Desânimo na Petrobrás

Recuo é visto como dano incomensurável no planejamento estratégico

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

25 Maio 2018 | 04h00

Quando Pedro Parente adentrou anteontem à reunião do Conselho de Administração da Petrobrás, a primeira com sua nova formação, para anunciar a decisão de reduzir o preço do diesel, cedendo à pressão dos caminhoneiros, a reação foi de estupefação. Dos conselheiros presentes, apenas dois se manifestaram a favor da decisão de Parente, incluindo o representante dos funcionários. A maioria se disse claramente contrária.

Antes da decisão fatídica, um conselheiro chegou a dizer que a mudança da política de preços só seria feita “sobre o meu cadáver” (a decisão, na verdade, cabe à diretoria executiva, e Parente comunicou-a ao conselho por cortesia). 

Discutiram-se no conselho alternativas como, por exemplo, permitir que caminhoneiros antecipassem compras em momentos de preços baixos do diesel, só pagando à medida que fossem de fato consumindo o combustível – uma forma de fazer “hedge” contra as oscilações do preço que, de fato, podem trazer grandes prejuízos, já que os contratos de frete não têm como variar na mesma frequência.

A reação do staff gerencial e executivo da Petrobrás – fora do pequeno círculo no topo que tomou a decisão sobre o diesel – também foi péssima. O recuo na política de preços é visto como um dano incomensurável no planejamento estratégico da empresa.

O prejuízo em si com a redução e o congelamento do preço do diesel por 15 dias, estimado em R$ 350 milhões, e mesmo a enorme perda de valor de mercado com a queda do preço das ações, são vistos como problemas menores do que a perda de credibilidade e reputação.

A visão é de que a decisão sobre o diesel traz o risco de descarrilar o projeto “Poetas” de venda do controle (60%) das refinarias e infraestrutura no Sul, Norte e Nordeste (a Petrobrás seguiria como minoritária e, como o grosso do refino é na Região Sudeste, ainda ficaria com 70% do volume refinado). 

A ideia é criar um mercado privado de refinarias no Brasil, acabando com o monopólio da Petrobrás no setor, que é visto como um ônus para a estatal em termos de rentabilidade e de risco. 

O típico exemplo de risco é a própria greve dos caminhoneiros, que sabem ser muito mais fácil pressionar uma estatal, sujeita à interferência direta do Executivo e indireta do Legislativo, do que empresas privadas. No passado recente, a Petrobrás chegou a vender combustíveis com prejuízo estimado em R$ 40 bilhões. 

Adicionalmente, a Petrobrás gostaria de concentrar seus investimentos, restringidos pela necessidade de a empresa se desalavancar, na área de exploração e produção, muito mais lucrativa e na qual a estatal está na fronteira e é altamente competitiva.

Agora, porém, há a percepção de que o recuo no diesel coloca em sério risco o o projeto das refinarias. Empresas multinacionais vão pensar duas vezes antes de comprar o controle de refinarias no Brasil, quando se sabe que o governo pode impor uma política de preços à Petrobrás que a qualquer momento pode desequilibrar todo o mercado.

A venda das refinarias é uma das partes mais importantes do processo maior de realinhamento do portfólio e de desalavancagem contidos no atual plano estratégico da Petrobrás. Agora, toda essa grande mudança para melhor da estatal pode ficar em xeque, segundo algumas análises.

Outra preocupação é com o selo “Destaque Estatais” da B3 (empresa resultante da fusão da Bovespa, BM&F e Cetip), conquistado a duras penas no ano passado, num processo que envolveu várias mudanças no estatuto social. O impacto da perda desse selo seria péssimo, por exemplo, com os chamados fundos de investimento ESG (Environment, Sustainability and Governance), vários deles de países escandinavos e do norte europeu. 

Não há dúvida de que a reação inicial do grande grupo de apoiadores entusiásticos de Parente dentro da Petrobrás é de apreensão e desânimo. 

COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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