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A queda forte dos preços do petróleo, a despeito da manutenção dos cortes de oferta promovidos pela Opep, aconteceu porque a produção não para de subir no restante do mundo

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

15 Junho 2017 | 21h00

Nesta quinta-feira, a Petrobrás reduziu novamente os preços dos combustíveis, mas é pouco quando se leva em conta o que acontece com os preços internacionais do petróleo.

Neste ano (até esta quinta-feira), as cotações do tipo Brent caíram 20,15%. Apenas em junho, a queda foi de 7,96%. Enquanto isso, os preços internos dos diesel cederam 1,3% e os da gasolina, 4,8%.

Até há pouco mais de um ano, as tarifas dos combustíveis eram parte da bagunça da política econômica do governo Dilma, que fazia política anti-inflacionária com base no represamento dos preços administrados, entre os quais estão os dos combustíveis. Mas, de maio de 2016 até agora, há mais racionalidade nos critérios adotados. Baseiam-se em três parâmetros: cotações internacionais do petróleo e dos derivados, preços internos da moeda estrangeira e participação da Petrobrás no mercado. Não se conhece a proporção desses critérios no cálculo final.

Enquanto os preços internos se mantiveram artificialmente achatados, a Petrobrás perdeu clientes. Grandes varejistas importaram por conta própria, alguns com a vantagem adicional de fugir do pagamento de impostos, especialmente do ICMS, uma vez que este é recolhido na refinaria, antes das vendas ao consumidor, pelo mecanismo de substituição tributária. Entenda-se: na prática, o combustível importado não passa por refinaria nacional.

No momento, o fator mais relevante é a derrubada dos preços internacionais. Desde maio de 2016, o cartel da Opep (que detém entre 35% e 40% da oferta) mantém a decisão de cortar 1,8 milhão de barris diários da sua produção.

Essa redução de preços ficou inevitável diante da falência da estratégia anterior da Arábia Saudita. Explicando melhor: a Opep decidiu deixar que em 2014 os preços despencassem dos US$ 100 por barril (de 159 litros) para os atuais US$ 45, na expectativa de que os produtores, que então operavam a custos altos, abrissem o bico e fossem alijados da parada. Aconteceu o contrário, os produtores de óleo e gás de xisto dos Estados Unidos, o maior alvo da operação, trataram de derrubar seus custos e continuaram a azucrinar a Opep.

A queda forte dos preços, a despeito da manutenção dos cortes de oferta promovidos pela Opep, aconteceu porque a produção fora da Opep continuou a subir. O relatório de junho da Agência Internacional de Energia avisa que, ao final deste ano, apenas a produção dos Estados Unidos será 920 mil barris diários mais alta do que a de 2016, e a de 2018 crescerá mais 780 mil barris diários. Só essa parcela equivale a todo corte de oferta produzido pela Opep. E, em 2018, países de fora da Opep devem produzir mais 720 mil barris diários. As projeções da demanda em 2018 são mais fáceis de calcular do que as da oferta, porque nesta há o jogo da Opep, que abre e fecha as válvulas, a alta capacidade de aumento de produção do setor de xisto e os novos produtores que avançam no mercado com um dinamismo inesperado. Os estoques subiram à proporção de 360 mil barris diários nos primeiros cinco meses de 2017. É um panorama de alta incerteza que, no momento, se traduz em forte baixa das cotações, que só a alta do PIB global parece capaz de inverter.

CONFIRA

» Produção no Brasil

A produção de petróleo no Brasil em 2016 foi de 2,61 milhões de barris por dia. Em 2017, com o início da operação de três plataformas no pré-sal, a produção deve saltar a 2,8 milhões de barris. E em 2018, a 3,06 milhões, relata a Agência Internacional de Petróleo. Nos governos Lula e Dilma, o avanço da produção foi prejudicado não só com saques à Petrobrás, mas, também, pela política de petróleo que interrompeu os leilões de áreas e pelas leis, hoje revogadas, que dificultaram a capacidade de investimento.

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