Desafio é maior do que apenas reduzir margens dos bancos

Análise: Roberto Luis Troster

É CONSULTOR, EX-ECONOMISTA-CHEFE DA FEBRABAN, DA ABBC, PROFESSOR DA USP, PUC-SP. , O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2012 | 03h05

A intermediação financeira no País tem potencial para ser um dos pilares do desenvolvimento, todavia, apresenta sinais de esgotamento e sua legitimidade está sendo colocada em xeque. As atenções estão nas margens (spreads) elevadas, a brasileira é segunda maior do mundo. Urge reduzi-las e o fato é que 136 outros países conseguem, prova que o Brasil pode.

O problema é mais grave do que o que está sendo debatido por quatro razões: os números são piores do que os divulgados - as estatísticas não incluem o cartão de crédito e os cálculos são feitos usando saldos em vez de concessões; há uma instabilidade de taxas e limites que aumentam a inadimplência e reduzem a demanda por crédito; o sistema é regressivo - os menos favorecidos pagam muito mais; e os prazos são curtos, agravando a volatilidade da oferta.

O desafio é maior do que apenas reduzir margens. O Brasil pode e deve ter ambição de uma intermediação financeira estável, eficiente e inclusiva, mantendo sua rentabilidade e solidez. Foram apresentadas três soluções.

A primeira foi o anúncio de baixar o custo dos financiamentos nos bancos públicos. Ela está fadada a apresentar resultados pífios. Isso porque, por um lado, as instituições oficiais não têm capacidade econômica para reduzir o conjunto de taxas de maneira expressiva. Por outro lado, a concorrência via preços é muito limitada. Essa estratégia já foi tentada antes e não deu certo, vide o caso do Banco Popular do Brasil.

Os bancos privados apresentaram a segunda saída: um conjunto de medidas para reduzir despesas, baixar a inadimplência, melhorar garantias e acelerar a execução de contratos. Como parte do problema são os custos, as sugestões estão na direção correta, mas, mesmo que aceitas integralmente, a oferta de crédito vai continuar aquém do potencial de contribuição do sistema.

A terceira proposta é a solicitação de um "gesto dos bancos"; pode dar certo. As disfunções da intermediação financeira têm sua origem no quadro institucional que é da época da inflação alta, em que as alterações no ambiente eram bruscas e o exigido era um sistema que sobrevivesse na instabilidade.

Atualmente, esse arcabouço está prejudicando, e muito, a oferta de crédito. É necessário outro paradigma que preserve as virtudes do sistema - solidez e rentabilidade -, mas que adicione legitimidade, estabilidade e eficiência e aumente seu potencial de crescimento.

Nesse sentido, uma proposta é o conjunto de vinte medidas, listadas em ordem alfabética: agência de proteção ao consumidor financeiro; ajustes nas regras de indexação; alocação de linhas decidida pelo cliente; bancarização ativa; cadastro positivo interativo; choque de eficiência na estrutura prudencial do sistema; critérios de riscos transparentes e aferíveis; limites de créditos globais; maior transparência nas informações do sistema; metas de margem; mudanças na tributação financeira; precisão de informações de clientes; preço igual para risco igual; qualificação e responsabilização para a concessão de crédito; regras de precificação definidas; relacionamento financeiro claro; renegociação institucionalizada; repressão e punição de abusos; simplificação e desoneração de operações abaixo de um determinado valor; e validade mínima de limites.

As medidas são simples, não dependem do legislativo para sua aprovação e, caso sejam implementadas, garantem às instituições financeiras mais lucros, mais legítimos e mais sólidos, e ao País mais desenvolvimento. O "gesto dos bancos" seria sua adoção. Só!

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.