Desaceleração não inibe consumo dos chineses

Casada com um empresário da Mongólia Interior, Guo Yan Hua, 28, integra o grupo de chineses que sustentam a expansão do consumo no país. Na terça-feira, ela gastou pouco mais que 8 mil yuans (R$ 2.500) na compra de um iPhone e de um iPad na loja da Apple em Xidan, o bairro comercial no oeste de Pequim preferido dos jovens compradores.

PEQUIM, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h12

Quando a reportagem do Estado entrou no local, havia pelo menos oito chineses com iPhones recém-adquiridos, ainda na caixa. No subsolo, um mar de pessoas experimentava - e comprava - computadores e iPods.

Com milhares de visitantes todos os dias, a loja de Xidan tem o maior volume de vendas da Apple em todo o mundo. A primeira loja na China foi aberta em 2008 e hoje o país é o segundo maior mercado da empresa. No trimestre terminado em junho, a companhia faturou US$ 5,7 bilhões na Grande China, que inclui Hong Kong e Macau. O resultado foi 48% superior ao de igual período de 2011, mas ficou 28% abaixo dos US$ 7,9 bilhões do primeiro trimestre. Parte da redução é explicada pelo boom de vendas no começo do ano com o lançamento do iPhone 4S.

Além do iPhone e do iPad, Guo Yan Hua levava sacolas de roupas e planejava fazer outras compras. "Gosto de comprar bolsas e sapatos", disse a dona de casa, que visitava Pequim com amigas. Segundo ela, a desaceleração econômica não afetou seus hábitos de consumo, apesar de o marido ser dono de uma mina de minério de ferro, cujo preço caiu com o menor crescimento.

As vendas no varejo de janeiro a julho somaram 11,45 trilhões de yuans (R$ 3,63 trilhões), com alta nominal de 14,2% em relação a igual período do ano passado ou de 11,3% depois de descontado o efeito da inflação.

Li Yi Ming, 25 anos, já é dona de um iPhone e estava em outro shopping com sacolas da Nike e Neutrogena. Empregada de uma agência de publicidade, mora na Província de Hebei, a uma hora de trem de Pequim. O menor crescimento também não mudou seu estilo de vida. "O que mais me preocupa é a inflação."

No ano passado, a alta de preços ameaçou sair de controle e chegou a 6,5% em julho - o movimento foi provocado em grande medida pelo aumento da quantidade de dinheiro em circulação depois do anúncio de um megapacote de estímulo em novembro de 2008.

Para conter os preços, o governo apertou a política monetária. Apesar de a inflação ter cedido para 1,8% no mês passado, muitos analistas acreditam que há o risco de o indicador voltar a se acelerar na hipótese de as autoridades adotarem medidas muito agressivas de estímulo ao crescimento.

Fundo do poço. Quando a China anunciou crescimento de 7,6% no trimestre passado - o mais baixo em três anos -, a maioria dos analistas acreditava que a segunda maior economia do mundo havia batido no fundo do poço e começaria a reagir. Mas, depois que os dados de julho foram divulgados, muitos começaram a reduzir suas projeções de expansão do PIB e a prever que a eventual aceleração virá apenas no quarto trimestre.

O Bank of America Merill Lynch, que esperava crescimento de 8%, prevê agora 7,7%, o mesmo que o Deutsche Bank (que antes previa 7,9%). Barclays reduziu a projeção de 8,1% para 7,9%, enquanto o Morgan Stanley baixou a sua de 8,5% para 8%. Em qualquer dos casos, será o menor ritmo de expansão em 13 anos.

Depois da média anual de 10% de expansão nas últimas três décadas, tudo indica que a velocidade chinesa será reduzida a 7% ou 8% a partir de agora. As exportações cresceram apenas 1% no mês passado e a demanda interna não é suficiente para absorver um aumento da produção no ritmo registrado até agora.

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