Desânimo de Amorim com Doha preocupa especialistas

Chanceler declarou que a retomada das negociações de acordos bilaterais pelo Mercosul será a alternativa para o bloco obter acesso a mercados

Agencia Estado

21 de junho de 2007 | 12h48

A bandeira dos acordos bilaterais de livre comércio, levantada na segunda-feira, 18, pelo chanceler Celso Amorim, deixou em observadores da política externa brasileira três amargas conclusões. Primeiro, o País está atrasado nesse campo. Segundo, o atual governo errou ao apostar todas as suas fichas na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Terceiro, não será fácil ao Brasil levar adiante uma agenda de negociações, dado o grau de assimetria entre os sócios do Mercosul e sua fragilidade acentuada pelo ingresso da Venezuela entre seus membros plenos."Estamos muito atrasados e corremos o risco do isolamento. Além dos problemas internos de valorização cambial, o governo não fechou acordos que permitissem a abertura de mercados ao produto brasileiro", afirmou José Augusto de Castro, diretor da Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB)."No atual estágio de desenvolvimento do Brasil, em que ainda é difícil assumir compromissos mais amplos de liberalização, o governo deveria ter explorado mais a conclusão de acordos comerciais. Mas não seria preciso esperar a Rodada Doha terminar para investir nessa área", avaliou o embaixador José Botafogo Gonçalves, presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).MercosulEm Potsdam (Alemanha), onde negocia com os ministros de Comércio dos Estados Unidos, da União Européia e da Índia um acerto comum sobre a Rodada Doha, Amorim declarou nesta terça, 19, que a retomada das negociações de acordos bilaterais pelo Mercosul será a alternativa para o bloco obter acesso a mercados a seus produtos. À imprensa, o chanceler informou que o Mercosul reiniciará suas conversas com a União Européia, suspensas desde 2005.Entretanto, ressaltou que a retomada da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) não está nos planos do governo. Em seus 13 anos de vida, o Mercosul conseguiu fechar acordos de livre comércio somente com seis de seus vizinhos da América do Sul. Um deles, a Venezuela, ingressou como sócio pleno no ano passado antes de firmar compromissos claros de aplicação das regras do bloco. Com a Índia, o Mercosul fechou um acordo de redução de tarifas que envolve apenas 1.000 itens do comércio bilateral. Com o México, o Mercosul permitiu a cada sócio fechar seu próprio acordo - que acabou restrito a um pequeno universo de itens, no caso do Brasil.Rodada DohaSegundo Botafogo, o Mercosul terá de se adaptar ao resultado da Rodada Doha - se essa negociação tiver sucesso - e encarar velhos dilemas, como o elevado grau de desrespeito à TEC pelos seus sócios, antes de se embrenhar na discussão de novos acordos. Terá de se ver, nesse processo, com a visão cada vez mais protecionista do governo e do setor industrial argentinos e com as queixas cada vez mais fortes do empresariado brasileiro contra o impacto da valorização cambial na sua competitividade."O Mercosul vai passar pelo teste da coordenação das políticas de negociação", afirmou o embaixador. Para Castro, a decisão do Brasil de apostar no abandono das negociações da Alca e na suspensão das conversas entre o Mercosul e a União Européia foram erros estratégicos que hoje se expressam na perda da presença de produtos brasileiros nos mercados europeu e americano.Para ele, em cada um desses processos de negociação, o alvo maior era o mercado brasileiro - ambição que daria, ao Brasil, uma situação a cavaleiro nas discussões sobre a liberalização. "A decisão de não negociar mais foi ideológica. A China agradece penhoradamente essa posição", resumiu.

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