Desafio do Brasil é crescer a taxas chinesas, diz Roubini

O economista e professor disse que o País tem um grande potencial de expansão, mas precisa elevar PIB

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

21 de maio de 2009 | 17h48

O economista e professor da New York University Nouriel Roubini afirmou nesta quinta-feira, 21, em São Paulo, que o principal desafio para o Brasil é elevar o patamar médio de crescimento, que oscilou entre 4% e 5% nos últimos dois anos, para uma marca mais próxima do registrado pela Rússia, Índia e China que variou de 8% a 10% no mesmo período. "O Brasil tem um grande potencial de expansão, uma quantidade extraordinária de recursos naturais, mas precisa elevar (o PIB) para um nível mais próximo do registrado pelas nações que fazem parte dos Brics", comentou, referindo-se ao acrônimo formado pelas iniciais destas quatro nações.

 

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Ao discursar por pouco mais de um hora no evento "Perspectivas da Economia Mundial - Visão Geral e os Impactos no Brasil", promovido pela Serasa Experian, Roubini disse que o avanço do PIB potencial do País só será conquistado com alguns fatores: a ampliação dos investimentos em infraestrutura, melhora da qualidade do ensino no sistema educacional nacional e reformas estruturais capazes de dar mais eficiência ao setor público e estimular as empresas a ampliarem a Formação Bruta de Capital Fixo, o principal elemento que gera empregos e melhora a renda da população.

 

Roubini, no geral, fez avaliações positivas sobre o Brasil. Ele destacou a "estabilidade macroeconômica que perdura por vários anos", promovida de forma significativa pelo Banco Central, "que tem independência" para manter a inflação sob controle. "Isso fez com que o País apresente hoje resiliência, o que não permitirá que ocorra o risco de crise financeira, ao contrário do que aconteceu em 1999 e 2002", afirmou.

 

O acadêmico atribuiu o bom desempenho do País em meio à recessão mundial a outros elementos, como os resultados das contas externas, que não apresentam um déficit de transações correntes elevado, mais a solidez dos bancos que operam no território nacional, o que, para ele, está relacionada com a adequada regulação do sistema financeiro pelo governo. Ele usou o exemplo do País para defender a ação do Estado sobre a atividade das instituições financeiras em todo o planeta.

 

"Os governos devem agir sobretudo para evitar o surgimento de desequilíbrios macroeconômicos", comentou Roubini, acrescentando que isso também deveria ocorrer para coibir a expansão de bolhas de ativos financeiros. "A crise nos EUA, por exemplo, não afetou somente o mercado de hipotecas subprime, mas avançou sobre todo o sistema de crédito para a compra de residências e atingiu a concessão de financiamentos às empresas e consumidores", disse. "Não foi à toa que surgiu todo um abecedário de ativos financeiros que visavam lastrear operações envolvendo diversos títulos, como os CDOs", afirmou, referindo-se à sigla em inglês das Obrigações de Dívida Colateralizada, uma família de papéis que, na prática, dão direito ao portador de ficar com o ativo dado como garantia caso as obrigações do emissor não sejam honradas.

 

"A atual crise mostrou que estão errados aqueles que defendem o laissez-faire, pois o livre mercado da forma como vimos até recentemente causou problemas graves à economia mundial", comentou. Ele destacou, contudo, que apesar de o Estado ser importante para não permitir que os mercados financeiros atuem sem regras, como "uma selva", ele se mostrou contrário a que os governos implementem normas em excesso sobre as instituições que atuam no setor.

 

Seu ponto de vista é semelhante ao de alguns outros economistas brasileiros, como o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, para quem o governo deve coibir excessos de alavancagem dos bancos, mas não pode abusar das regras, sob pena de provocar, entre outras consequências, um sistema financeiro tão rígido e normatizado que inviabilizaria a concessão de crédito para empresas e famílias.

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