Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Desafiando a gravidade

Os bancos brasileiros passam por cima da recessão que atinge o País - por enquanto

The Economist

09 de abril de 2016 | 05h00

Parece piada de mau gosto: o homem mais veloz do planeta fazendo propaganda de um banco no país que vive a freada econômica mais brusca do mundo. Em certo sentido, porém, o uso da imagem de Usain Bolt na publicidade do Banco Original é apropriada. Em 2015, a instituição, fundada há cinco anos, cresceu em ritmo de velocista: seus lucros aumentaram 51% em relação ao ano anterior, chegando a R$ 111 milhões. A carteira de crédito registrou expansão de 68,6%, somando R$ 4,25 bilhões, mesmo com a economia brasileira encolhendo 3,8%.

O avanço alucinante no crédito do Original é digno de nota. A demanda por empréstimos recuou bastante no País, já que a maior recessão desde os anos 1930 deixou as empresas brasileiras sem consumidores; e os trabalhadores, sem renda - quando não sem emprego. Com os créditos de liquidação duvidosa em alta, os bancos pensam duas vezes antes de conceder novos empréstimos. Depois de dez anos de expansão, o volume de crédito contratado mal saiu do lugar em 2015; em termos reais (isto é, descontada a inflação), houve retração.

Mas os resultados dos bancos brasileiros mostram que a maioria deles, como o Original, vem passando em brancas nuvens pela crise. Das cerca de 180 instituições monitoradas pelo Banco Central (BC), só 25, em sua maior parte bancos de pequeno porte, tiveram prejuízo em 2015. Até setembro, o lucro líquido do setor bancário como um todo (excluindo os bancos estatais de desenvolvimento) chegava a R$ 85 bilhões, frente aos R$ 66 bilhões de 2014. O retorno sobre o patrimônio foi de 15%, em média; resultado inferior aos 20% registrados em meados da primeira década do século, quando o Brasil era impulsionado pelo boom das commodities, mas melhor que o obtido nos últimos anos.

Isso parece desrespeitar os princípios da aerodinâmica financeira, assim com a figura esguia de Bolt (aparentemente alto demais para um velocista) põe em cheque as leis da física nas pistas de atletismo. A explicação, em parte, é que a queda no volume de empréstimos foi contrabalançada pelo aumento nas margens de juros (diferença entre as taxas que os bancos pagam a seus depositantes e as que cobram de seus devedores). Essas margens se alargaram muito depois que, a partir de 2013, o BC subiu sua taxa básica de juros, a Selic, em sete pontos porcentuais, elevando-a para 14,25%, na tentativa de controlar a inflação, atualmente em torno de 10%. O preço médio do crédito registrou alta anual de 32% em outubro. Enquanto os bancos dos países desenvolvidos penam com juros negativos, seus congêneres brasileiros, segundo José Perez-Gorozpe, da agência de classificação de risco Standard & Poor’s, embolsam retornos reais de aproximadamente 5% em títulos do Tesouro, que representam um quarto de seus ativos.

Por outro lado, além de contar com a sorte, os bancos brasileiros têm sido ajuizados. O sistema financeiro do País tirou boas lições da crise de 1995 a 1998, diz Ivan de Souza, da consultoria Strategy&. Naquela altura, instituições em situação falimentar, muitas delas estatais, foram divididas em duas partes: uma “ruim”, que permaneceu sob a administração do governo federal, para ser posteriormente liquidada, e uma “boa”, que foi vendida para bancos privados mais sólidos. 

O saneamento produziu um sistema mais concentrado: hoje, os cinco maiores bancos detêm 75% de todo o estoque de crédito. É também um sistema mais conservador, em parte porque os bancos são obrigados a fazer grandes provisões contra créditos inadimplentes (de 180% de seu valor atualmente). 

Quando veio a crise financeira global, apenas uma grande instituição, o Unibanco, teve problemas, em razão de perdas sofridas com operações de mercado. (O banco acabou se fundindo com o Itaú, dando origem à maior instituição bancária em capitalização de mercado da América Latina.)

Depois da crise, o governo brasileiro continuou a subsidiar o crédito oferecido por dois gigantes do varejo, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, e também por seu banco de desenvolvimento, o BNDES. Em vez de competir com os juros praticados por essas instituições, os bancos privados preferiram se concentrar na qualidade de seus ativos. Em 2011, quando a inadimplência no crédito automotivo começou a aumentar, indicando que haveria problemas à frente, os bancos privados voltaram suas baterias para tomadores com risco menor e ativos mais seguros, como o financiamento imobiliário e empréstimos consignados. Para preservar os lucros, as instituições privadas permitiram que os bancos estatais avançassem sobre sua participação de mercado: dos dois terços que detinham em 2008, sua fatia caiu para apenas 45% no ano passado.

Além disso, os bancos vêm dando mais ênfase a produtos e serviços que geram receitas menos voláteis, como seguros e cartões de crédito. Uma série de medidas, de programas de demissão voluntária ao compartilhamento de caixas automáticos, também os ajudou a reduzir custos. Investimentos pesados em tecnologia (R$ 22 bilhões só em 2014) permitiram que mais de metade das transações passassem a ser feitas online, reduzindo a necessidade de que os bancos mantivessem tantas e tão dispendiosas agências, que por lei são obrigadas a ter pelo menos dois vigilantes armados: no ano passado, o setor gastou R$ 9 bilhões em segurança (sem considerar o montante investido em segurança informática). O Original opera sem agência física, apostando em serviços exclusivamente digitais.

Boas práticas. Uma dose razoável de prudência e boas práticas administrativas ajudarão o Brasil a evitar uma crise bancária do tipo que atingiu economias como Espanha e Grécia. Menos de dez pequenos bancos foram liquidados - em sua maior parte por fraudes. Cerca de 70% dos créditos estão lastreados em depósitos. O risco de uma corrida aos bancos parece baixo: com a inflação em alta, deixar o dinheiro debaixo do colchão não é um bom negócio para os poupadores brasileiros, que também encontram dificuldades para investir no exterior. As reservas de capital do sistema como um todo, hoje em 15,8% de ativos ponderados pelo risco, está bem acima do mínimo exigido, de 11%.

A maior parte dos bancos privados brasileiros caminha para se adequar aos requerimentos de capital mais rígidos, estabelecidos pelo Acordo de Basileia 3, que entra em vigor, em sua totalidade, em 2019. Para os bancos estatais, a trajetória será mais árdua. Sobre um montante comparável de ativos ponderados pelo risco, essas instituições obtêm metade dos lucros de Itaú e Bradesco, uma vez que cobram juros mais baixos (se bem que elas também têm um volume menor de créditos de liquidação duvidosa, já que empréstimos mais baratos são mais facilmente amortizáveis). Os bancos estatais também vêm reduzindo a oferta de crédito. Apesar disso, o J. P. Morgan calcula que Banco do Brasil (BB), Caixa e BNDES terão de levantar R$ 56 bilhões, ou 0,9% do PIB brasileiro, em capital adicional.

Com um déficit fiscal de 10,7% do PIB, o governo brasileiro não está em condições de recapitalizar seus bancos, o que torna ainda mais alarmantes as recentes declarações da presidente Dilma Rousseff, sobre a necessidade de o BNDES injetar mais crédito subsidiado na economia. A ideia é bem-vista pela base de esquerda do governo, de cujo apoio Dilma precisa para tentar impedir a aprovação de seu impeachment no Congresso Nacional. A maioria dos economistas acha que o crédito direcionado afasta o investimento privado e faz com que a Selic permaneça em patamares muito mais elevados do que o necessário, uma vez que a taxa básica de juros só afeta o crédito não subsidiado, que atualmente corresponde à metade do estoque total.

A Caixa e o BB pelo menos vêm tomando medidas (tímidas) de proteção a seu capital. Em março, o BB decidiu pagar a seus acionistas 25% dos lucros, em vez dos costumeiros 40%. No mesmo mês, a Caixa elevou os juros de seus empréstimos imobiliários. 

As projeções indicam que os lucros do setor devem cair este ano. Segundo Natalia Corfield, do J. P. Morgan, se o PIB brasileiro voltar a encolher outros 4% em 2016, a inadimplência levará mais que o tradicional período de 11 a 17 meses para chegar ao pico e começar a recuar, o que exigirá a manutenção de provisões dispendiosas por um período mais longo de tempo. Com a exceção do Bradesco, cuja aquisição do negócio de varejo do HSBC brasileiro pode resultar numa economia de 30% para a instituição resultante da fusão, os demais bancos terão dificuldades em cortar mais custos. E, sem a perspectiva de novas altas nas taxas de juros, as margens permanecerão, na melhor das hipóteses, estáveis. Nem os bancos brasileiros são capazes de desafiar as leis financeiras eternamente.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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