Desafio de varejo e indústria é ter preço baixo e qualidade

Só eventual aumento da inflação ou do desemprego ameaçaria as vendas

Paula Pacheco, O Estadao de S.Paulo

11 de maio de 2009 | 00h00

A indústria e o varejo perceberam que as classes D e E são garantia de dinheiro em caixa. De acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), as classes AB têm renda domiciliar acima de R$ 4.897. Na classe C, a renda mensal vai de R$ 1.115 a R$ 4.897. A classe D ganha de R$ 804 a R$ 1.115 e a E recebe até R$ 804.O diretor da Engemix (divisão de cimento da Votorantim), Álvaro Luís Veloso, confirma que não houve retração. Nos primeiros quatro meses de 2009, diz, as vendas aumentaram 2% na comparação com 2008.Maria Antonia Santos, camareira de hospital, faz compras no Mercado Araújo, em Paraisópolis. Com salário de R$ 970, não abriu mão do suco Kapo e do bolinho Pullman para o lanche dos filhos. "A gente ouve falar da crise e até dá uma segurada nas despesas. Mas nada muito importante. As contas estão em dia e agora estamos aumentando a casa", diz. A rede de farmácias Pague Menos está em pontos nobres e em cidades do interior, onde o poder aquisitivo é baixo e a atividade industrial é pouco expressiva. "Essas cidades, menos afetadas pelo desemprego, não têm fábricas, vivem da agricultura, do comércio", observa Francisco Deusmar de Queirós, presidente da empresa.Na análise de Cláudio Bérgamo, presidente da Hypermarcas, o que mais afetas as classes D e E é a inflação. Como os preços da cesta básica começaram a recuar, acabam por poupar a base da pirâmide. "Essas classes serão as últimas a sentir a crise e só vão mudar os hábitos de consumo se a crise se prolongar demais", avalia.A Herbalife, presidida por Marcelo Zalcberg, também investiu na base da pirâmide e há dois anos passou a ter uma linha de cuidados pessoais mais econômica. "Só mesmo a limitação de crédito deverá afetar quem ganha menos. Mas no nosso caso isso não tem acontecido", afirma Zalcberg.Henrique Veloso, presidente da fabricante de balas Perfetti Van Melle, definiu como uma das estratégias da multinacional tirar proveito da crise. Acaba de lançar uma campanha voltada às regiões Norte e Nordeste de olho na baixa renda. Para se adaptar, a companhia reduziu as embalagens dos produtos. "Hoje, essa parte dos consumidores pode ter dinheiro apenas para comprar a monopeça, mas, quando a situação melhorar, queremos já fazer parte da vida deles", explica.Não é de hoje que a Nestlé observa a baixa renda, segundo Alexandre Costa, diretor de Regionalização. Para tirar vantagem, investiu na venda no porta a porta e desenvolveu embalagens menores e com materiais mais baratos, que resultam em preços mais baixos. Ele festeja: "A baixa renda, neste momento, direciona seu consumo para os alimentos." Diretor do instituto de pesquisas Nielsen, João Carlos Lazzarini analisa: "A base da pirâmide não tem espaço para errar e, em muitos casos, se comporta como os ricos. À indústria cabe desenvolver produtos que não abram mão da qualidade, mas que ofereçam uma vantagem a mais."

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