Desafio da nova geração é correr mais riscos

Com cenário de juros em queda, ganho maior só virá com aplicações mais agressiva

LUIZ GUILHERME GERBELLI , GUSTAVO FOSTER , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h10

A primeira geração que não tem a certeza de uma rentabilidade alta e segura ao fim de cada mês está se consolidando no mercado de investimentos. E os ganhos maiores só virão com mais risco nas escolhas de investimentos, o que provavelmente não seria muito bem aceito pelas gerações que tinham o juro alto garantido.

Os pais do gerente de promoção e evento Victor Wallauer, de 28 anos, por exemplo, enxergavam a Bolsa como um "cassino". Para ele, porém, é a chance de aumentar o rendimento. "Em alguns meses, quando enxergo boas oportunidades, tento colocar tudo o que ganho na Bolsa", diz. Ele também é daqueles que têm sangue frio para ficar seis meses sem fazer uma movimentação. O que não é aplicado na Bolsa vai para uma previdência privada, mas com um porcentual atrelado a ações.

Os dados de outubro da BM&FBovespa sobre o perfil do investidor pessoa física mostram que Wallauer faz parte da maioria que aplica em ações. Os investidores com faixa etária de 26 a 35 anos formam o maior grupo, com 135.235 contas abertas de um total de 571.890. Na sequência, estão investidores entre 36 e 45 anos. O maior montante investido, porém, está na mão dos aplicadores com mais de 66 anos (39,11% dos R$ 112 bilhões em circulação na Bolsa).

Se não há a vantagem dos juros elevados, a atual geração tem uma vantagem em relação às anteriores: a maior disponibilidade de informações. O analista de marketing Paulo Nascimento, 25 anos, também passou a aplicar no mercado de ações por causa da menor atratividade da renda fixa, e boa parte da orientação do investimento vem com a pesquisa em portais dedicados aos investidores. "Nos objetivos a curto prazo, mantenho o investimento na renda fixa, e para o médio e longo prazo estou partindo para a renda variável, devido às variações da taxa Selic", afirma.

Menos segurança. Investidor há cinco anos, o publicitário Pedro Sancha, 23 anos, conta que aplica na renda fixa como forma de equilibrar seus riscos: "Eu tenho dinheiro em alguns fundos arriscados, então a renda fixa me dá segurança nos investimentos e evita grandes perdas", explica. Ele diz que, na crise financeira de 2008, o que o salvou foram as aplicações em renda fixa. Porém, com a recente queda dos juros, Sancha não tem mais tanta segurança: "O que segurava minha onda era a renda fixa. Agora, com essa queda de juros, não ganho nem por um lado nem por outro".

A principal vantagem da renda fixa, segundo o publicitário, é que ela é um tipo de investimento que "não dá frio na barriga". "O risco de perder dinheiro é mínimo, quase inexistente, mas o ganho não é lá essas coisas." É por isso que Sancha utiliza as aplicações menos para fazer dinheiro e mais para ter uma forma de controle de gastos e segurança. Para isso, ele aplica de 30% a 40% de sua renda mensal. "Eu tinha a meta de chegar aos 30 com uma certa quantia investida, e sinto que a crise, aliada com a baixa taxa de juros, me quebrou um pouco as pernas", avalia.

Graças a esses dois fatores, o publicitário repensou seus investimentos: "Hoje tenho a percepção de que tirar o dinheiro do banco e aplicar em um negócio pode ser muito mais rentável". Porém, ele considera a segurança da renda fixa um fator importante para manter seus investimentos. "Eu vejo a renda fixa como um colchão que faz dinheiro", resume.

O que os números dizem nem sempre pode ser o mais vantajoso para o investidor. Ele deve sempre levar em conta se está disposto a correr risco na aplicação escolhida.

"Se o investidor não tiver estômago para correr risco, é melhor que ele fique na renda fixa", afirma Vera Rita de Mello Ferreira, professora de psicologia econômica da Fipecafi e autora do livro A Cabeça do Investidor.

Nessa fase de mudança de rumos dos investimentos, em que os brasileiros deixam uma situação de conforto (dos juros altos), é preciso que o investidor tenha sempre cuidado com o efeito de "manada", ou acaba tomando uma decisão equivocada.

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