Fábio Motta/Estadão
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Sob protestos de minoritários, Vale vai dobrar remuneração de diretores em 2020

Orçamento previsto para os executivos este ano chega a R$ 170,3 milhões; no ano passado foi de R$ 85,4 milhões

Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2020 | 13h04

RIO - A Vale vai dobrar a remuneração de sua diretoria executiva em 2020. A matéria foi aprovada nesta quinta-feira, 30, por maioria em Assembleia-Geral Ordinária, sob protestos de alguns acionistas minoritários. O orçamento previsto para pagar a diretoria é de R$ 170,3 milhões, o que levará a remuneração ao mesmo patamar de 2018. No ano passado a mineradora reduziu esse valor a R$ 85,4 milhões após a tragédia com a barragem de Brumadinho (MG), que resultou em 270 mortes.

Se forem incluídos na conta o Conselho de Administração, o conselho fiscal e comitês, o orçamento da mineradora para remuneração de administradores neste ano chega a R$ 201,7 milhões, alta de 78,4% frente a 2019 e também superior aos R$ R$ 177,5 milhões pagos em 2018, ano anterior ao desastre com a barragem.

No manual da assembleia a companhia justificou esse incremento informando que há um aumento esperado do número de diretores, com previsão de bônus de contratação. Além disso, a remuneração variável de 2020 vai incluir uma fatia do montante suspenso em 2019 após a tragédia em Minas Gerais. O montante também inclui pagamentos pendentes de rescisões de executivos já desligados.

Na primeira reunião de acionistas inteiramente virtual realizada pela mineradora em função das restrições impostas pela pandemia do novo coronavírus, minoritários pediram para se manifestar por áudio. Funcionário da empresa, Bruno Teixeira disse que esse aumento é “um tapa na cara dos trabalhadores de base”.

“Demonstro meu receio de que essa medida possa vir a comprometer outros investimentos da companhia”, disse Carolina de  Moura, moradora de Brumadinho, ativista e acionista da companhia. Ela mencionou os aportes em segurança de barragens e pagamento de reparação aos atingidos.

Outros acionistas votaram contra o aumento aos administradores lembrando que o cenário é de muita incerteza econômica e que esse compromisso poderia descapitalizar a Vale em um momento crítico. Apesar disso, a proposta foi aprovada por maioria.

Atualmente a Vale tem seis diretores estatutários, o que inclui o presidente da companhia, Eduardo Bartolomeo. De acordo com a empresa, a vaga de diretor estatutário de metais básicos - hoje ocupada interinamente por Mark Travers - tem seu preenchimento previsto para 2020, o que foi levado em conta no cálculo. A remuneração fixa total - salário e benefícios - para toda a diretoria executiva da companhia é estimada em R$ 40,2 milhões no ano.

No ano passado, como parte da resposta à crise de imagem gerada pela tragédia em Brumadinho, o Conselho de Administração da Vale decidiu suspender a remuneração variável dos executivos. Com isso, o montante pago a título de remuneração variável foi cerca de 65% menor que em 2018 e 2017.

À medida que a empresa avançou com as reparações aos atingidos, os pagamentos foram retomados para executivos que não estão envolvidos nas investigações sobre o rompimento da barragem. Em 2020 a proposta de remuneração variável é de R$ 130,2 milhões.

Remuneração variável

O pacote de remuneração variável inclui bônus anual (33% da remuneração dos diretores), programa de correspondência/matching (23%) e plano de ações virtuais - PAV (11%) - vinculado ao desempenho da companhia frente a seus pares no mundo.

Pela proposta aprovada nesta quinta-feira, a partir de 2020 a Vale passa a atrelar 20% da remuneração variável de longo prazo (o PAV) de seus diretores estatutários a metas de saúde e segurança (10%) e de sustentabilidade (10%). O objetivo é demonstrar o compromisso com o desenvolvimento sustentável e respeito a critérios ambiental, social e de governança (ASG).

Na remuneração variável de curto prazo (bônus anual) da Vale essa fatia ASG é de 30%, chegando a um total de 12% da remuneração da administração ligada a métricas sócio-ambientais e de governança.

A mineradora também vai adotar a chamada regra malus, que permite que o Conselho de Administração possa reduzir a remuneração variável dos executivos em condições excepcionais. Esse rol inclui a prática de fraude pelo executivo, eventos catastróficos ambientais ou de saúde/segurança que afetem reputação da empresa e eventos extraordinários que tenham impacto negativo no valor de mercado da Vale.

Assembleia virtual

A primeira assembleia de acionistas 100% virtual da Vale transcorreu sem contratempos técnicos. A mineradora abriu espaço para várias manifestações de acionistas minoritários por áudio. O diretor executivo de Finanças e Relações com Investidores da Vale, Luciano Siani, respondeu a uma série de questionamentos, auxiliado por outros executivos.

Em alguns casos acionistas extrapolaram seu tempo de três minutos para manifestação por pauta mas, ainda assim, o conclave foi realizado nas três horas previstas (de 10h às 13h).

Apesar de fortes cobranças sobre a atuação da empresa em pontos como barragens, reparação de danos às vítimas de Brumadinho e o reassentamento da comunidade próxima ao projeto de carvão Moatize, em Moçambique, minoritários elogiaram a organização da assembleia digital pela companhia. A Vale prometeu responder as questões pendentes por escrito.  

A pauta da assembleia de acionistas incluiu ainda a votação das demonstrações financeiras de 2019, eleição de indicados ao conselho de administração e fiscal, aprovação de alterações e consolidação do estatuto social da Vale e da incorporação das subsidiárias integrais da companhia. Todos os itens foram aprovados por maioria.

Conselho

Os acionistas da Vale aprovaram por maioria a chapa indicada pelos controladores à eleição do Conselho de Administração da mineradora. Todos os nomes já eram membros efetivos ou suplentes do órgão eleitos em abril de 2019, com mandato de dois anos.

A eleição antecipada em 2020 decorreu de renúncia de Marcio Hamilton Ferreira e Marcelo Labuto a suas cadeiras, em dezembro passado. Ambos haviam sido eleitos pelo voto múltiplo, o que tornou necessária uma nova deliberação para todas as 12 vagas eleitas pelo mesmo regime.

Os nomes aprovados foram José Maurício Pereira Coelho (presidente da Previ), Fernando Jorge Buso Gomes (diretor da Bradespar), Toshiya Asahi (Mitsui), Marcel Barros (Previ), José Luciano Penido, Oscar Camargo (consultor), Eduardo Rodrigues (consultor), Murilo Passos e Roger Downey, ambos indicados para suprir as cadeiras abertas pela renúncia no fim do ano passado.

Também seguem no conselho como membros independentes as especialistas em governança corporativa Isabella Saboya e Sandra Guerra, além de Marcelo Gasparino, antes suplente. O representante dos empregados da Vale, Lucio Azevedo, permanece na vaga. Como foi eleito por voto em separado em 2019, seu mandato seguiu normalmente até abril de 2021.

As reuniões de acionistas 100% virtuais acabam de ser regulamentadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em resposta à crise gerada pela Covid-19, que trouxe dúvidas à temporada de assembleias 2020, diante das medidas de isolamento social necessárias à não disseminação do novo coronavírus.

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