Depois de febre, tecnologia 3D entra em declínio

Fechamento do canal 3D da ESPN nos EUA é sinal de que o formato em três dimensões não pegou entre os consumidores

BRIAN STELTER , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2013 | 02h23

Cinco anos atrás, a tecnologia 3D era saudada como o próximo fenômeno da televisão, sucessora da alta definição. Mas os espectadores não entraram na onda e hoje o formato é visto como um fiasco muito caro.

Esta impressão ficou consolidada na semana passada quando a ESPN, maior rede esportiva do país e que adotou a tecnologia 3D logo no início, anunciou estar fechando seu canal que transmite programas em terceira dimensão nos Estados Unidos, criado há três anos. Um porta-voz da emissora disse que a decisão se deve "à adoção limitada pelo consumidor dos serviços 3D".

A notícia desencadeou o debate quanto a se alguém ainda iria ver alguma coisa em 3D ou se outro tipo de conteúdo será colocado à disposição. "Muita gente do setor afirmava pelos últimos cinco anos que, se a ESPN encerrasse as atividades do seu canal 3D, seria o capítulo final do formato", disse Phillip Swann, editor do site TVPredictions. "Hoje é difícil negar essa declaração."

O único grande canal 3D, chamado 3net, empreendimento conjunto da Discovery Communications, Sony e Imax, não se mostrou desencorajado pela decisão da ESPN. Mas o canal passou por dificuldades e um porta-voz da Discovery declarou que o canal "é o equivalente à nossa área de Pesquisa e Desenvolvimento", o que não é um discurso entusiasmado.

O formato é mais consistente no cinema, mas somente 36 filmes foram lançados com a tecnologia 3D no ano passado, uma queda de 20% em relação ao pico de 2011, de acordo com a Motion Picture Association of American, que representa o setor. No geral a receita arrecadada nas bilheterias foi apática.

Oferta. Quando as fabricantes de TVs começaram a comercializar vigorosamente a tecnologia 3D em 2010 - impulsionadas pelo filme Avatar, de dezembro de 2009, e pelas ideias fantásticas sobre como o público se sentiria envolvido num evento esportivo ou em um filme de ação -, os céticos previram que a demanda do consumidor seria pequena. E acertaram.

Os consumidores em geral rejeitaram os óculos necessários para assistir à qualquer coisa em terceira dimensão e concluíram que o formato não era tão envolvente como prometido.

Mas redes pioneiras como a ESPN, controlada pela Walt Disney, aprenderam sobre o que funcionou e não funcionou na produção de conteúdo em 3D. Nos estádios, por exemplo, a imagem de câmeras 3D tinha de ser mais fechada no campo do que com câmeras tradicionais.

A ESPN transmitiu 380 eventos esportivos em terceira dimensão, mas o canal jamais cresceu o suficiente para ser computado pela Nielsen, que mede a audiência nos EUA. A empresa de pesquisa SNL Kagan estimou recentemente que o número de assinantes estava "bem abaixo de um milhão".

Amy Phillips, porta-voz da ESPN, afirmou que "apesar de não sermos considerados o canal mais popular, sabemos que alguns eventos eram favoritos dos fãs". Algumas disputas da Olimpíada foram transmitidas em 3D no ano passado. A NBC Universal não informou se repetirá a dose durante a Olimpíada de Inverno, que ocorre em fevereiro em Sochi, na Rússia.

Demanda baixa. Segundo Carolina Milanesi, vice-presidente de pesquisa da consultoria Gartner, o formato 3D padeceu. "O conteúdo não foi criado por causa da baixa adoção dos aparelhos, e os consumidores não compraram esses televisores por falta de conteúdo convincente", disse.

Embora muitas TVs de tela grande tenham sido lançadas com a capacidade 3D e óculos especiais, muitas famílias raramente usam esses acessórios. "Nossa família está nessa categoria", disse Milanesi.

Dados do NPD Group, sugerem que as vendas de TVs 3D têm sido melhores no exterior, o que é importante para a 3net. "Em alguns mercados na Ásia e Europa, onde existe mais interesse, estamos fazendo negócios com conteúdo 3D", disse David C. Leavy, porta-voz do canal Discovery.

A ESPN também deixou a porta aberta para uma nova programação em 3D. "Transmissões em terceira dimensão de qualidade exigem habilidades específicas da produção - e temos mais experiência nessa área do que qualquer outro canal", disse Amy Phillips. "Se a preferência do consumidor decolar nos próximos anos, temos o conhecimento e a experiência para expandir a atividade." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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