Depois do G-8, é cada um por si

Os preços do petróleo só deverão cair gradualmente nos próximos cinco anos, segundo avaliação do Fundo Monetário Internacional (FMI), baseada na evolução dos mercados de futuros. Os preços dos alimentos poderão recuar, também gradualmente, em prazo mais curto. Algumas cotações cederam recentemente e previsões de melhores safras já influenciaram os negócios com trigo. Mas o custo dos insumos, em grande parte determinado pelos preços do óleo e de seus derivados, continuará a pesar. Nenhuma dessas projeções foi alterada pela inútil conferência de cúpula do Grupo dos 8 (G-8), formado pelas sete principais economias capitalistas e pela Rússia. Sobrou apenas uma clara mensagem, e nada animadora, de todo o falatório da reunião encerrada ontem na ilha de Hokkaido, no Japão: as grandes potências não têm nenhuma ação conjunta para enfrentar os grandes problemas da economia global. Cada país terá de cuidar de si, se for capaz - este é o caso do Brasil - , e os mais pobres e mais afetados pela crise dos alimentos e pelo alto preço do petróleo só poderão contar com uma ajuda modesta para não afundar na miséria e na desordem social e política.Por enquanto, essa ajuda está sendo proporcionada principalmente, e quase exclusivamente, pelo Banco Mundial (Bird) e pelo FMI. O Fundo já está empenhado em programas de auxílio financeiro a Benin, Burkina Fasso, Quirguízia, República Centro-Africana, Haiti, Mali e Níger e poderá estender o socorro a outras economias atingidas pelo choque externo. Sem perspectiva de ação articulada, cada governo e cada banco central terão de traçar estratégias próprias para deter a disparada de preços e evitar a escalada inflacionária, devastadora principalmente para os assalariados e, de modo geral, para os pobres. O recado mais sensato foi transmitido em Hokkaido pelo diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, convidado para o evento do G-8. "Quando vocês se inquietam com os preços altos do petróleo e da comida, devem pensar no crescimento, mas deveriam preocupar-se ainda mais com a inflação", recomendou. A expansão da economia mundial já está prejudicada pelo aumento dos preços do petróleo - cerca de 70% desde o começo do ano. Esse encarecimento deve cortar entre 0,75 e 1 ponto de porcentagem do crescimento econômico em 2008. Mas a pressão inflacionária não está restrita aos mercados de petróleo e de alimentos, lembrou o diretor-gerente do FMI. O desafio, agora, é limitar os efeitos de segunda ordem, a generalização dos aumentos de preços, observou Strauss-Kahn. Se o contágio continuar, o ajuste dos mercados será retardado, a expectativa inflacionária dificultará o crescimento e os pobres serão prejudicados, por serem menos capazes de se defender da inflação, argumentou o diretor-gerente do FMI. No Brasil, o contágio é cada vez mais evidente. Já não se trata apenas de inflação importada, nem de pressões localizadas setorialmente.Na economia brasileira, a permanência de contratos indexados eleva o risco de transmissão da alta de preços. Esse risco é cada vez mais claro na evolução dos Índices Gerais de Preços (IGPs) calculados pela Fundação Getúlio Vargas. O IGP-DI de junho, divulgado ontem, subiu 1,89% em junho. A elevação em 12 meses chegou a 13,96%. O Índice de Preços por Atacado (IPA), item mais importante do índice geral, aumentou 2,29% no mês passado e 17,90% em 12 meses.O aumento dos preços por atacado não se transfere necessariamente ao varejo, mas o repasse é tanto mais fácil quanto mais forte a demanda final e menor, portanto, a resistência em cada elo da transformação e da circulação de mercadorias. A grande tarefa das autoridades monetárias, nesta altura, é criar barreiras ao repasse e à contaminação dos preços e dos salários. O aumento da inflação foi classificado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) como "o principal destaque econômico do primeiro semestre". Em seu novo boletim de conjuntura, divulgado ontem, a projeção de crescimento em 2008 caiu de 5% para 4,7%. A inflação prevista subiu de 4,7% para 6,4%, quase no teto da meta (6,5%). A CNI já não condena a política de juros. Ao contrário: saúda como positiva a "possibilidade de maior consonância entre as políticas fiscal e monetária", dada a promessa do governo de elevar para 4,3% do PIB o superávit primário. Há quem julgue essa "consonância" insuficiente, mas o ministro da Fazenda prefere chamar de alarmista quem pede mais ação contra a alta de preços.*Rolf Kuntz é jornalista

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