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Desafios para a travessia

As perspectivas para o crescimento da economia brasileira se alteraram para pior nos últimos meses. Parte da perda do dinamismo advém de fatores externos, como os impactos da crise argentina para as exportações de manufaturados, especialmente automóveis. Outra parcela decorre de fatores domésticos. A aceleração da inflação de itens básicos da cesta de consumo médio das famílias, como alimentos e serviços essenciais, por exemplo, tem restringido o poder de compra dos consumidores, também afetado pela elevação do comprometimento da renda com endividamento. O aumento dos juros básicos, de 7,25% para 11% em pouco mais de um ano, e seus efeitos para a formação das demais taxas do mercado, encarecendo o crédito, também são um fator desestimulador do consumo.

Antonio Corrêa de Lacerda, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2014 | 02h03

Mais recentemente, a realização da Copa do Mundo de Futebol atraiu grande parte das atenções e, embora o evento por si só gere movimentação econômica, por outro lado, no curto prazo, seus efeitos foram de esfriamento de grande parte do comércio, impactando as contratações no setor industrial. Segundo dados da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP), neste mês de julho 31,8% dos empresários do setor consideram que acumularam estoques acima do ritmo de vendas, indicador cerca de 40% superior ao de um ano atrás. Isso tem feito com que as encomendas aos produtores sejam adiadas, com impactos em toda a cadeia.

O cenário de demanda estagnada, ou de baixo crescimento, é um fator desestimulador do impulso nos investimentos. Nos bens de capital, além da baixa atividade doméstica, no primeiro semestre houve um recuo de 10,3% nas importações de máquinas e equipamentos, com destaque para a parcela destinada ao uso industrial, que caiu 15,2% no mesmo período. De um crescimento de 5,2% no ano passado, a Formação Bruta de Capital Fixo, total dos investimentos públicos e privados em bens de capital e construção civil, deverá ter este ano uma retração mais ou menos da mesma grandeza, o que faria com que seu nível absoluto retornasse ao observado em 2012, mas menor proporcionalmente ao PIB.

Diante do quadro atual as empresas têm adotado uma tática defensiva, com corte de desembolsos e demissão de pessoal, o que já tem afetado o mercado de trabalho, especialmente o industrial. A prioridade tem sido a preservação da geração de caixa visando a gerar receitas mediante aplicações financeiras. Trata-se, evidentemente, de uma ação de sobrevivência de curto prazo, mas que não se sustenta como estratégia de longo prazo. O desafio empresarial é de se ajustar à atual conjuntura adversa, sem deixar de focar estrategicamente as oportunidades que se apresentam à frente, em razão do relevante mercado interno.

Sob o ponto de vista do valor agregado, o PIB do ano dificilmente apresentará um resultado acima de 1%, mesmo considerando um melhor desempenho no quarto trimestre, com seus efeitos sazonais do 13.º salário e das festas de final de ano.

Na política econômica, o desafio será criar melhores condições para evitar que a estagnação de curto prazo contamine ainda mais as decisões dos empresários e consumidores que possam comprometer o futuro. Neste ponto entra um fator crucial, que é a confiança. É preciso que se apresente uma proposta crível e factível de medidas de transição, o que se torna ainda mais relevante com a proximidade das eleições gerais.

O mesmo vale para os postulantes aos principais cargos. A explicitação de propostas e programas qualificaria o debate e contribuiria para a diminuição da incerteza. Os desafios para os próximos anos são expressivos, mas, por outro lado, há condições razoáveis de partida: nível confortável de reservas cambiais, contas públicas e externas deficitárias, mas não explosivas, e um ainda resistente nível de emprego e renda.

ANTONIO CORRÊA DE LACERDA É PROFESSOR-DOUTOR, É COORDENADOR DO PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM ECONOMIA POLÍTICA DA PUC-SP (LACERDA.ECONOMISTA@GMAIL.COM)

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