Depois de dobrar preço do minério em abril, Vale terá novo aumento de 35%

Com novo reajuste, previsão é que Vale dobre o faturamento este ano; siderúrgicas já se preparam para repassar o aumento de custos

David Friedlander, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2010 | 00h00

Três meses depois de dobrar o preço do minério de ferro, a Vale vai aplicar um novo reajuste na praça. Será um aumento médio na casa dos 35%, segundo apurou o "Estado". O novo preço passa a vigorar em 1.º de julho, seguindo a política de revisão trimestral de preços adotada este ano pela mineradora. Segundo analistas, o faturamento da Vale deve dobrar, fechando o ano em mais de US$ 40 bilhões.

Um quinto de todo o aço produzido no mundo é feito com minério da Vale. Por isso, a decisão da empresa é aguardada com ansiedade. Mesmo sem saber o tamanho do aumento, as grandes siderúrgicas já falavam em repassar o reajuste para seus clientes (leia abaixo).

Procurada, a mineradora não quis falar sobre números, mas explicou as razões do reajuste. "Neste segundo trimestre nossos preços ficaram bem abaixo dos preços praticados no mercado à vista da China. Pela atual fórmula de correção, nossa expectativa é recuperar grande parte dessa defasagem no próximo trimestre que começa em julho", afirmou José Carlos Martins, diretor executivo da Vale.

Na prática, a mineradora está correndo atrás dos preços praticados na China, que dispararam este ano. No mês passado, quando a cotação do minério de ferro no mercado chinês bateu em US$ 189,50 a tonelada, a mineradora brasileira vendia seu produto por cerca de US$ 110 - preço fixado por ela para o trimestre de abril a junho. Agora, a empresa quer tirar a diferença.

"O reajuste trimestral é mais justo", afirma Martins. "Até então, os contratos definiam um valor anual e ele não mudava mesmo que o preço no mercado disparasse. Agora, se a cotação do mercado subir, a gente aumenta. Se cair, a gente baixa." O tamanho exato desse próximo reajuste será definido na terça-feira, depois do fechamento do trimestre março/maio. Mas o índice de correção não vai ser divulgado - ele será aplicado automaticamente nos contratos da mineradora.

Recorde. Beneficiadas pela demanda vigorosa da China, as grandes mineradoras nunca ganharam tanto dinheiro. A partir de julho, o preço do minério da Vale sobe de US$ 110 para algo entre US$ 140 e US$ 145 a tonelada. Para se ter uma ideia do que isso significa, antes da crise global que explodiu em setembro de 2008, quando o mundo vivia um boom econômico, a Vale vendia cada tonelada por US$ 80.

"A produção de aço na China aumentou quase dez vezes, mas o país precisa importar minério porque o deles tem baixa qualidade e alto custo. Os grandes beneficiários desse movimento são as mineradoras do Brasil e da Austrália", afirma Claudio Pitchon, diretor executivo do Banco WestLB, responsável pelos setores de mineração e metais na America Latina.

Em razão desse cenário, os analistas projetam resultados animadores para a Vale este ano. Segundo o banco HSBC, o faturamento da mineradora deve crescer de US$ 23,3 bilhões no ano passado para US$ 40 bilhões este ano. Para o Goldman Sachs, o faturamento da Vale deve chegar perto dos US$ 48 bilhões.

Impacto. Os movimentos da Vale produzem impactos fortes também na economia. De um lado, o reajuste no preço do minério de ferro vai para o aço e de lá para produtos de consumo como carros e eletrodomésticos.

O aumento do minério no começo do ano foi apontado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) como um dos principais responsáveis pela alta do Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M), que subiu 1,19% em maio em relação a abril. O reflexo do aumento do minério na inflação foi usado pelas siderúrgicas, meses atrás, na queda de braço contra o primeiro reajuste da Vale.

Na ocasião, para rebater esses argumentos, a mineradora criticou as siderúrgicas dizendo que, quando o preço do minério despencou, durante a crise, os preços do aço não caíram na mesma proporção. Na opinião da Vale, portanto, o setor teria condições de absorver a alta.

Mas a puxada nos preços da Vale também tem impacto positivo nas contas públicas, especialmente na balança comercial do País. De 2005 para cá, a participação da mineradora nas exportações brasileiras cresceu de 5,9% para 11% no primeiro trimestre do ano.

De janeiro a março deste ano - ante, portanto, do reajuste de 100% de abril -, a Vale exportou o equivalente a US$ 4,5 bilhões. Se as exportações da mineradora fossem expurgadas do cálculo da balança comercial, em vez de um superávit de R$ 890 milhões no primeiro trimestre o País teria um déficit de aproximadamente R$ 3,6 bilhões.

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