Desafio da confiança

O maior complicador é que o tempo da política não encaixa no da economia

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2016 | 05h00

Ainda falta o julgamento pelo Senado, mas, apesar da declarada resistência da presidente Dilma Rousseff, sua saída, depois da aprovação pela Câmara dos Deputados, por votação inequívoca, da abertura do processo de impeachment, é dada como fava contada. Bolsas de apostas para a ocupação dos ministérios e beija-mão de Michel Temer, o sucessor constitucional, são movimentos típicos de um novo governo, embora este nasça com mandato reduzido pela metade.

Pelo fato de que represente oposição à muito mal avaliada administração de sua provável antecessora, espera-se que a chegada de Temer ao Planalto venha acompanhada, com ainda mais força, daquele período de distensão política e de expectativas positivas que costuma favorecer novos governantes. Mas, se as pesquisas de opinião rejeitam Dilma, também não são favoráveis ao sucessor. Há consenso de que esse primeiro momento favorável, no caso de Temer, tende a ser mais curto.

Sinais e ações concretas terão, portanto, de ser oferecidos logo na partida – e todos, Temer em primeiro lugar, sabem disso. O foco principal é o ataque aos desajustes das contas públicas e é nesse sentido que uma reforma administrativa, com redução de ministérios e cargos de confiança, que só depende da caneta presidencial – se bem que não tenha efeito excepcional no enxugamento de gastos –, exerceria forte impacto positivo nas expectativas e, por isso, aparece como candidata a carro abre-alas do novo governo.

Depois do dia seguinte, porém, a vida do novo governo começará a ficar mais dura. Antes da reforma da Previdência e de revisões em programas sociais, com potencial de atiçar parcela agressiva das ruas, medidas de austeridade fiscais mais pontuais teriam de passar pelo crivo do Congresso. É uma longa lista, inserida no programa “Ponte para o Futuro”, feito para a “campanha eleitoral” de Temer pelo PMDB, que inclui a adoção de orçamentos anuais (Orçamento Base Zero), com desvinculação de gastos obrigatórios, alguns constitucionais – por exemplo, saúde e educação –, revisão de indexação de benefícios ao salário mínimo e da sua própria fórmula de cálculo.

Conhecidos os resultados do impeachment na Câmara e as pesquisas sobre sua aprovação no Senado, neste momento todas favoráveis, muitos já imaginam que a tarefa, inclusive a de aprovar os repetidamente negados aumentos de tributos, ficou facilitada pela maioria robusta formada contra Dilma. Quem, porém, viu o escandaloso espetáculo da votação no domingo, deveria colocar um pé atrás, diante da realidade dos interesses difusos que move os parlamentares.

Supondo que as sombras da cassação do mandato de Temer pela Justiça Eleitoral sejam afastadas e que ocorra uma moderação das fases e denúncias da Lava Jato, no qual se enrosca, entre outros da base de apoio do novo governo, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, grande aliado de Temer e comandante do impeachment, restarão, na economia, grandes desafios. O primeiro, do qual dependeria a superação de vários outros, é o da sustentação da confiança de empresários e investidores.

Muito mais do que retórica, manter a tão desejada confiança exigirá ações efetivas na direção de recuperar a demanda e de baixar as taxas de juros. Difícil acreditar que haverá um movimento firme de recuperação dos investimentos enquanto os volumosos estoques atuais não forem absorvidos e a elevada capacidade ociosa do momento não for ocupada. Com desemprego em alta, inadimplência disseminada e crédito contido, promover essa recuperação não será tarefa trivial, mas, se isso é necessário, não é suficiente.

Enquanto a taxa de retorno dos investimentos for menor do que o custo do financiamento, não haverá confiança que resista e investimento que deslanche. O maior complicador aqui é que, mais uma vez, o tempo mais curto da política não encaixa no prazo mais longo da economia.

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