Daniel Teixeira/Estadão
Alta das projeções para o IPCA de 2021 vem na esteira do reajuste da bandeira vermelha pela Aneel. Daniel Teixeira/Estadão

Depois de reajuste de energia, mercado eleva projeção do IPCA de 2021 para até 6,71%

Mudança na projeção vem após a Aneel aumentar a tarifa da bandeira vermelha 2 de R$ 6,24 para R$ 9,49 a cada 100 quilowatt-hora consumidos

Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2021 | 17h11

O mercado elevou a projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2021, após o anúncio do reajuste da bandeira vermelha 2 pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) nesta terça-feira, 29. As estimativas ficaram entre 6%, na mínima, até 6,71% na máxima.

taxa extra cobrada pelo órgão passou de R$ 6,24 para R$ 9,49 a cada 100 quilowatt-hora (kWh) consumidos, um aumento de 52%. A XP já trabalhava com um avanço de cerca de 20%, a R$ 7,57. A diferença deve produzir um impacto adicional de 0,13 ponto porcentual na projeção de julho, que passou de 0,49% para 0,62%. A XP elevou sua projeção para o IPCA de 6,2% para 6,4% em 2021.

No Citi, a previsão subiu de 5,3% para 6,1%, puxada pelas tarifas de energia elétrica e alta de matérias primas e insumos. Já a LCA Consultores elevou sua estimativa para o IPCA de 2021 de 6,2% para 6,4%. O Banco ABC Brasil projeta impacto de 0,23 ponto percentual no índice em julho, segundo calcula o economista Daniel Lima. Como já esperava uma alta da bandeira, ele manteve a projeção de 2021 em 6,40%.

Existe também o risco de impactos indiretos provocados pelo reajuste. "Há pressão de bens industriais do atacado para o varejo que pode ficar mais pesada com a energia mais cara. Pode ter um efeito também nos preços de serviços, especialmente se a antecipação do calendário de vacinação aumentar a circulação das pessoas", explica o economista Fábio Romão, da LCA.

Segundo a Quantitas Asset, o aumento da bandeira vermelha 2 deve impactar em 0,22 ponto porcentual o IPCA de julho, estima o economista e sócio João Fernandes. Para 2021, ele manteve a previsão de 6,50% - acima do teto da meta de 5,25% definida pelo Banco Central.

JF Trust fez a estimativa mais alta, ao elevar a projeção para o IPCA em 2021 de 6,32% para 6,71%. O economista-chefe, Eduardo Velho, avaliou a decisão da Aneel como positiva. "Não adia o reajuste para 2022", diz. Já o Asa Investiments manteve sua projeção de 6% para 2021, mas prevê impacto de 0,18 ponto porcentual no IPCA de julho, calcula o economista Leonardo França Costa. "Na nossa conta, impacta julho e fica o risco de nova alta para agosto ou setembro", diz.

A nova projeção para o IPCA de 2021 ainda tem viés de alta, pois a Aneel deve abrir nova consulta pública para revisar os parâmetros de cálculo das bandeiras. Em meio à crise hídrica histórica, técnicos da agência reguladora calculam que a tarifa cobrada com o acionamento da bandeira vermelha 2 - a mais cara do sistema - deveria ficar entre R$ 11,50 e R$ 12,00 para cobrir os custos com o acionamento das termelétricas no segundo semestre. 

Alívio em 2022

Por outro lado, o reajuste da bandeira vermelha 2 abre um potencial de alívio para a inflação de 2022. A XP trabalha com bandeira amarela no fim do ano que vem. A  economista Tatiana Nogueira, da XP, destaca que o valor da amarela também subiu, mas menos do que a vermelha 2. O aumento foi de R$ 1,343 a cada 100 kWh para R$ 1,874, ou 39,50%. Em seus cálculos, o IPCA de 2022, atualmente estimado em 3,60%, poderia ficar 0,06 ponto mais baixo.

Desse modo, a economista afirma que o aumento da energia elétrica reforça a "fotografia preocupante" para a inflação e a aposta em uma aceleração no ritmo de alta da taxa Selic a 1,00 ponto porcentual em agosto e setembro. O ciclo seria encerrado com uma alta de 0,50 ponto, com a Selic a 6,75%.

Na LCA, a previsão para 2022 também caiu de 3,80% para 3,70% em 2002, ainda acima do centro da meta do BC, de 3,50%. A Quantitas Asset fala  4,0% para o ano que vem, enquanto o Citi manteve sua projeção de 3,5%. O Banco ABC Brasil também vê chance de alívio para 2022, mas não alterou sua projeção de 3,90%.

Quanto aos riscos para a atividade econômica da crise hídrica, Tatiana afirma que a XP conversou com vários especialistas nas últimas semanas e o entendimento é de que a chance de um apagão este ano é baixa. Ela admite que a Medida Provisória 1055, que cria medidas excepcionais para lidar com o problema, traz riscos, mas avalia que, em 2022, se o crescimento da economia seguir surpreendendo e o regime de chuvas não melhorar na fase úmida, a ameaça à atividade deve ser maior.

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Aneel contraria área técnica e aprova aumento de 52% na bandeira vermelha 2

Com reajuste, taxa extra na conta de luz passa a R$ 9,49 a cada 100 kWh; técnicos haviam calculado que cobrança deveria ficar entre R$ 11,50 e R$ 12 para cobrir os custos da contratação de térmicas durante a crise hídrica

Marlla Sabino, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2021 | 12h01
Atualizado 29 de junho de 2021 | 23h24

BRASÍLIA - A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou nesta terça-feira, 29, um reajuste de 52% na bandeira vermelha patamar 2, válida para o mês de julho. No próximo mês, a taxa adicional cobrada nas contas de luz passará de R$ 6,24 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) para R$ 9,49. 

O valor que será cobrado dos consumidores, no entanto, poderá ser ainda maior nos próximos meses. Ainda hoje, 29, às 20h, o órgão regulador vai realizar reunião extraordinária e abrir outra consulta pública para definir o novo valor da bandeira vermelha nível 2 que valerá até abril de 2022.

Como mostrou Estadão/Broadcast, os técnicos calcularam que o novo patamar da bandeira vermelha nível 2 deveria subir para algo entre R$ 11,50 e R$ 12,00 a cada 100 kWh. Esse seria o valor necessário para cobrir todo o custo adicional com o acionamento de termelétricas ao longo do segundo semestre deste ano, diante da situação crítica dos reservatórios.

Mas, o relator do processo, diretor Sandoval Feitosa, afirmou que seria necessário alterar as regras do sistema das bandeiras para aprovar um reajuste nesse patamar. Isso porque a norma atual considera 95% dos cenários calculados pelo modelo. Por isso, o diretor apresentou um reajuste de apenas 1,67%, que representaria uma cobrança adicional de R$ 6,49 a cada 100 kWh. 

Apesar de reconhecer o cenário excepcional em razão da pior crise hídrica dos últimos 91 anos, o diretor avaliou que o mais justo seria que uma mudança nas regras fosse submetida a uma nova consulta pública, para que o processo tenha transparência e previsibilidade.

A proposta do relator foi derrotada por 4 votos a 1. O entendimento que prevaleceu na diretoria, no entanto, é que o cenário crítico exigia um reajuste imediato que comportasse os custos e desse um sinal mais claro aos consumidores da situação já a partir do mês de julho, sob risco de exigir um aumento ainda maior no mês de agosto ou até mesmo no ano que vem – já que o déficit na conta seria necessariamente repassado aos consumidores por meio dos reajustes anuais de cada distribuidora, com correção da Selic (a taxa básica de juros), que também está em alta.

A proposta aprovada foi apresentada pelo diretor-geral da agência, André Pepitone. Ele sugeriu uma alteração no parâmetro dos cálculos, que passa a considerar o pior cenário já realizado no histórico conhecido e adotar o nível de 100% para a cobertura dos custos de geração. Por isso, a proposta foi de um aumento de 52%, levando a bandeira vermelha patamar 2 a R$ 9,49 a cada 100 quilowatts-hora (kWh).

"A gente não está promovendo aumento porque gosta ou porque quer, é uma realidade. O custo está aqui, está presente, o que estamos decidindo é o que fazer com esse custo. Se apresento agora, se apresento depois. Se apresentar depois vou ter esse custo corrigido pela Selic”, afirmou.

Diante da gravidade da crise hídrica, a área técnica também calculou a possibilidade de ignorar a metodologia atual e calcular o valor necessário para cobrir os custos de geração de energia calculados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Nesse caso, como antecipou o Estadão/Broadcast, o valor será de R$ 11,50, se forem considerados os dados da operação no mês de junho; ou de R$ 11,80, se forem consideradas as expectativas do ONS para o mês de julho.

O aumento na cobrança extra da bandeira tarifária vermelha patamar 2 sobre o consumo de energia elétrica deve deixar as contas de luz 8,12% mais caras, em média, em julho. O cálculo é do economista André Braz, coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Ou seja, uma família que tenha gastado R$ 100 com a conta de luz de junho agora pagará R$ 108,12 em julho, se mantiver o mesmo patamar de consumo.

A conta de luz de uma família que consome 200 quilowatt/hora (kWh) por mês em São Paulo, sem considerar os impostos, deverá subir de R$ 119,32 para R$ 125,82 – aumento de 5,44%. Se comparar ao período de janeiro a abril, cuja bandeira era amarela, o aumento da conta será  de 15%, ou R$ 16, segundo cálculos feitos pela Go Energy, a pedido do Estadão. Para quem consome 100 kWh, o aumento será de R$ 3,25 em relação a bandeira vermelha de junho e R$ 8, em relação à amarela.

Sistema de bandeiras

O sistema de bandeiras tarifárias foi criado em 2015. As cores e modalidades – verde, amarela ou vermelha – indicam se haverá ou não cobrança extra nas contas de luz.

A bandeira verde representa que o custo para produzir energia no País está baixo. Já o acionamento das bandeiras amarela e vermelha representa um aumento no custo da geração e a necessidade de acionamento de térmicas, o que está ligado principalmente ao volume dos reservatórios das usinas hidrelétricas e a previsão de chuvas.

Pelo sistema atual, aprovado com ajustes hoje, 29, a bandeira verde continua sem cobrança adicional. Na bandeira amarela, a taxa passa a ser de R$ 1,874 a cada 100 kWh consumidos, alta de 39,5%. Já a bandeira vermelha 1 teve redução de 4,75% e passou para R$ 3,971 a cada 100 kWh consumidos.

Considerando que o País entrou no período seco com nível crítico nos reservatórios, a projeção da área técnica da Aneel é que a bandeira vermelha em seu segundo patamar seja mantida, pelo menos, até novembro.

Além de possibilitar aos consumidores adaptar seu consumo, o sistema de bandeiras também atenua os efeitos no orçamento das distribuidoras. Anteriormente, o custo da energia era repassado às tarifas uma vez por ano, no reajuste anual de cada empresa, com incidência de juros. Agora, esse custo é cobrado e repassado às empresas mensalmente.

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Reajuste na taxa extra da conta de luz pode aumentar inflação oficial em até 0,40 ponto

Segundo economistas, elevação da bandeira vermelha 2 deve pressionar os preços no País; a energia elétrica é um dos itens de maior peso na inflação medida pelo IPCA

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2021 | 05h00

BRASÍLIA -  Um reajuste de 84,3% a 92,3% na bandeira vermelha nível dois pode jogar ainda mais lenha na fogueira da inflação, que já tem acelerado nos últimos meses, segundo economistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast.

A área técnica da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) calcula que o novo patamar da bandeira vermelha nível dois deve subir para algo entre R$ 11,50 e R$ 12,00 a cada 100 quilowatt-hora consumidos. A sugestão não tem caráter obrigatório, de forma que a diretoria pode, se assim desejar, aprovar um valor menor ou maior que o proposto. A bandeira vermelha nível 2 está hoje em R$ 6,24 a cada 100 quilowatts-hora (kWh).

A energia elétrica é um dos itens de maior peso na inflação oficial medida pelo IPCA, respondendo por 4,24% da cesta de consumo. O economista André Braz, coordenador de índices de preços da Fundação Getulio Vargas (FGV), estima que um aumento da bandeira para R$ 11,00 levaria a uma alta de 10,5% no item energia elétrica. Esse efeito sozinho geraria um impacto de 0,4 ponto porcentual na inflação em julho. Como os valores estudados pela Aneel estão acima desse patamar, o baque pode ser até maior.

Na inflação das famílias de baixa renda, medida pelo INPC, o impacto é até maior, superior a 0,5 ponto porcentual, afirma Braz. Já o sócio e economista-chefe da RPS Capital, Gabriel Leal de Barros, calcula que o impacto no IPCA seria de 0,25 ponto porcentual, caso a bandeira seja reajustada para R$ 11,50, e de 0,27 ponto porcentual se o aumento for para R$ 12,00.

"Caso haja decisão de preservar água nos reservatórios durante o período úmido até o final do primeiro trimestre de 2022, o impacto inflacionário pode contaminar também o ano que vem", diz Barros.

Na segunda-feira, 28, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, fez pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV e pediu à população que economize água e energia elétrica.

"Não houve novidades na sua fala é não sinalizou medidas concretas a não ser negociações com os industriais para uso de energia fora dos horários de pico" , avaliou o economista-chefe da Necton, André Perfeito. Na avaliação dele, o governo não apresentou os dados de consumo atual de energia ou do nível dos reservatórios, "o que deixa certo desconforto no ar".

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Aneel aprova reajuste médio de 9,44% nas tarifas da Enel São Paulo

Para os consumidores residenciais, aumento será ainda maior, de 11,40%, válido a partir do próximo dia 4

Marlla Sabino, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2021 | 17h01

BRASÍLIA - A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou nesta terça-feira, 29, um reajuste médio de 9,44% nas tarifas da Enel Distribuição São Paulo. Para os consumidores residenciais, o impacto será de 11,40%. Os novos percentuais já valerão a partir do próximo domingo, 4 de julho.

A Enel SP, antiga Eletropaulo, é a segunda maior distribuidora do País, respondendo por 10,3% de toda a energia distribuída no Brasil. A empresa atende 7,4 milhões de consumidores em 24 municípios da região metropolitana de São Paulo, incluindo a capital paulista.

Pela proposta aprovada pela agência reguladora, o impacto médio do reajuste para os consumidores atendidos em alta tensão, como as indústrias e grandes comércios, será de 3,67%. Já para os atendidos em baixa tensão, grupo que inclui principalmente consumidores residenciais, o efeito médio será de 11,38%.

Em nota, a empresa afirmou que diante da crise hídrica que o País enfrenta, solicitou à Aneel a aplicação de uma série de medidas para reduzir o porcentual do reajuste, que ficou em torno de 14,7 pontos porcentuais menor do que o previsto inicialmente. Se não fosse a aplicação desses mecanismos, o reajuste teria sido de 24,1%.

Os principais fatores que influenciaram o aumento foram a alta da inflação, já que contratos de algumas distribuidoras, como da Enel SP, são corrigidos pelo IGP-M, o aumento dos custos com a aquisição de energia, que inclui a Itaipu Binacional, cuja tarifa é afetada pelo câmbio, e o custo com o transporte da energia até a distribuidora.

A empresa afirmou que a parcela que recebe das contas de luz é usada para realizar toda a operação, para manutenção da rede elétrica e para investimentos na expansão e qualidade do sistema de distribuição.

“Desde a aquisição da antiga Eletropaulo, em junho de 2018, a Enel Distribuição São Paulo já investiu mais de R$ 2,6 bilhões. Esse investimento contribuiu para que a duração das interrupções de energia recuasse 35,8% entre dezembro de 2017 e dezembro de 2020, passando de 11,72 horas para 7,52 horas. A frequência das interrupções também melhorou 38,4% no mesmo período, de 6,22 vezes para 3,83 vezes”, diz a nota.

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