Ralph Orlowski/Reuters
Ralph Orlowski/Reuters

Desânimo global está confinado à indústria

Pessimismo em relação à economia mundial vem crescendo, mas o setor de serviços, que tem peso maior no PIB do mundo rico, permanece forte

The Economist, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2019 | 05h00

O pessimismo em relação à economia mundial cresceu ao longo de 2019. Dados decepcionantes, queda nos rendimentos de títulos, a guerra comercial entre China e EUA e a crise política na Grã-Bretanha desempenharam um papel importante.

O único ponto favorável tem sido registrado nos animados mercados de ações. Amanhã, o FMI provavelmente vai rebaixar sua previsão de crescimento global para o ano, que em janeiro ficou em 3,5%.

Até agora houve apenas uma desaceleração, não uma recessão, porque a debilidade econômica limitou-se em sua maior parte ao setor de manufatura, em vez de atingir o setor de serviços. E uma recuperação na produção pode em breve animar o estado de espírito global.

Os problemas da indústria podem ser atribuídos em primeiro lugar à queda do crescimento do comércio global. Isso se deve em parte à guerra comercial e em parte às tentativas dos responsáveis pelas decisões estratégicas chinesas de reduzir a alavancagem, o que desacelerou o crescimento interno no ano passado, restringindo a demanda por importações.

A dor tem sido mais sentida na Europa, mais exposta do que os EUA aos mercados emergentes. Tem sido particularmente aguda na Alemanha. No dia 1.º de abril, pesquisa no setor alemão de manufatura, uma prévia que afetou os mercados em março, acabou mostrando um quadro pior do que o esperado. A produção industrial desacelerou de forma ainda mais acentuada na Alemanha do que na Itália, que está em recessão, observam os economistas do banco Goldman Sachs. No entanto, o setor de serviços da Alemanha cresce fortemente, assim como o da zona do euro em geral.

O setor de serviços é menos volátil do que a indústria, constitui uma fatia maior do PIB do mundo rico e, por sua natureza, comercializa menos. O fato de permanecer forte reflete, em grande medida, os mercados de trabalho e consumidores relativamente ativos (o desemprego na Alemanha é de apenas 3,1%).

Uma exceção tem sido a Grã-Bretanha, onde há crescimento na produção, em seu nível mais forte em mais de um ano, mas o setor de serviços encolheu. Ambas constatações estão relacionadas ao Brexit. A economia britânica sofre com a queda da confiança, enquanto a indústria manufatureira parece forte porque as empresas estão estocando no caso de a Grã-Bretanha sair logo da UE sem um acordo.

Nos anos 2000, alguns economistas especularam que o crescente peso dos serviços na produção poderia ajudar a explicar a “grande moderação” – a queda da volatilidade econômica depois de meados da década de 80. Embora a crise financeira global tenha elevado a volatilidade às alturas, neste verão a expansão econômica dos EUA, se continuar, se tornará a mais longa de todas. Ela terá sobrevivido a altos e baixos na manufatura que, em outra época, poderia ter sido mais visível em dados combinados.

A China voltou-se para o estímulo nos últimos tempos. Alguns economistas esperam que sua economia se recupere no segundo semestre. Em março, seus fabricantes registraram seu mês mais forte desde o último verão. Isso e alguns dados fortes dos EUA estimularam os mercados na semana passada. Mesmo que isso venha a se revelar um falso alvorecer, para que a China cause uma recessão econômica global, seria necessário que sua desaceleração se tornasse contagiosa, não apenas através das fronteiras, mas entre setores. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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