Nilson Bastian/Agência Cãmara
Pensamento que Eduardo expressa não corresponde ao da comissão, disse o deputado Daniel Almeida. Nilson Bastian/Agência Cãmara

Deputados pedem saída de Eduardo Bolsonaro da Comissão de Relações Exteriores da Câmara

Pedido vem após deputado federal acusar a China de usar a sua tecnologia 5G para espionar outras nações; parlamentares dizem que fala não corresponde ao pensamento da comissão

Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 17h46

BRASÍLIA - Um grupo de parlamentares pede a destituição de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) da presidência da Comissão de Relações Exteriores da Câmara. O movimento acontece depois do último embate entre o filho do presidente da República Jair Bolsonaro e a China

Em publicação feita na noite de segunda-feira, 23, - e apagada no dia seguinte - Eduardo destacava a adesão do Brasil ao programa Clean Network, descrito pelo deputado como uma "aliança global para um 5G seguro, sem espionagem da China". 

Na terça-feira, 24, a Embaixada da China em Brasília reagiu à acusação de espionagem e acionou o Itamaraty para reclamar de uma publicação. Em comunicado divulgado pelas redes sociais da Embaixada, Pequim afirma que, se não houver um ajuste de retórica, as autoridades brasileiras "vão arcar com as consequências negativas e carregar a responsabilidade histórica de perturbar a normalidade da parceria China-Brasil".

"O deputado Eduardo Bolsonaro vive cometendo desatinos e envergonhando o Parlamento perante parceiros históricos do Brasil, como a China. Não tem cabimento uma postura desse tipo vinda de um parlamentar que se diz presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara”, disse o vice-presidente do Cidadania, deputado Rubens Bueno.

O pedido tem apoio do presidente do grupo parlamentar Amizade Brasil-China, Daniel Almeida (PCdoB-BA). “Estamos fazendo um requerimento argumentando que o pensamento que ele [Eduardo] expressa não corresponde ao da comissão e nem ao da Câmara, portanto, ele está em desacordo com a função”, disse Almeida.  

A comissão analisa e dá encaminhamento aos projetos relativos a relação do Brasil com demais países que passam pela Câmara. Eduardo foi escolhido no início de 2019 para o mandato de um ano no comando do colegiado. Mas, as comissões não funcionaram em 2020, em consequência da pandemia, o que deu espaço a uma brecha no Regimento da Câmara, que apesar de vetar a reeleição de presidentes de comissões, permite que eles continuem no cargo até que a nova direção seja eleita.

Com isso, Eduardo continua como o presidente e com direto, por exemplo, a cinco cargos comissionados relativos à estrutura da Comissão de Relações Exteriores. 

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'Estamos sendo usados na disputa entre duas grandes superpotências mundiais', diz diretor da Huawei

O brasileiro Marcelo Motta, responsável global pela cibersegurança da chinesa, diz que a companhia está à disposição do País para esclarecer "rumores" sobre sua atuação

Anne Warth, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 12h43

BRASÍLIA - Principal alvo da pressão norte-americana no 5G e acusada de ser um braço de espionagem do governo chinês, a Huawei diz esperar “racionalidade” do governo brasileiro na decisão que norteará o futuro da tecnologia no País. "Estamos sendo usados para uma disputa entre duas grandes superpotências mundiais", diz o diretor global de cibersegurança da empresa chinesa, Marcelo Motta, ao Estadão/Broadcast. Segundo ele, muitos países podem reavaliar seu posicionamento em razão da mudança no governo dos Estados Unidos, com a vitória do democrata Joe Biden, enquanto outros adiaram sua decisão em razão disso.

Nove dias após o subsecretário para Crescimento Econômico, Energia e Meio Ambiente do Departamento de Estado dos EUA, Keith Krach, pregar o banimento da Huawei no Brasil, a direção mundial da empresa reagiu. Na terça-feira, 24, a Embaixada da China em Brasília reagiu à acusação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, de que praticaria espionagem por meio de sua rede de tecnologia 5G.

Pequim acionou o Itamaraty para reclamar de uma publicação de Eduardo nas redes sociais, posteriormente apagada por ele. Na mensagem, Eduardo Bolsonaro fez menção à adesão simbólica do Brasil à Clean Network (Rede Limpa), iniciativa diplomática do governo Donald Trump para tentar frear o avanço de empresas chinesas no mercado global de 5G. O filho 03 de Bolsonaro, como é chamado pelo pai, celebrou o fato como um sinal de que o Brasil “se afasta da tecnologia da China”. 

Na sexta-feira, 20, o ministro da Economia, Paulo Guedes, se reuniu, por meio de videoconferência, com o vice-presidente global de Public Affairs e Relações Governamentais da Huawei, Mark Xueman, com o vice-presidente de Public Affairs e Relações Governamentais na Huawei Brasil, Guo Yi, e com o diretor-sênior de Relações Governamentais na Huawei Brasil, Atilio Rulli. Não foram recebidos, no entanto, pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Ministério das Comunicações e pelo vice-presidente Hamilton Mourão.

Brasileiro, Motta está na Huawei desde 2002 e vive na China há oito anos, quando assumiu a chefia global da área de cibersegurança da empresa. Ele relata que as acusações sobre a empresa não são novas, mas subiram de tom quando a Huawei começou a se expandir. Mundialmente, a empresa faturou US$ 123 bilhões em 2019, aumento de 19% sobre 2018. Até o terceiro trimestre de 2020, ela registrava receitas de US$ 100 bilhões, alta de 9,9% na comparação com o mesmo período do ano anterior.

No Brasil, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) estima que a Huawei esteja presente em algo entre 35% a 40% das redes atuais. As operadoras dizem que a fatia é ainda maior, variando de 45% a até 100%, dependendo da empresa. Banir a empresa é uma decisão que depende de decreto presidencial - até agora, não há um posicionamento claro sobre o tema. Confira os principais trechos da entrevista.

Qual a expectativa da Huawei em relação à decisão do governo brasileiro no 5G?

Esperamos que a racionalidade impere e que qualquer decisão não seja tomada com base em rumores. Fazemos todo o esforço para mostrar nossa transparência e expressar isso para além das operadoras, mas também para o governo. Estamos ativamente em contato com governo e Congresso. Colocamos nossos equipamentos à disposição para testes com seu próprio time de técnicos, para que o governo se blinde de comentários externos e tome suas decisões de forma soberana. É nesse sentido que temos atuado e estamos confiantes de que a racionalidade vai prevalecer. Nossa exclusão faria com que muitos processos envolvendo o 5G atrasassem no País. Seria uma pena de isso de fato ocorresse.

O que a Huawei tem feito para rebater as acusações de espionagem por parte de outros países?

Segurança cibernética e proteção de dados são prioridades máximas para a empresa e isso é de longa data. Sabemos que estaremos acabados se tivermos qualquer problema nessa área. Por isso, aprimoramos o processo de governança em segurança cibernética. Laboratórios independentes testam cada solução antes que ela seja lançada no mercado. Somos a única empresa a ter centros globais de segurança cibernética, em Dongguan (China) e Bruxelas (Bélgica). Nesses centros, clientes, operadoras e governos podem ter acesso ao código-fonte de nossas soluções e fazer auditorias usando seu próprio pessoal e ferramentas, para que tirem suas próprias conclusões, sem a influência de acusações infundadas e sem provas. Se houver fatos, clamamos que sejam mostrados. Até hoje, nada apareceu.

Como a Huawei vê a pressão dos EUA pela adesão do Brasil à Clean Network e pelo banimento da companhia?

A iniciativa Clean Network não cobre única e exclusivamente telecom, mas aplicativos, smartphones e cabos intercontinentais submarinos. O nome “Rede Limpa” é bonito, e quem não conhece pode até cair e se deixar seduzir, mas a definição está na página da Clean Network na internet. O objetivo é muito claro: tirar qualquer fornecedor chinês do espaço cibernético. É uma coisa muito séria, que exclui, de forma unilateral e sem qualquer critério técnico e racional, e transforma tudo num assunto única e exclusivamente geopolítico. Operadoras citadas como membros da iniciativa no site já manifestaram discordâncias com esse conceito de rede limpa que os EUA anunciaram. É algo completamente discriminatório, feito com o objetivo de dominar o espaço cibernético. O problema não é específico contra a Huawei. Estamos sendo usados para uma disputa entre duas grandes superpotências mundiais.

O que está por trás da intenção dos EUA?

O futuro da economia é digital. Temos uma liderança reconhecida no mercado dentro do 5G. Atendemos grandes e pequenas operadoras com banda larga fixa e móvel e temos uma participação relevante no mercado de redes e de infraestrutura. Mas a maioria das empresas Over The Top (OTTs) - plataformas e aplicativos de distribuição de conteúdo - são americanas. O TikTok talvez seja o único aplicativo chinês de sucesso mundial. Nessa camada, os EUA são líderes isolados, e é difícil competir com empresas como Google e YouTube, que possuem grande escala e alcance global. A margem de lucro dessas empresas é gigantesca, de 25% sobre a receita. Mas quantos empregos elas geram localmente? O que recolhem em impostos nos países em que atuam? Nenhuma operadora ou fabricante de redes consegue esse resultado. A margem é muito pequena, de 2% a 3%. A Huawei passou anos com resultados negativos e nossa margem nunca superou 8%.

Quais riscos a adesão à Clean Network traz para o desenvolvimento da internet?

Essa iniciativa Clean Network sai do escopo de rede e avança para apps e smartphones, o que é muito ruim para o desenvolvimento da internet. Talvez isso não esteja claro para o governo. A própria Internet Society já se pronunciou contra essa iniciativa, que vai contra o princípio de conectar pessoas. Outra camada em que os EUA são líderes é na computação em nuvem: 92% dos dados do mundo ocidental estão em nuvens de empresas americanas como a Amazon Webcharge (AWS), a Microsoft Azure e o Google Cloud. Os dados acabam ficando nessas nuvens e é sobre elas que são construídos os aplicativos. Existe muita competição na camada de redes de telecomunicações, na camada de smartphones, mas nas camadas de nuvens e aplicações há pouquíssimos competidores de porte dos grandes players norte-americanos.

Quais benefícios o 5G pode trazer para a economia mundial?

Quando o 5G estiver instalado e desenvolvido, os benefícios irão muito além de velocidade alta e tempo de resposta baixo. Em vez de um único fornecedor global de aplicativos, muitos aplicativos serão locais, desenvolvidos primordialmente por empresas locais. No agronegócio e na manufatura inteligente, o processamento de dados de aplicações será local. O 5G trará investimento para as economias com ganhos de eficiência e desenvolvimento. Quando se colocam restrições para o avanço do 5G, simplesmente se trava o desenvolvimento da economia local.

De que maneira um atraso no 5G pode atrapalhar o desenvolvimento do País?

Quando se impõem restrições, a competição é menor e o preço é maior. Haverá lentidão para trazer os sistemas, desenvolver as indústrias locais e, consequentemente, a economia brasileira. Fizemos uma pesquisa com a Deloitte, que estimou que o 5G trará ao Brasil um incremento de R$ 2,93 trilhões no PIB em 15 anos, comparativamente aos R$ 7,25 trilhões do PIB de hoje. Isso representa uma taxa média anual de crescimento do PIB de 2,5%. Imagine o impacto que isso terá.

Países, como Reino Unido, Japão e Austrália, baniram a Huawei de suas redes 5G. O Brasil pode ficar isolado se não o fizer também?

É uma pena que a chegada da tecnologia 5G tenha sido politizada. Vários dos países que baniram a Huawei são aliados de longa data dos EUA e sucumbiram a uma pressão geopolítica. O caso do Reino Unido é emblemático: em janeiro, autorizaram a entrada do 5G da Huawei e em julho mudaram de ideia, apesar de todos os testes realizados. Isso, nas palavras do próprio governo, vai atrasar a chegada do 5G por lá em dois a três anos, e haverá um forte impacto nos custos das operadoras. Por outro lado, as maiores redes 5G estão hoje na Coreia do Sul e na China, com tecnologia Huawei, assim como em todo o Oriente Médio. Na Europa, Suíça, Alemanha e Espanha se posicionaram positivamente em relação à Huawei. Existe uma gama de países que não sucumbiram a esse tipo de pressão. Muitos países podem reavaliar seu posicionamento em razão da mudança no governo dos Estados Unidos, com a vitória do democrata Joe Biden, enquanto outros adiaram sua decisão em razão disso.

Quais os diferenciais da Huawei em relação a seus competidores no 5G?

Para se ter uma ideia, o Brasil tem hoje 100 mil antenas de 2G, 3G e 4G. Na China, há 800 mil antenas apenas para o 5G. A Coreia tem a maior rede 5G em termos de densidade de antenas. Estamos presentes nos países que precisam da melhor solução técnica e de escala. A saída da Huawei do mercado brasileiro comprometeria a expansão das redes para operadoras e consumidores de forma muito ruim. Onde a Huawei foi banida, o preço da infraestrutura de telecomunicações subiu de duas a cinco vezes em áreas rurais. Com esse aumento de custo, os competidores deixam de atender a várias áreas e isso chega a inviabilizar negócios. Um pacote pré-pago nos EUA é oito vezes mais caro que no Brasil e na China.

Como a Huawei encara as insinuações de que cederia a pedidos do governo chinês por informações confidenciais em atendimento à lei de inteligência nacional?

Não existe lei na China que exija que a Huawei implemente backdoors (ou "porta dos fundos", em inglês, é o método usado para ter acesso às informações dos usuários contornando medidas de segurança) em suas soluções. Além disso, as leis chinesas não têm validade extraterritorial: valem apenas no território chinês e se aplicam apenas às empresas que lá estão. Mesmo que existisse uma lei exigindo backdoor, ela valeria apenas na China, diferentemente de outros países que se valem de suas leis para avançar sobre outras nações. A Huawei apenas fornece equipamentos para operadoras, mas não os opera. As redes das operadoras são fechadas e a Huawei não tem acesso a elas, muito menos aos dados. Somos a empresa mais transparente do mundo em segurança cibernética. Somos a única que abre o código-fonte. Nosso segredo industrial está aberto para ser auditado. Qual privilégio os EUA têm para desconfiar da Huawei e para que ninguém desconfie deles ou de quaisquer outras empresas, independentemente da nacionalidade?

A direção mundial da Huawei teve audiência com o ministro da Economia, Paulo Guedes, na semana passada. A empresa está preocupada com um possível banimento?

O Brasil é extremamente importante para nossa empresa. O time vem ao Brasil de forma rotineira. Não houve nada de extraordinário nesse período, são coisas normais. É óbvio que esse assunto do 5G chama nossa atenção. Estamos com abertura completa para fazer qualquer tipo de esclarecimento ao governo. Estamos comprometidos a esclarecer quaisquer pontos e dúvidas que existam. Estamos no País há 22 anos. Temos cinco escritórios no Brasil, um centro de distribuição e um centro de treinamento. São 1,2 mil funcionários diretos, 15 mil indiretos. Pagamos R$ 1,4 bilhão em impostos locais no Brasil no ano passado. Foram R$ 627 milhões em compras locais e R$ 150 milhões em investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

Como a Huawei avalia as dúvidas no mercado sobre o grau de transparência em relação a informações financeiras e societárias?

Não somos uma empresa pública, somos uma empresa privada. Não temos ações em Bolsa, mas isso não significa que não sejamos transparentes. Há informações sobre a quantidade de funcionários, quem tem participação na empresa, como o board (conselho de administração) é selecionado. O fundador da Huawei tem menos de 1% das ações, e a maior parte dos papéis está nas mãos dos funcionários. Isso é algo que atrai funcionários, que se sentem também donos da companhia. Nossos resultados anuais são auditados pela KPMG e são divulgados a cada trimestre, embora não sejamos obrigados a fazê-lo. Temos centros de pesquisa e desenvolvimento espalhados no mundo inteiro: nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Índia, Suécia e também no Brasil. Somos hoje uma empresa mais global do que única e exclusivamente chinesa. A Huawei é uma empresa líder em solicitação de patentes. Desde 2016, temos 20% das patentes do 5G, resultados de investimentos de US$ 4 bilhões realizados entre 2009 a 2019.

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Relembre atritos e polêmicas na relação Brasil-China

Caso recente de Eduardo Bolsonaro sobre o 5G não é a primeira fala atribulada do deputado federal e filho do presidente Jair Bolsonaro sobre a China 

Felipe Siqueira, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2020 | 12h45

A polêmica provocada por uma publicação no Twitter de Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente Jair Bolsonaro, em que ele afirma haver espionagem por parte da China na tecnologia 5Gestá longe de ser a primeira fala a provocar algum tipo de desconforto entre o governo Bolsonaro e a segunda maior economia do mundo - que também é o maior parceiro comercial do Brasil.  

Os primeiros atritos começaram ainda na campanha do então deputado Jair Bolsonaro à presidência, em 2018. Já naquela época a China demonstrava apreensão com uma possível guinada em direção às políticas defendidas pelo presidente americano, Donald Trump, de quem Bolsonaro se manteve próximo. 

Nos dois anos seguintes, o governo de Bolsonaro alternou entre ataques, recuos e afagos ao governo chinês. Sobre o próprio 5G, por exemplo, Bolsonaro afirmou, em meio à disputa entre Estados Unidos e China pela tecnologia no Brasil, que quem decidia sobre o assunto era ele, ressaltando, porém, que não iria resolver tudo sozinho. 

Duas das principais polêmicas envolvendo a relação Brasil-China têm Eduardo Bolsonaro e o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub como personagens principais. 

Eduardo chegou a afirmar que a pandemia do novo coronavírus existe por culpa da China, por negligência, comparando a situação ao desastre nuclear de Chernobyl, na antiga União Soviética. Weintraub, ainda como ministro do governo, falou que o país asiático se beneficiaria com a crise da covid-19. No post, que não está mais visível na conta de Weintraub, ele trocou a letra "R" por "L", o que, em resposta, a embaixada chinesa chamou de "cunho fortemente racista". 

Veja, abaixo, os principais atritos na relação Brasil-China.

12/8/2018 - Bolsonaro critica a China

Em encontro com empresários, ainda em campanha à Presidência da República, o então deputado federal Jair Bolsonaro afirmou que era preciso brecar o avanço da China em terras brasileiras, questionando a compra de propriedades no País pelos chineses. 

31/10/2018 - China questiona Bolsonaro em jornal estatal

Em um jornal estatal chinês, utilizado para mandar recados a parceiros globais, o China Daily, o governo do país asiático questionou se Bolsonaro, até então candidato à Presidência, iria abalar as relações entre Brasil e China. A pergunta central no conteúdo do texto era: "Até que ponto o próximo líder da maior economia da América Latina vai afetar a relação Brasil-China?" 

O texto seguia, afirmando que Bolsonaro era "apresentado por alguns como 'Trump tropical', que não apenas endossa a agenda nacionalista de Trump, mas pode copiar uma página de seu guia". 

O documento também mostrava descontentamento em relação à postura do candidato Bolsonaro sobre a China. Segundo eles, o então deputado se mostrou "menos amistoso em relação à China durante a campanha", e concluiu dizendo que esperava que, quando assumisse, Bolsonaro adotasse postura racional e objetiva nas relações Brasil-China. 

5/11/2018 - Bolsonaro comenta conversa com embaixador da China 

O então presidente eleito, Jair Bolsonaro, afirmou, em uma entrevista à Band TV, que, após receber o embaixador da China no Brasil, Li Jinzhang, "todos os países podem comprar no Brasil, mas não comprar o Brasil". Bolsonaro havia afirmado ainda, que estava "na cara" que a China queria aumentar os negócios com o País. "Não teremos nenhum problema com a China, pelo contrário, pode ser até ampliado." 

19/11/2018 - Partido comunista chinês convida o então partido de Bolsonaro a visitar Pequim 

Em uma tentativa de aproximação com o então governo eleito de Jair Bolsonaro, que assumiria em seguida, em 2019, o Partido Comunista da China convidou a então legenda de Bolsonaro, o PSL, para visitar Pequim. A embaixada da China no Brasil enviou carta para receber delegação de dez membros do partido. O partido, representado pelo presidente à época, Luciano Bivar, viu com "bons olhos o convite', o considerando muito bem-vindo. 

17/1/2019 - Olavo de Carvalho critica ida de bancada do PSL à China 

O escritor  Olavo de Carvalho, muito próximo ao governo Bolsonaro, principalmente, no início do mandato - sendo responsável pelas indicações dos ministros Ernesto Araújo, chanceler, e Ricardo Vélez Rodríguez, primeiro ministro da Educação do governo -, criticou a  ida da bancada do PSL à China. A ideia, na época, era conhecer um sistema de reconhecimento facial, para, eventualmente, no futuro, trazê-lo ao Brasil. A comitiva havia sido convidada pela embaixada da China no Brasil. “Vocês estão fazendo uma loucura. Vocês estão entregando o Brasil para a China. Vocês são idiotas?”, questionou ele. 

18/01/2019 - Carla Zambelli minimiza mal-estar por viagem à China 

A deputada federal do PSL Carla Zambelli disse ter havido erro de comunicação sobre viagem à China, após críticas de Olavo de Carvalho. Para a Rádio Eldorado, a parlamentar comentou: "A gente não ouviu da boca do Bolsonaro nenhum desagravo. Em nenhum momento ele nos chamou a atenção. Se gerasse esse mal-estar que foi dito em algumas redes, acho que ele teria chegado até nós para conversar". Olavo chegou a criticá-la nominalmente. "Isso é um bando de caipira. Inclusive, você, Carla Zambelli. Nunca vou te perdoar isso aí. Eu já te ajudei muito. Se você não sair desse negócio eu não falo mais com você." 

29/06/2019 - Bolsonaro cancela encontro com Xi Jinping no G-20 por atraso de 20 minutos da delegação chinesa 

No G20, realizado em Osaka, no Japão, Bolsonaro iria encontrar o líder da China, Xi Jinping, mas o presidente brasileiro não quis esperar além dos 20 minutos que já aguardava na sala de espera e desmarcou a reunião, que estava prevista para as 14h30. Até mesmo assessores de Bolsonaro foram pegos de surpresa. O cancelamento também causou irritação em jornalistas chineses, que esperaram por mais de uma hora do lado de fora da sala para acompanharem o encontro. 

24/10/2019 - Bolsonaro chama China de país capitalista 

No mês em que se completaram 70 anos da Revolução Comunista na China, Bolsonaro visitou o país e disse estar, à época, em um local capitalista. Ao chegar a Pequim, destacou que havia interesse do Brasil e da China em aumentar o comércio entre os países. A frase aconteceu após ser indagado na época, após pressão de parte de seu eleitorado, por estar em um país assumidamente comunista. Bolsonaro é crítico ferrenho do comunismo. 

18/11/19 - Bolsonaro diz que Huawei quer instalar 5G no Brasil 

O presidente Jair Bolsonaro afirmou que a empresa de tecnologia chinesa Huawei quer implementar a tecnologia 5G no Brasil. Ele havia se encontrado com o presidente da empresa, Wei-Yao, e disse: "Apenas ouvi".  

18/3/2020 - Eduardo Bolsonaro diz que pandemia do novo coronavírus existe por negligência da China 

O deputado federal e filho do presidente do Brasil, Eduardo Bolsonaro, afirmou que a culpa da pandemia do novo coronavírus é da China. "Quem assistiu Chernobyl (série da HBO sobre o acidente nuclear na União Soviética) vai entender o que ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa" disse, à época. 

Na minissérie, é mostrado que cientistas que estavam presentes na usina, na madrugada do acidente, esconderam a gravidade da situação. Eduardo Bolsonaro insinua que o mesmo ocorreria com o coronavírus, em março. Segundo ele, a China escondeu algo grave. "A culpa é da China e liberdade seria a solução", diz no Twitter, após chamar o país asiático de ditadura. 

No mesmo dia, a embaixada chinesa no País pediu a retratação do deputado. Yang Wanming afirmou que Eduardo feriu relação amistosa com o Brasil e "precisa assumir todas as suas consequências." 

 

 

18/3/2020 - China responde a Eduardo: "Contraiu vírus mental"

A embaixada chinesa, por meio do  Twitter, protestou contra a fala de Eduardo sobre a pandemia e afirmou: “As suas palavras são extremamente irresponsáveis e nos soam familiares. Não deixam de ser uma imitação dos seus queridos amigos. Ao voltar de Miami, contraiu, infelizmente, vírus mental, que está infectando a amizade entre os nossos povos”. 

O post se referia à viagem realizada pouco tempo antes por comitiva do presidente Jair Bolsonaro, em que Eduardo estava presente, para encontro com o presidente americano, Donald Trump. 

19/3/2020 - Eduardo diz que jamais ofendeu o povo chinês 

Após acusar China de ser culpada pela pandemia do novo coronavírus, Eduardo Bolsonaro recuou e afirmou que jamais ofendeu o povo chinês. Segundo ele, não havia, à época, desejo de problemas com o país asiático. "Esclareço que compartilhei postagem que critica a atuação do governo chinês na prevenção da pandemia, principalmente no compartilhamento de informações que teriam sido úteis na prevenção em escala mundial." 

4/4/2020 - Weintraub faz post insinuando que China sairá 'fortalecida' com crise do coronavírus 

Por meio do Twitter, o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, fez uma publicação ironizando a China, ao insinuar que a segunda maior economia do mundo sairia "fortalecida" com a crise global provocada pelo novo coronavírus. 

Além disso, Weintraub trocou "R" por "L" na publicação. "Geopoliticamente, quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?", escreve Weintraub.

No mesmo dia, o cônsul-geral da China no Rio de Janeiro, Li Yang, havia assinado artigo no jornal O Globo questionando o deputado federal e filho do presidente Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, sobre os motivos de suas declarações polêmicas a respeito do país asiático. 

O post não está mais visível na conta do ex-ministro. 

6/4/2020 - Embaixada da China repudia tuíte de Weintraub: "Racista"

Após falas de Weintraub trocando "R" por "L", a embaixada chinesa no Brasil repudiou o tuíte do então ministro da Educação e disse que a declaração tinha "forte cunho racista". “Deliberadamente elaboradas, tais declarações são completamentes absurdas e desprezíveis, que têm cunho fortemente racista e objetivos indizíveis, tendo causado influências negativas no desenvolvimento saudável das relações bilaterais China-Brasil”, diz a nota divulgada no Twitter da Embaixada. 

03/09/2020 - Bolsonaro diz que decisão sobre 5g cabe a ele 

Em meio à disputa entre Estados Unidos e China sobre a tecnologia 5G no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que a decisão sobre o assunto cabe a ele. "Vou deixar bem claro, quem vai decidir 5G sou eu. Não é terceiro, ninguém dando palpite por aí, não. Eu vou decidir o 5G", disse Bolsonaro durante transmissão semanal nas redes sociais. Ele ainda falou que o Brasil é uma potência e precisa ter sistema de inteligência robusto para trabalhar. Bolsonaro também ressaltou que não vai decidir sozinho sobre o tema. 

24/11/2020 - Eduardo Bolsonaro fala que iniciativa brasileira do 5G não terá espionagem da China 

O deputado federal Eduardo Bolsonaro publicou e apagou pouco tempo depois um post no Twitter exaltando apoio do Brasil a projeto dos Estados Unidos sobre o 5G. Além disso, ele afirmou que o presidente americano, Donald Trump, estaria criando uma "aliança global para um 5G seguro, sem espionagem da China." 

Em uma sequência de tuítes, o filho do presidente Jair Bolsonaro citou, por exemplo, fala que é atribuída ao ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre governo analisar "alertas geopolíticos" no âmbito da tecnologia do 5G. 

24/11/2020 -  China reage a Eduardo e diz que Brasil poderá "arcar com consequências"

A China reagiu à fala do deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, afirmando que "algumas personalidades têm produzido uma série de declarações infames, que solapam a atmosfera amistosa entre os dois países." 

“Acreditamos que a sociedade brasileira, em geral, não endossa nem aceita esse tipo de postura. Instamos essas personalidades a deixar de seguir a retórica da extrema direita norte-americana, cessar as desinformações e calúnias sobre a China e a amizade sino-brasileira, e evitar ir longe demais no caminho equivocado, tendo em  vista os interesses de ambos os povos e a tendência geral da parceria bilateral. Caso contrário, vão arcar com as consequências negativas e carregar a responsabilidade histórica de perturbar a normalidade da parceria China-Brasil.” 

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