Fred DufourAFP
Fred DufourAFP

Desaceleração na China

Mensagem do premier Li Keqiang, na abertura da sessão anual do Congresso Nacional do Povo, deixa claro que expansão de dois dígitos é passado

The Economist

08 de março de 2015 | 02h05

Foram-se os tempos de crescimento de dois dígitos na China, com as metas oficiais sempre superadas com folga. Essa foi a mensagem transmitida dia 5 pelo primeiro-ministro Li Keqiang na abertura da sessão anual do Congresso Nacional do Povo, o parlamento fantoche do país. Li postulou um crescimento de "aproximadamente 7,0%" para este ano.

Em 7,4%, o crescimento do ano passado já foi o mais lento em quase um quarto de século. Ele disse que a desaceleração era o que o governo havia esperado na tentativa de construir uma economia mais forte e mais sólida. O caminho será duro.

Em seu discurso aos quase 3 mil delegados no Grande Salão do Povo de Pequim, Li disse que as dificuldades econômicas do ano em curso "poderão ser até mais formidáveis" do que as de 2014. As "pressões contrárias", ele disse, estão se intensificando. Mas ele também usou uma expressão que nos últimos meses se tornou um mantra para autoridades chinesas: o crescimento mais lento, ele disse, era o "novo normal".

Seu discurso foi apimentado com apelos para novas reformas econômicas, apesar das queixas de setores atingidos por fechamentos e perdas de empregos. Li falou várias vezes da necessidade de reduzir o poder e a interferência do governo. Ele recorreu até a um termo popular entre os internautas brincalhões chineses, renxing, que significa fazer o que der na telha: "Nem é preciso dizer que ter poder não significa que se pode renxing". Esse toque foi sua melhor tirada: os delegados deram risadinhas aprovativas. Mas Li queria dizer isso a sério, como uma advertência para as autoridades e dirigentes de empresas estatais não dificultarem as reformas.

Muitos já receberam essa mensagem de uma vigorosa campanha anticorrupção que começou há mais de dois anos e, diferentemente da economia, não mostra sinais de arrefecimento. Entre seus alvos estão 39 legisladores que ou já renunciaram ou foram demitidos. "Nossa posição dura sobre corrupção veio para ficar", disse Li.

Em 2 de março, o Exército publicou os nomes de 14 generais que foram punidos por corrupção ou estão sendo investigados. Mas isso não aplacou o fervor do governo por gastos militares, que continuam a crescer mais rapidamente que a economia como um todo. Li anunciou um aumento de 10,1% no orçamento militar, para US$ 144 bilhões, ante um aumento de 12,2% no ano passado.

A mídia estatal descreve o discurso anual do primeiro-ministro ao Legislativo como equivalente a um discurso sobre o estado da União de um presidente americano. O sabor não é o mesmo, porém. A oração de 100 minutos de Li foi, como sempre, recheada de estatísticas áridas e, tirando o renxing, pomposa. Ele não tinha piadinhas partidárias ao estilo americano para partilhar com delegados, todos eles escolhidos a dedo pelo Partido Comunista e "eleitos" sem votação popular.

Li lhes disse que as reformas de empresas estatais continuarão, e que o governo só autorizará mais investimentos privados e estrangeiros em serviços, um setor desde há muito dominado pelo Estado. Ele reconheceu uma área de desesperada necessidade: mais casas de repouso não governamentais para os idosos, que enfrentam listas de espera extremamente longas por camas em instituições estatais. Li também repetiu as promessas do governo de controlar o smog e outras formas de poluição. No discurso do ano passado, ele declarou "guerra" ao problema, mas as ansiedades públicas continuam altas.

Um documentário independente sobre meio ambiente provocou recentemente um intenso debate online (ver http://economist.com/news/china/21645853-online-video-whips-up-public-debate-about-smog-particulates-matter).

Metas. Mas há um número no discurso do primeiro-ministro que chamará a atenção de todos, dos dirigentes de aldeia a investidores estrangeiros: o do crescimento econômico. As metas de crescimentos formais da China costumavam ser, de fato, irrelevantes, pois a economia as ultrapassava facilmente. Agora que a economia amadureceu e desacelerou, porém, elas surgiram como balizas muito mais importantes para os resultados do governo. No ano passado, quando o Produto Interno Bruto estava em risco de cair abaixo da meta, as autoridades aceleraram os planos de gastos públicos e afrouxaram a política monetária, permitindo que o crescimento ficasse muito pouco abaixo da meta de 7,5%.

A meta mais baixa para este ano é um reconhecimento explícito de que a economia enfrenta dificuldades maiores. Mas é também uma maneira de o governo conseguir uma folga extra para empreender as muito necessárias reformas. Estas são voltadas para transitar de uma dependência pesada de investimento e crédito para um crescimento mais puxado pelo consumo.

Com os reguladores endurecendo o fluxo de crédito para municípios e empresas, muitos na China esperavam que o governo central aliviaria o sofrimento assumindo ele próprio uma carga maior dos gastos. Nas circunstâncias, ele ampliou a meta de déficit de 2015 para 2,3% do PIB, pouca coisa acima dos 2,1% do ano passado. Para a China realmente alcançar sua meta de 7,0% de crescimento, o governo central ainda poderá ter de oferecer um empurrão fiscal maior.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR CELSO PACIORNIK, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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