Urs Flueeler//AP
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Depois de 69 anos, Suíça abre caminho entre Norte e Sul da Europa

Maior túnel do mundo será inaugurado nesta quarta-feira, com investimentos de US$ 12 bilhões e dimensão diplomática

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2016 | 16h50

GENEBRA - Uma das maiores obras de engenharia civil do mundo será inaugurada nesta quarta-feira, 1º, na Suíça, encurtando o caminho entre o Norte e o Sul da Europa. O maior e mais profundo túnel ferroviário do mundo será aberto sob os Alpes, completando uma obra que custou US$ 12 bilhões e que foi originalmente concebida há 69 anos. 

O túnel do Gotardo é um plano central da estratégia da Suíça de preservar o meio ambiente nos Alpes, transferindo todo o transporte de mercadorias das estradas para os trens, numa das rotas mais intensas entre o porto de Roterdam e o Sul do continente, ligando com o porto de Gênova. 

Mas para isso, os engenheiros tiveram de abrir um túnel que supera o de Seikan no Japão, com 53,9 quilômetros, e o do Canal da Mancha, com 50,5 quilômetros. Para atravessar os Alpes em 57 quilômetros, foram necessários 2,4 mil operários e 15 anos de escavação.

A velha linha ferroviária do Gotardo abriu em 1882 e logo se transformou em uma das principais rotas de comércio da Europa. Hoje, 26 milhões de toneladas de mercadorias são transportadas pelos Alpes. 

O projeto é muito mais antigo que a própria construção da UE. Em 1947, o engenheiro suíço Carl Gruner  apresentou a ideia e apontou que ele poderia ser realizado até o ano 2000. Ele errou em apenas 16 anos.

Em 1963, uma comissão foi criada para começar a estudar as diversas opções e, numa votação em 1992, a população deu o sinal verde para as obras que seriam iniciadas em 1995. A escavação em sí teria começo apenas em 2002, tanto da parte Norte quanto Sul. Depois de remover 28 milhões de toneladas de pedras, os túneis foram completados em março de 2011.

Desde então, o trabalho se concentrou em colocar os trilhos, equipamentos de segurança e toda a infra-estrutura para equipar dois túneis paralelos, separados por apenas 40 metros. Essa estrutura permite que trens possam circular simultaneamente em ambas as direções. Além disso, o plano inclui quatro outros túneis de segurança. 

Os trens que sairão da cidade de Erstfeld, no cantão de Uri, até a cidade de Bodio, no Ticino, transportarão 40 milhões de toneladas por ano de bens. Para os passageiros, isso reduz em 45 minutos o trajeto entre Zurique e Lugano. Com redução de custos para o transporte de bens, os suíços esperam trazer ganhos reais para a competitividade europeia. 

Diplomacia. Mas o túnel também tem um objetivo político. Fora da UE, a Suíça quer dar uma prova aos líderes europeus que está disposta a avançar nas relações com Bruxelas e a presença de Angela Merkel, François Hollande e Matteo Renzi no evento de hoje é um sinal de que o país no centro da Europa pode ter um papel na integração. " Esse pode ser um bom momento para debater os desafios na relação entre a Suíça e a Europa", declarou Didier Burkhalter, ministro de Relações Exteriores em Berna. 

Nos últimos anos, a Suíça tem retardado uma série de acordos com a UE, principalmente no que se refere à imigração e ao fluxo de pessoas.

Em 1992, a população suíça rejeitou em uma votação entrar na UE. No lugar da adesão, o país negociou uma série de acordos com o bloco e, na prática, harmonizou muitas de suas leis com as de Bruxelas. 

Mas a relação entrou em uma fase crítica em 2014, quando a população aprovou outra decisão para frear o livre fluxo de pessoas e estabelecer cotas até mesmo para europeus. Em resposta, Bruxelas ameaça agora frear uma série de entendimentos comerciais e Berna espera relançar o debate. 

Para políticos suíços, o fato de o país ter pago sozinho a construção da nova obra de infra-estrutura pela Europa poderia ser um trunfo para convencer Bruxelas a não penalizar a economia alpina. 

Para o evento, 1,2 mil convidados de todo o mundo estarão aos pés dos Alpes e apenas para a festa e promoção foram gastos US$ 20 milhões. Ainda assim, num gesto de desagrado, a liderança da Comissão Europeia deixou claro que não vai à inauguração de uma das maiores obras do século.

 

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