Jeenah Moon/NYT
Jeenah Moon/NYT

Desafios após eleições incluem enfrentar desaceleração nas duas maiores economias globais

Além de todos os problemas internos, como o baixo crescimento econômico, presidente brasileiro eleito terá de lidar com as crises econômicas dos EUA e da China

Claudio Adilson Gonçalez, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2022 | 05h00

A gestão atual da economia brasileira transformou-se num vale-tudo para ganhar as eleições, sem qualquer análise dos custos e benefícios das medidas adotadas. Tampouco são levados em conta os enormes desafios, no plano internacional e doméstico, que o País deverá enfrentar.

Mesmo que adotemos algumas hipóteses otimistas para o cenário econômico global, como o fim do conflito na Ucrânia, o controle da pandemia na China e a consequente regularização das cadeias globais de suprimentos, as novas ameaças para o ano que vem são uma forte desaceleração da economia chinesa e um episódio recessivo nos Estados Unidos.

Em trabalho recente, os economistas Lawrence Summers (ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos e presidente emérito da Universidade Harvard) e Alex Domash (da Harvard Kennedy School) estimaram que, dados os níveis atuais de inflação e desemprego, a probabilidade de a economia norte-americana entrar em recessão, até o início de 2023, está entre 62% e 67%.

Esse risco sobe para mais de 90% quando o período de projeção é estendido até o final do próximo ano.

Na China, mesmo antes da política de tolerância zero para a covid-19, já se detectavam vários sinais de desaceleração iminente do ritmo de crescimento, principalmente pela capacidade ociosa em vários setores, e pelo provável estouro da bolha imobiliária, como ficou claro após as dificuldades financeiras da maior empresa desse segmento, a gigante Evergrande, em setembro de 2021.

Se em 2022 o Brasil está sofrendo as consequências da inflação internacional, em 2023 é provável que seja atingido pela desaceleração das duas maiores economias do mundo, o que criaria dificuldades para o setor exportador e para o ingresso de capitais no País.

No plano doméstico, além da virtual estagnação do crescimento econômico, que já dura quatro décadas, o grande desafio será a gestão das contas públicas. Fiando-se em um discutível aumento estrutural da arrecadação, o governo, com a conivência do Legislativo, vem concedendo desonerações fiscais de forma casuística, bagunçando ainda mais o nosso já caótico sistema tributário.

O novo Auxílio Brasil, de R$ 400 mensais, comparado ao antigo Bolsa Família, provocará impacto adicional permanente nas despesas de cerca de R$ 60 bilhões por ano, sem nenhum tipo de compensação financeira, seja por corte de outros gastos ou por aumento de receita.

A gambiarra da PEC dos Precatórios, por sua vez, está criando um passivo de centenas de bilhões de reais, que, apesar de não aparecer nas estatísticas usuais, não deixa de ser dívida pública.

Além disso, as pressões para o aumento de gastos serão gigantescas. Será muito difícil manter o congelamento de salários dos servidores, como também evitar alguma recuperação nas despesas discricionárias e nos investimentos públicos. 

 

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