em busca de altos retornos. Como o novo presidente do Banco Central do Brasil, Ilan Goldfajn, sinalizou na semana passada que a taxa básica de juros (Selic) deve permanecer em 14,25% por um período mais longo do que se imaginava, a economia brasileira se tornou uma exceção num mundo cujo juro é baixo ou até mesmo negativo.

Todo esse contexto ainda é influenciado pela avaliação do mercado de que a atual equipe econômica deve pôr em curso o ajuste fiscal. “O Brasil oferece um retorno muito alto e tem uma situação doméstica que traz alguma esperança”, diz Alberto Ramos, diretor do Grupo de Pesquisas Econômicas para América Latina do Goldman Sachs.

A queda do dólar ainda ajuda o BC numa batalha crucial, a de reduzir a inflação e colocá-la na meta de 4,5% em 2017.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.