Desaceleração pode ser resultado de gargalo de oferta

Para economistas, queda no crescimento do PIB apontada pelo IBC-Br seria uma espécie de 'ressaca' produtiva

IURI DANTAS , BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2014 | 02h04

A forte desaceleração da economia, culminando com a retração no segundo trimestre captada no índice IBC-Br pelo Banco Central, tem relação direta com um fenômeno técnico apontado por economistas como um gargalo de oferta.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram uma queda de 2,1% na Formação Bruta de Capital Fixo, o termômetro de investimentos da economia nacional, no primeiro trimestre do ano. O número de pessoas que não buscam emprego cresceu 5,75% de janeiro de 2011 a abril de 2014. De acordo com o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a produtividade da indústria caiu 2,9% em junho deste ano.

Trata-se, segundo especialistas, de uma espécie de "ressaca" produtiva, após anos de estímulo oficial ao aumento do consumo no País, em conjunto com restrições importantes provocadas pelo maior fechamento da economia, queda da produtividade do trabalhador e menor oferta de mão de obra. O quadro dificulta o crescimento da oferta de bens e serviços e pressiona os preços.

Investimentos. A situação se agravou neste ano em razão da queda nos investimentos, já que são eles que expandem a capacidade e possibilitam aumento da produção. No limite, por não haver condições físicas de produzir mais, não há crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), mensurado como uma síntese de todas as riquezas e bens do País.

"O Brasil está batendo no limite da oferta, enfrentando gargalos de oferta seriíssimos, a produtividade tem caído e a força de trabalho buscando emprego, tem apresentado variação negativa", diz Mauricio Molan, economista-chefe do Santander. "Se não consegue aumentar a capacidade produtiva, qualquer estímulo ao consumo vai ter aumento de importação e/ou aumento de inflação. Se você toma medidas para impedir o crescimento de importações, o impacto acaba sendo maior na inflação."

Ações adotadas pelo governo federal para encarecer ou barrar importados representam tiros que saem pela culatra para a indústria, que acaba usando insumos com menos qualidade e inovação, na avaliação de Jose Luiz Rossi Júnior, professor do Departamento de Economia do Insper. "A indústria está usando insumos mais caros e de pior qualidade", disse Rossi. "Essa falta de competição não dá incentivo para ela inovar como ela deve."

Agenda. Por se tratar de um entrave que afeta diretamente as empresas, tanto Mauricio Molan, do Santander, quanto o professor Rossi Junior do Insper, apontam a necessidade de uma agenda de melhorias no chamado ambiente de negócios.

Esse quadro, segundo os economistas, está na raiz do maior pessimismo que atinge empresários nos últimos meses. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a confiança dos industriais na economia atingiu em julho o menor resultado desde 1999.

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