Fabio Motta/Estadão - 7/7/2015
Fabio Motta/Estadão - 7/7/2015

Depois de atingir preço recorde, minério de ferro tem tendência de queda, apontam especialistas

Matéria-prima bateu os US$ 130 por tonelada este ano, mas nesta segunda, pela primeira vez desde agosto, ficou abaixo dos US$ 120

Mariana Durão e Matheus Piovesana, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2020 | 14h29

RIO e SÃO PAULO - A demanda chinesa por minério de ferro no pós-pandemia segue resiliente, mas a expectativa de entrada de novas capacidades no mercado aliada à estabilização do consumo sugerem o fim do rali de preços em 2021. Embalada pelo déficit entre oferta e demanda, a matéria-prima bateu os US$ 130 por tonelada este ano, mas tende a desacelerar.

Protagonista da curva de alta desde a tragédia de Brumadinho, a Vale reforçou na semana passada o foco em chegar aos 400 milhões de toneladas em capacidade até 2022 e, no futuro, ao patamar de 450 milhões de toneladas. A BHP Billiton também jogará mais minério no mercado a partir do ano que vem, com o projeto Flanco Sul. O movimento começa a ser precificado, embora de forma gradual.

De 2 de janeiro até agora, o preço do minério negociado no porto de Qingdao, na China, referência para o mercado mundial, acumula alta superior a 36%. Mas apesar de ter atingido um pico de US$ 130,17 na segunda, 14, o produto encerrou a semana em queda de 2,7%.

Desde o início de setembro, o preço está praticamente estável, com a percepção de que a relação entre oferta e demanda está cada vez menos apertada. O patamar atual parece ser o teto dos preços, e para analistas, surgem sinais de que tendência até o final do ano é de baixa superior a dois dígitos porcentuais.

Nesta segunda-feira, 21, o preço do minério de ferro negociado em Qingdao teve queda de 4,07%, a US$ 119,82 a tonelada. É a primeira vez desde o início de agosto que os preços ficam abaixo de US$ 120 a tonelada.

A consultoria britânica Capital Economics calcula um aumento de 4,4% na produção da commodity em 2021. Após um déficit entre oferta e demanda ainda mais profundo em 2020 que em 2019, prevê que o mercado transoceânico ficará superavitário no ano que vem. Isso significará recomposição de estoques e pressão sobre os preços. Ao mesmo tempo, a demanda global deve permanecer estável. Com isso, "o preço do minério de ferro cairá drasticamente de US$ 110 por tonelada ao fim de 2020 para US$ 80 por tonelada no final de 2021", escreve o economista Samuel Burman.

A forte demanda por parte da China no pós-coronavírus foi a alavanca dos preços. A partir do início de julho, a commodity ficou acima dos US$ 100 em todas as sessões, e bateu em US$ 130 no último dia 14. Isso porque ao mesmo tempo em que o governo chinês lançou um arsenal de estímulos à economia local, entre eles grandes projetos de construção, a demanda começou a sofrer restrições. Mesmo com o mercado redirecionando minério de países com demanda mais fraca à China, a necessidade local foi o suficiente para sustentar os preços.

Em julho, de acordo com os dados mais recentes da World Steel Association, as siderúrgicas mundiais produziram 2,5% menos aço do que um ano antes. O desempenho foi ajudado pela China, onde a produção subiu 9,1% na mesma comparação. Em outros importantes produtores, o cenário foi outro: no Japão, houve queda de 27,9%. Nos Estados Unidos, de 29,4%.

Ao mesmo tempo, a China recebeu menos minério do Brasil. O País teve a produção afetada entre janeiro a março pelo maior volume de chuvas em importantes sistemas de extração. As exportações brasileiras de minério à China foram 5,5% menores do que no mesmo intervalo de 2019, afetadas pela tragédia de Brumadinho, que reduziu a produção mineral nacional. A curva é semelhante nas exportações a todo o mundo.

Esse cenário, porém, começa a mudar. Em um fenômeno comum em termos sazonais, o suprimento brasileiro à China subiu mês a mês entre junho e agosto. O movimento vai de encontro a percepções de que o apetite chinês pelo material pode estar próximo a um limite, mesmo com a demanda ainda forte. Ao mesmo tempo, a demanda no restante do mundo ainda é fraca, e a capacidade chinesa de absorver esse volume é limitada.

"A China representa dois terços do mercado de minério, e o outro terço ainda joga a demanda para baixo", explica Daniel Sasson, analista de mineração e siderurgia no Itaú BBA. "A China, sozinha, compensa essa fraqueza no resto do mundo. A grande dúvida é até quando a produção chinesa de aço se sustenta."

400 milhões ou mais

Os movimentos da Vale ajudam a entender a formação dos preços. Em encontro com analistas na quarta, 16, a mineradora sinalizou que pretende elevar sua capacidade de produção a 400 milhões de toneladas até 2022 e a 450 milhões de toneladas "no futuro" - que, para bancos como o Credit Suisse, será em 2024.

A Vale é uma das maiores produtoras do insumo no mundo, próxima a nomes como as anglo-australianas Rio Tinto e BHP. Além disso, o minério que produz em operações como o projeto S11D, no Pará, tem maior concentração de ferro e pureza, e por isso, costuma ser negociado a prêmio em relação à média do mercado. Sua importância é visível na curva de preços. Em junho, quando o complexo de Itabira (MG) foi interditado pela justiça por causa da covid-19, os preços deram um salto.

A previsão de maior oferta de minério por um ator relevante entra nos modelos dos bancos de investimento, que já alertam os investidores para uma correção de preços. O Bradesco BBI, por exemplo, vê a tonelada do insumo negociada a US$ 70 já no próximo ano, ou 30% a menos do que o preço estimado para o final de 2020. O Goldman Sachs vê uma menor correção, mas ainda assim, estima uma média de US$ 90 a tonelada, menor que os preços atuais. Já a equipe de Equity Research do Santander projeta um preço médio do minério de US$ 95 por tonelada em 2021, ante US$ 103 neste ano.

"O minério está num patamar muito alto e deve começar a cair, mas isso será gradual. O preço médio segue robusto", diz o analista Rafael Barcellos. Ele calcula que a Vale terminará o ano com produção abaixo da faixa mínima de 310 milhões de toneladas anuais de seu guidance e só ultrapassará os níveis pré-Brumadinho - 385 milhões de toneladas - em 2023. Ou seja, acredita em um aumento de oferta menos abrupto pela companhia.

O recuo do preço do minério, entretanto, não é necessariamente um dado negativo para um player como a Vale. O analista Ilan Arbetman, da Ativa Investimentos, diz que o patamar atual de preço dificulta a estratégia da mineradora brasileira de diferenciação pela venda de produtos premium. A fatia desse tipo de produto nas vendas da mineradora no segundo trimestre caiu para 83%, ante 87% no primeiro trimestre.

"Quando o minério está mais caro, a probabilidade de uma siderúrgica, que já teve sua demanda afetada pela pandemia, optar por um produto premium fica mais baixa. As produtoras de aço abrem mão de produtividade", explica Arbetman, para quem um preço da matéria-prima na faixa dos US$ 80 a US$ 90 por tonelada, ainda alto, geraria maior demanda e prêmios por esse minério premium, resultando em melhores margens. / COLABOROU CÍCERO COTRIM

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