Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Depois de novo recorde, Ibovespa fecha em queda nesta terça-feira

O sinal negativo foi definido ainda no início dos negócios; mínima ficou em 99.890,22 pontos

Simone Cavalcanti, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2019 | 11h41
Atualizado 25 de junho de 2019 | 18h21

A esperada realização de lucros no mercado de ações chegou com mais força que o previsto e o Ibovespa por pouco não fechou abaixo da marca dos 100 mil pontos nesta terça-feira. Depois de quatro altas consecutivas, o indicador cedeu ante uma série de fatores negativos, como a aversão ao risco no mercado externo e os novos ruídos no cenário político doméstico. Assim, terminou o dia aos 100.092,95 pontos, com queda de 1,93%. Os negócios somaram R$ 15,03 bilhões.

O sinal negativo foi definido ainda no início dos negócios, mas o noticiário ao longo do dia acelerou gradativamente as perdas, levando o Ibovespa à mínima de 99.890,22 pontos (-2,13%), às 15h30. O pior momento foi reflexo da notícia de que o STF analisaria nesta terça-feira proposta do ministro Gilmar Mendes de conceder liberdade ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva até a conclusão do processo em que o petista acusa o ex-juiz federal Sergio Moro de parcialidade no julgamento do caso do tríplex do Guarujá.

"O mercado vinha com sinais muito positivos para as ações, por conta da expectativa de cortes de juros aqui e no exterior. Mas a falta de notícias novas já indicava ausência de motivos para dar continuidade ao movimento de alta. Nesta terça-feira só houve motivos para incentivar incertezas. E todos negativos", disse Glauco Legat, analista da Necton Investimentos.

Segundo Legat, a questão em torno do ex-presidente Lula traz mais incerteza pois pode ser mais um empecilho no cenário político no momento em que se espera o avanço da reforma da Previdência. E a reforma da Previdência também foi motivo para estresse nos negócios. No início da tarde, o líder do PP na Câmara, Arthur Lira (AL) defendeu o adiamento da votação do relatório da reforma na comissão especial da Casa, sob o argumento da necessidade de ajustes no texto, uma vez que demandas de deputados ainda não foram atendidas no relatório.

"O mercado já esperava uma realização, mas ela veio muito forte, com referências negativas no Brasil e no exterior", disse Pedro Galdi, analista da Mirae. Nos Estados Unidos, também foram destaque os discursos do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, e do dirigente da regional de St. Louis, James Bullard, que vieram menos "dovish" que o esperado. Bullard disse considerar "exagero" cogitar um corte de 0,50 ponto nas taxas de juros americanas.

Mesmo com a queda desta terça-feira, o Ibovespa ainda acumula ganho de 3,16% em junho e de 13,89% no ano. Na última sexta-feira (21), o saldo líquido dos investimentos estrangeiros na Bolsa ficou negativo em R$ 347,916 milhões da B3 na última sexta-feira, dia 21. Com isso, o saldo acumulado em junho, que ficou positivo por dois dias, voltou a indicar saída de recursos, num total de R$ 48,789 milhões.

As ações da Petrobras foram destaque de queda, com perdas de 3,03% (ON) e de 2,62% (PN). Além da realização de lucros (os papéis acumulam ganhos superiores a 7% em junho), as ações repercutiram questões corporativas, como a abertura do mercado de gás natural. "A medida (abertura) é positiva para o País, mas negativa para a empresa, que vai levantar recursos, mas perderá o domínio", diz Legat, da Necton.

Dólar

O mercado de câmbio teve uma terça-feira, 25, agitada, marcada pelo aumento da procura por dólares para envio ao exterior, preocupações com a votação da reforma da Previdência na comissão especial e com os rumos da política monetária dos Estados Unidos. Até o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem pedido de liberdade avaliado nesta terça-feira pelo Supremo Tribunal Federal (STF), voltou ao radar das mesas de operação. Com isso, o real foi uma das moedas que mais perdeu valor no mercado financeiro mundial, junto com o rublo, da Rússia. O Banco Central entrou no mercado, ofertando US$ 1 bilhão. Profissionais não descartam nova intervenção nos próximos dias, pois a demanda pela moeda americana deve seguir alta. O dólar à vista fechou em alta de 0,65%, a R$ 3,8520.

Até o início da tarde, os investidores estavam monitorando o exterior, e o dólar subia lá fora, mas um Twitter do líder do PP na Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), defendendo o adiamento da votação da Previdência na comissão especial provocou uma onda de ordens de compra de dólares e a moeda bateu máximas. Praticamente no mesmo horário da postagem de Lira, nos Estados Unidos, dirigentes do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) discursavam e o dólar acelerou a alta no mercado financeiro internacional.

Na avaliação do economista do banco canadense CIBC Capital Markets, Avery Shenfeld, eles sinalizaram que o corte de juros pode ser menos intenso do que se esperava. Para ele, o presidente do Fed, Jerome Powell, ao falar que a política monetária não deve reagir a eventos de curto prazo, sinalizou que não pretende cortar os juros além de 0,25 ponto.

Todas essas notícias externas e as domésticas, incluindo a do julgamento no STF que pode liberar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ocorreram em um dia de mercado à vista com liquidez escassa, por conta do aumento da demanda das empresas pela moeda americana, observa o responsável pela área de câmbio da Terra Investimentos, Vanei Nagem.

Desde o início dos negócios, operadores notaram que a demanda por dólar estava aumentando no mercado à vista. Uma das evidências é que as cotações deste segmento começaram a superar as do mercado futuro. Com isso, o dólar casado (a diferença entre as duas cotações) passou a operar no negativo.

Normalmente no fim do mês, o casado fica negativo, mas a intensidade desta terça-feira impressionou. O dólar à vista chegou a sair mais de um ponto acima do futuro. Junho é final de mês, trimestre e semestre, o que aumenta a demanda por empresas de dólares para remessas às matrizes de lucros e dividendos. Como reflexo, o Banco Central entrou com oferta de US$ 1 bilhão em leilão de linha (venda de dólar à vista com compromisso de recompra). "Era natural que o BC entrasse hoje, tem demanda, faltava liquidez", destaca o operador da CM Capital, Thiago Silêncio.

Profissionais de câmbio não descartam novos leilões de linha pelo BC nos próximos dias. "O mercado à vista ficou seco hoje e a tendência é que isso continue amanhã", disse um operador. As cotações do final do dia sinalizam para esta quarta-feira (26) um dólar à vista ainda mais caro que o futuro, observa Vanei, da Terra Investimentos. "A chance é grande de novo leilão." Profissionais ressaltam ainda que na sexta-feira tem a definição da taxa Ptax do mês, referencial para os contratos de câmbio, e o mercado de câmbio pode se sustentar na alta, caso os comprados levem a melhor na disputa pela formação da taxa.

Outro movimento que ganhou intensidade nos últimos dias foi o desmonte de posições compradas (que ganham com a alta do dólar) no mercado futuro pelos investidores estrangeiros. Só ontem eles reduziram essas posições em US$ 1 bilhão, segundo dados da B3. O fato de ser final de período estimula esse movimento de zeragem de posições, ressalta um diretor de tesouraria, destacando que muitos agentes não querem começar o novo trimestre ou semestre muito carregado em determinada estratégia.

Com o noticiário agitado, o volume de negócios foi alto nesta terça-feira. No segmento à vista, o giro foi de US$ 2,2 bilhões, o dobro da média dos últimos dias. No mercado futuro, foram negociados US$ 20,8 bilhões até as 17h40. No mesmo horário, o dólar para julho subia 0,63%, a R$ 3,8490.

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