Desaceleração da China deve entrar no 10º mês

Mesmo com fortes indícios de recuo na indústria da 2ª maior economia mundial, governo resiste à pressão para afrouxar política monetária

CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / PEQUIM , O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2012 | 03h06

A produção industrial chinesa deve cair pelo décimo mês seguido em agosto e atingir o mais baixo nível desde novembro, de acordo com resultado prelimitar de pesquisa divulgado ontem. Apesar dos indícios de forte desaceleração da segunda maior economia do mundo, o governo tem resistido à pressão para a afrouxar a política monetária, em razão da alta no preço de imóveis registrada depois de cortes na taxa de juros em junho e julho.

O resultado parcial do Índice Gerente de Compras (PMI na sigla em inglês) calculado pelo HSBC ficou em 47,8, abaixo dos 49,3 de julho - níveis inferiores a 50 indicam contração da atividade econômica. O indicador é baseado em pesquisa com executivos de compras de 420 empresas industriais e dá um panorama com base no comportamento de itens como novos pedidos, emprego, produção e estoques.

Na opinião do economista-chefe para a China do HSBC, Qi Hongbin, o governo terá de afrouxar a política monetária se quiser estabilizar o ritmo de crescimento e o emprego nos próximos meses.

Depois que a produção industrial desacelerou além do esperado em julho, o mercado passou a prever novos cortes da taxa de juros e redução da quantidade de dinheiro que os bancos devem deixar imobilizados, sem emprestar aos clientes, o que liberaria recursos para o crédito.

Nenhuma das medidas havia se concretizado até ontem. Em vez delas, o Banco do Povo da China preferiu fazer operações de compra de títulos públicos para dar liquidez ao sistema bancário. Nesta semana, as transações injetaram no mercado o valor líquido de US$ 43,8 bilhões, o maior volume desde janeiro.

Limitações. A capacidade do governo de adotar uma política monetária mais agressiva é limitada pela possibilidade de que as mudanças voltem a inflar a bolha do mercado imobiliário que o governo tenta conter desde 2010. Em julho, os preços dos imóveis subiram no maior número de cidades em 14 meses, depois dos dois cortes de juros anunciados em espaço inferior a 30 dias. Dados divulgados sábado mostraram elevação de preços em 49 das 70 cidades pesquisadas, comparadas a apenas 25 no mês anterior.

O Produto Interno Bruto (PIB) da China desacelera há seis trimestres seguidos e teve expansão de 7,6% no período de abril a junho, o mais baixo nível desde o início de 2009, no auge da crise financeira global.

As previsões de que a situação melhorasse no terceiro trimestre foram abandonadas depois da desaceleração da produção industrial e das exportações em julho e deverão ficar ainda mais pessimistas com os dados de agosto. Os embarques chineses para o exterior registraram no mês passado alta de apenas 1% em relação a igual período do ano passado, abaixo da expectativa de expansão de 8%.

O PMI preliminar indica que as dificuldades no front externo continuaram em agosto. O subíndice relativo a novos pedidos de exportação ficou em 44,7, o menor desde março de 2009.

O fraco desempenho da economia em julho levou vários bancos a reduzirem a projeção de crescimento da China neste ano. O Bank of America Merill Lynch, que esperava expansão de 8%, prevê agora 7,7%, mesmo número do Deutsche Bank (que antes previa 7,9%). O Barclays reduziu a projeção de 8,1% para 7,9%, enquanto o Morgan Stanley baixou a sua de 8,5% para 8,0%. Em qualquer dos casos, será o menor ritmo de expansão em 13 anos.

Se os resultados de agosto também decepcionarem -como o PMI preliminar indica, é provável que os analistas revisem mais uma vez as estimativas. Depois da média de 10% de crescimento ao ano nas últimas três décadas, tudo indica que a velocidade será reduzida para algo em torno de 7% a 8% a partir de agora.

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