Depois do frango e do iogurte, o carro

Brasileiros com renda familiar de até R$ 5 mil já compram mais carros do que aqueles com ganho maior

Cleide Silva, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

Em 1994, no início do Plano Real, com a inflação começando a ser controlada, dois produtos viraram símbolo do acesso dos mais pobres a itens de consumo que antes não podiam comprar: o frango e o iogurte. Quinze anos depois, outra mercadoria começa a marcar a passagem desses mesmos personagens para um novo nível: o carro. Atualmente, consumidores com renda familiar de até R$ 5 mil/mês já compram mais carros do que aqueles com ganhos acima desse valor.

Em 1990, essa faixa da população adquiriu 146 mil automóveis zero quilômetro, número que atingiu 517,2 mil unidades dez anos depois e 1,171 milhão em 2008, um incrível salto de 702%. Entre os mais ricos, o aumento foi de 164%, de 386,8 mil veículos em 1996 para 652,8 mil em 2000 e 1,022 milhão no ano passado.

De 1990 para 2008, as vendas totais de carros de passeio no País cresceram 311%, de 532,9 mil unidades para 2,193 milhões. "Há um novo desenho da pirâmide social brasileira", constata o presidente da Fiat do Brasil, Cledorvino Belini, que encomendou os dados ao consultor José Eduardo Favaretto, especializado em varejo automotivo.

Com mais pessoas passando das classes D e E - com renda de até R$ 1,064 mil - para a C - renda de quase R$ 5 mil -, "abriu-se um universo de consumidores de carros compactos, de baixo custo e motocicletas", acrescenta Belini.

De acordo com avaliação de Favaretto, essa parcela de consumidores tem garantido o "dinamismo no mercado automobilístico brasileiro e apresenta grande potencial de crescimento". Segundo o consultor, o movimento deve se repetir neste ano.

Os fatores que levam ao aumento de consumo nesse segmento social, diz ele, são o crescimento da renda, a disseminação do crédito, com juros mais baixos e prazos mais longos e a oferta de carros com motor 1.0, com preços mais acessíveis em relação aos modelos de maior motorização e também mais beneficiados em programas de corte de tributos.

O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Jackson Schneider, afirma que grande parte do aumento das vendas no País vem de novos consumidores, que antes não tinham acesso ao carro zero e passaram a ter. O movimento ganhou força nos anos mais recentes, com a melhora da situação econômica.

O consumo da classe com renda de até R$ 5 mil aumenta ano a ano, "enquanto na faixa mais elevada o crescimento é vegetativo", constata Schneider. Entre os consumidores de renda maior, ocorre mais uma substituição de um produto por outro mais novo.

O comerciante Ailton Dias Bittencurt Jr., de 25 anos, faz parte do grupo de consumidores que conseguiu chegar ao primeiro carro zero quilômetro. Casado e pai de uma menina de um ano, ele contabiliza renda mensal de R$ 2,9 mil. Na semana passada, adquiriu um Chevrolet Classic 1.0 em 24 prestações de R$ 1,3 mil na concessionária Palazzo.

Morador de Osasco, na Grande São Paulo, e dono de um Fiat Uno 2000, Bittencourt conta que desde o início do ano procurava por um carro novo. "Pesquisei bastante até encontrar um modelo do meu gosto e com condições de pagamento que eu pudesse arcar."

POPULARES

Modelos populares (com motor 1.0) ou de entrada, conforme definem as montadoras, são os mais procurados nessa faixa de consumo. Só os cinco modelos mais baratos das principais marcas brasileiras - Volkswagen Gol, Fiat Palio e Uno, Chevrolet Celta e Ford Ka - respondem por 37% das vendas totais de automóveis no País, onde a gama de ofertas passa de 120 modelos com variadas versões. De acordo com a Anfavea, 53,1% dos veículos vendidos atualmente têm motor 1.0.

Pesquisa feita no início do mês pela consultoria MSantos em um feirão de fim de semana que reuniu distribuidores das cinco maiores fabricantes do País (Fiat, Ford, General Motors, Renault e Volkswagen) aponta que a renda média dos clientes que adquiriram 325 veículos durante o evento era de R$ 2.853. Do total comercializado, 302 carros foram financiados em prazos médios de 52 meses, com entrada de menos de 30% do valor do bem.

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