Brendan Smialowski /AFP
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Depois de apenas 86 dias, Bolsonaro parece já estar em apuros

O presidente despencou nas pesquisas de opinião e antagonizou os principais aliados, ao mesmo tempo em que seu gabinete é atormentado por intrigas e lutas internas

Raymond Colitt e Simone Iglesias, Bloomberg

27 de março de 2019 | 18h29

Três meses passados do mandato do presidente Jair Bolsonaro, eleitores, investidores e alguns de seus partidários estão começando a duvidar se ele pode cumprir as promessas de impulsionar a economia e reprimir o crime. Às vezes, seu governo até parece que pode perder o controle.

O ex-capitão do Exército, de 64 anos, despencou nas pesquisas de opinião e antagonizou os principais aliados, ao mesmo tempo em que seu gabinete é atormentado por intrigas e lutas internas. Enquanto isso, seu apoio a uma reforma da previdência parece mais incerto do que nunca, aumentando o risco de novos aumentos da dívida e de rebaixamentos do rating de crédito soberano.

“O governo não tem base de apoio para aprovar reformas”, disse Thomas Traumann, consultor de comunicações do Rio de Janeiro, que assessorou o ex-presidentes e ministros. “No ritmo atual, não haverá reformas, a menos que o governo mude radicalmente sua atitude em relação ao Congresso.”

A assessoria de imprensa de Bolsonaro não respondeu aos pedidos de comentários sobre essa matéria. Em um sinal de otimismo, o real caiu mais de 3% este mês, enquanto a bolsa de valores Ibovespa caiu 4,7% em relação às altas recentes. Segundo pesquisa com 122 investidores institucionais publicada pela XP Investimentos no início deste mês, as ações podem cair cerca de 20% se a reforma previdenciária parar. Uma pesquisa de opinião divulgada na semana passada mostrou uma queda de 16% em apoio ao estilo de governo de Bolsonaro.

Depois de anos de recessão, escândalos de corrupção e tumultos políticos, a mera ideia de reformas econômicas e o governo vacilante desencadeiam o pânico entre os líderes empresariais. “Se não aprovarmos o projeto de lei da previdência, não haverá investimento, o Brasil irá à falência e o desemprego voltará”, disse Luciano Hang, dono da rede de lojas de departamentos Havan. “As pessoas não serão enganadas por políticos.”

Grande parte do desgosto dos investidores que acreditam no ministro da Economia de Bolsonaro, o defensor do mercado, Paulo Guedes, muitos dos problemas do governo não têm como origem a oposição, mas suas próprias fileiras. Os membros do gabinete disputam abertamente pelo poder; ideólogos de extrema-direita entram em conflito com os moderados e o próprio presidente age como se ainda estivesse em campanha, mobilizando sua base de apoio e irritando a oposição com tuítes e vídeos provocativos.

Uma fonte de atrito são os filhos de Bolsonaro, que sugerem políticas, nomeiam funcionários e publicamente confrontam membros do gabinete, apesar de não terem nenhum papel oficial no governo. Carlos, que é o segundo de quatro filhos e dirigiu a campanha de mídia social de seu pai, colocou vários “confidentes” dentro da assessoria de imprensa do presidente para ficar de olho na cobertura dos meios de comunicação.

Sua presença levou o secretário de imprensa a renunciar este mês, segundo alto funcionário com conhecimento direto de sua decisão. Foi também um tuíte crítico de Carlos que aborreceu o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, o que o levou a dizer à TV Globo no final da semana passada que o presidente “precisa gastar mais tempo com a reforma previdenciária e menos com o Twitter”. Como as coisas estão, o projeto não seria aprovado, disse Maia.

Alguns dos defensores de Bolsonaro dizem que é uma nova maneira de fazer política, mas os críticos argumentam que é falta de liderança, e que os políticos de qualquer filiação ainda precisam negociar para que as coisas sejam feitas. “O que Bolsonaro precisa fazer é descer do palanque, ele precisa mostrar quem está no comando, em casa e no governo”, disse Simone Tebet, presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

Com certeza, alguns investidores estão dando um desconto à turbulência dos primeiros meses do governo e continuam otimistas com o que o presidente pode oferecer. A maioria acredita que uma lei para a previdência ainda será aprovada, embora mais tarde e mais diluída do que se esperava anteriormente.

“Estávamos antecipando a volatilidade no processo de negociação”, disse Shamaila Khan, diretor de dívida de mercados emergentes da AllianceBernstein. “O processo de reforma será apoiado pela opinião pública e pelos ainda elevados índices de aprovação de Bolsonaro”.

Para a base de apoio do presidente, o a situação contra ele é em grande parte uma invenção dos meios de comunicação. A imprensa é um alvo regular da ira de Bolsonaro. “Nosso presidente está sofrendo por causa da mídia, mas eu ainda confio nele”, disse Sibelli Marcolina, advogada do Paraná.

Desde que Carlos Bolsonaro e seu ministro da Justiça, Sergio Moro, se confrontaram publicamente na semana passada com Maia, autoridades do governo tentaram acalmar as tensões e tranquilizar os investidores. Moro disse que o impasse foi superado e que o vice-presidente Hamilton Mourão tem pedido mais diálogo entre os membros do gabinete.

“Os pontos fundamentais são clareza em nossos objetivos, determinação para alcançá-los e paciência para o melhor diálogo”, disse o general da reserva à Bloomberg News em mensagem de texto. No entanto, não é a primeira vez que o governo promete mais coesão e harmonia. Na verdade, esta terça-feira pouco ajudou para convencer os céticos.

Os investidores ficaram estupefatos quando Guedes cancelou uma audiência sobre a reforma previdenciária, onde ele corre o risco de sofrer críticas da oposição. Ao mesmo tempo, Bolsonaro fez uma escapada não programada para ir com sua esposa ao cinema. Líderes contrariados do Congresso impuseram uma das maiores derrotas em qualquer governo, ao votar a favor de novas restrições orçamentárias.

Os editoriais dos três principais jornais do país criticaram Bolsonaro pelo recente tumulto político e questionaram sua capacidade de cumprir seus deveres presidenciais. “O que ele mostrou até agora é que teremos 3 anos e 9 meses de mais turbulência”, disse Traumann, que assessorou o ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. /TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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